Recebi o convite em janeiro. O Festival de Arquitetura de Singapura, evento anual patrocinado pelo Singapore Institute of Architects, queria que eu fizesse uma apresentação sobre Roberto Burle Marx. Hesitei. O Festival seria em junho, quando eu já não estaria na Malásia mas em Angola, longe do Sudeste Asiático. O Festival insistiu. Pensei que eu não deveria deixar passar uma nova oportunidade de divulgar o nome do grande paisagista brasileiro. Aceitei.
Em uma coluna nestas páginas publicada em fevereiro, “Da Pampulha para Kuala Lumpur”, falei do jardim projetado por Burle Marx na capital malásia e do livro Um brasileiro em Kuala Lumpur: Roberto Burle Marx e o Parque KLCC. Resultado particularmente tangível do meu trabalho como embaixador na Malásia, o livro serviu ao meu propósito de tornar o Brasil e seus maiores talentos mais conhecidos naquele país.
Cada edição do Festival de Arquitetura de Singapura é organizada por um arquiteto diferente. Este ano, a tarefa coube a Rene Tan, cujo estúdio é responsável pelo conjunto residencial que considero o mais espetacular de Kuala Lumpur, o Fennel, com o qual ganhou vários prêmios internacionais.
Seminários de três dias, com multiplicidade de palestras, mesas-redondas e estandes são como a batalha de Waterloo na forma descrita por Stendhal em A Cartuxa de Parma. Muita coisa acontece ao mesmo tempo, em diferentes lugares, e captamos somente aquilo que está ao alcance mais imediato do olhar. Apenas Rene Tan, que durante três dias circulou incessantemente de um lado a outro, terá podido avaliar o resultado final do Festival. Para os palestrantes, restava o privilégio de estar ali, no Centro de Convenções do icônico Marina Bay Sands, símbolo arquitetônico de Singapura por excelência.
No painel de que participei, Alexander Wong, de Hong Kong, que eu já conhecia, expôs sua atividade como projetista de salas de cinema na China, com desenho futurista arrojado, em trabalhos amplamente elogiados pela imprensa ocidental. Em outro painel, o indiano Ambrish Arora explicou como, ao criar um hotel em Jodhpur, no Rajastão, na base da montanha onde sobressai o Forte de Mehrangarh, edificado entre os séculos XV e XVII, levou em conta a necessidade de não destoar da arquitetura histórica dos arredores mas evitar, ao mesmo tempo, um pastiche. No dia seguinte, no café da manhã no hotel, descobriríamos uma amizade em comum, André Corrêa do Lago, presidente da COP30 e membro do júri do Prêmio Pritzker.
Renata Furlanetto incluíra em sua fala uma foto do Palácio do Itamaraty, com o jardim aquático em evidência, idêntica a uma imagem que eu mostraria mais tarde em minha apresentação. Apontei não ser coincidência os dois brasileiros presentes no Festival exibirem um prédio que é, na conjunção da arquitetura de Oscar Niemeyer e do paisagismo de Burle Marx, um marco do modernismo brasileiro. Mostrar e ver em Singapura a sede da diplomacia brasileira, neste momento de tensões e incertezas geopolíticas, trouxe-me reconforto. A sua própria solidez parecia uma garantia de continuidade e equilíbrio.
Teria gostado de assistir a mais palestras no Festival. Perdi a de uma grande estrela, o japonês Riken Yamamoto, ganhador do Pritzker em 2024. Jantando com alguns dos participantes, conversei com o austríaco Dietmar Eberle. Sediado em Bregenz, ele me explicou que o grau de prosperidade da sua região geográfica é exemplificado pelo número elevado de museus de arte contemporânea ali abrigados. Por esse cálculo, os milionários brasileiros precisam ainda desenvolver a filantropia na área da museografia — e em tantas outras —, mas minha primeira reação foi pensar no fato extraordinário de Inhotim existir no Brasil.
Ao final do painel de que eu participava, o moderador, Calvin Chua, retomando o tema do Festival este ano, “Não pense (apenas) como um arquiteto”, perguntou o que nós, os quatro debatedores, sugeriríamos ao público como forma de pensar. Ofereci que pensassem como um diplomata. O diplomata um dia edita um livro sobre Burle Marx, no outro negocia um acordo internacional, mas seu objetivo final não varia ao procurar sempre promover a conciliação entre interesses por vezes distintos. Precisa, idealmente, desenvolver uma atitude serena, paciente, zen, no fundo bastante asiática, se quisermos usar um clichê. Seria útil para todo mundo cultivar um temperamento assim no dia a dia.
Uma pergunta da plateia sondou como lidar com o conceito de espaço. Melhor indagação impossível, em um festival de arquitetura. Decidi responder falando do espaço a ser almejado pelo diplomata. A questão que se coloca para mim, ao trabalhar no exterior, é como me inserir na sociedade local para influenciá-la em favor do Brasil. A defesa dos interesses e da imagem do seu país constitui, por definição, o espaço do diplomata. É no cumprimento desse dever, e não na expectativa de reconhecimento, que encontramos o propósito e a gratificação da vida profissional.
A palestra em Singapura permitiu-me incluir curtas estadas, na ida e na volta, em Kuala Lumpur. Foi maravilhoso rever amigos nas duas cidades, nessa intensa viagem de uma semana. No último dia, uma jornalista malásia me perguntou se voltar ao Sudeste Asiático, de onde eu partira em fevereiro, me causava nostalgia. Respondi com sinceridade que não. Meus cinco anos em Kuala Lumpur foram perfeitamente felizes. Voltar menos de cinco meses depois proporcionara momentos mágicos. Mais importante do que o espaço exterior, contudo, é o espaço interno.
Esse começa vazio, enorme, infinito. Gradualmente, como pedras ou tijolos em uma construção física, família, amigos, lugares, livros, obras de arte, o tempo e a memória vão construindo um edifício. Onde eu estiver, ele sobrevive, continuamente acrescentando andares, mais sólido do que qualquer arranha-céu, casa ou gabinete.
Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 19 de julho.
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Como nos lembra o historiador Thierry Sarmant no livro que publicou este ano, História dos palácios: o poder e sua encenação na França, do século V ao XXI, os locais onde vivem e trabalham os governantes sofrem constantes evoluções.
Há poucos meses, o presidente da França abriu as portas do Palácio do Élysée à cadeia norte-americana de notícias CNN. Entre os temas de que tratou com o jornalista Richard Quest estiveram inteligência artificial, Gaza, sua ambição por uma maior independência estratégica da União Europeia e a guerra na Ucrânia. Pouco pressionado pelo entrevistador, Emmanuel Macron transformou a ocasião em um monólogo, em um inglês fluente mas com sotaque.
Ao final da conversa, exibiu algumas salas do Élysée. Comentaristas franceses apontaram a raridade do tour assim proporcionado pelo presidente. Nas imagens que registram a visita nota-se o contraste entre de um lado obras de arte e peças de mobiliário contemporâneas, de outro móveis do século XVIII e entalhes dourados nas paredes do edifício, construído a partir de 1722 para um membro da alta nobreza.
No Salão Cleópatra, a tapeçaria mostrando o encontro entre Marco Antonio e a rainha egípcia, que empresta seu nome ao aposento, foi retirada. Em seu lugar, pendurou-se uma obra recente e estridente. No Salão Pompadour está exposta outra tapeçaria, “Mulher no espelho”, baseada em uma litogravura de Joan Miró. Minha peça predileta é uma escultura em mármore e bronze por Arman, “Tributo à Revolução de 1789”, encomendada por François Mitterrand para celebrar o bicentenário da Revolução. Colocada no vestíbulo, é a primeira visão que os visitantes ilustres recebem do interior do palácio.
Sobram hoje poucos vestígios dos locais de residência dos reis Merovíngios. Sarmant entende, no entanto, que as jóias e os móveis luxuosos que sobreviveram — como o trono de Dagoberto, que uma vez vi em uma exposição em Veneza — permitem pensar que aqueles soberanos do início da Idade Média viviam de maneira menos rústica do que imaginamos. Já dos Carolíngios restam ainda prédios, embora o mais famoso deles, a Capela Palatina em Aix-la-Chapelle, ou Aachen, esteja situado no que é hoje território da Alemanha. A partir dos Capetos, Paris gradualmente se impõe como capital, e vários castelos dos monarcas, na cidade principal ou perto dela — o Palais de la Cité, o Louvre, Vincennes, Fontainebleau, Saint-Germain-en-Laye — passam a ter perenidade, embora sofram importantes mutações com o tempo. Nos últimos cem anos da monarquia absolutista, Versalhes passa a ser, como sabemos, a residência preponderante.
Sarmant nos mostra como o Elysée, casa e escritório do presidente da República Francesa desde a década de 1870, excluindo-se o período da II Grande Guerra, marcado pela ocupação alemã, é modificado pelos titulares do cargo. Em geral, os presidentes preferem mobília Luís XV ou Luís XVI. Georges e Claude Pompidou, assim como Emmanuel e Brigitte Macron, são exceções, e optaram por artistas e projetistas modernos.
Uma moral que extraí da leitura de Histoire des palais é a transitoriedade até mesmo do poder aparentemente mais sólido. O gradual fortalecimento, ao longo de 800 anos, com sobressaltos, dos Capetos e seus ramos Valois e Bourbon, que resultou na unificação territorial da França e no absolutismo, é eliminado em um par de anos, entre 1789 e 1792. Edificados durante séculos, os palácios da dinastia são rapidamente apropriados por novos governantes, sobretudo aqueles situados em Paris e seu entorno. Versalhes, com sua excessiva carga simbólica, é a exceção.
O Palácio das Tulherias, última morada de Luís XVI e Maria Antonieta antes da sua prisão e da abolição da monarquia em setembro de 1792, é o caso mais emblemático. Já em maio de 1793, lá se instala a Convenção Nacional revolucionária. Como aponta Sarmant, todos os regimes do século XIX que governaram a partir das Tulherias “buscaram o fausto monárquico, na suposição de que assim impressionariam os franceses, mas isso não salvou nem Napoleão I em 1814, nem Carlos X em 1830, nem Luís Filipe em 1848, nem Napoleão III em 1870”.
O Élysée tornou-se residência dos presidentes porque, apesar de suas conexões monárquicas — pertenceu a Luís XV; à sua favorita, a marquesa de Pompadour; a Napoleão I, que lá abdicou pela segunda vez em 1815 (e antes disso à sua irmã, Caroline Murat, rainha de Nápoles); e a Napoleão III — é um palácio de segunda divisão. Luxuoso, mas pequeno para padrões reais, e nunca residência oficial de soberanos franceses. Fica a dúvida no leitor se, caso as Tulherias não tivessem sido incendiadas pela Comuna em 1871, o regime republicano não teria cedido à tentação de lá se instalar.
Duas vezes trabalhei em palácios brasilienses, o Itamaraty e o Planalto. São obras-primas da arquitetura modernista brasileira, os mais bonitos de Brasília, junto com o Alvorada. O Itamaraty pareceu-me sempre acolhedor, apesar das salas subterrâneas. Como o Élysée sob alguns dos presidentes franceses, mas de maneira mais convincente, mistura quadros e móveis antigos com obras mais recentes, ajudado nisso pela arquitetura inovadora. O Planalto é elegante mas francamente gélido. Sentar-se lá é como isolar-se de qualquer outra realidade física conhecida. Quanto ao Alvorada, são conhecidas as queixas de falta de privacidade de alguns de seus moradores.
A leitura me fez questionar a razão pela qual, em uma capital republicana, inaugurada em 1960, deu-se o nome de “Palácio” a esses e a outros edifícios de Brasília. O local ainda considerado o centro do poder no Ocidente é conhecido simplesmente como uma casa, a Casa Branca.
Uma coisa é certa: os títulos dos governantes e os nomes de suas residências mudam mas, como a natureza humana é uma só, perduram as cortes e as intrigas em torno do exercício do poder.
Coluna publicada no jornal Estado de Minas ontem, 5 de julho.
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Transcrevo minha coluna quinzenal publicada no jornal Estado de Minas ontem, 21 de junho:
Minha mãe, Thereza Quintella, cumpriu 87 anos em 27 de maio. Pedi uns dias de férias para viajar de Luanda ao Rio de Janeiro e comemorar a data com ela. Decidi maximizar a ida ao Brasil com uma noite de autógrafos em Brasília.
Fiquei feliz de rever tantos amigos, ao assinar dedicatórias de Geografiadotempo na Livraria da Travessa. Aquela seria minha única oportunidade de estar com eles, já que no dia seguinte eu regressaria ao Rio. A divulgação fora bem-sucedida e havia, na fila, muitas pessoas que eu não conhecia, cuja curiosidade fora despertada pelas entrevistas e matérias na imprensa ou em portais na internet. O primeiro a falar comigo na livraria, na verdade, estava ali por acaso. Entrara para explorar as novidades, vira o aviso da noite de autógrafos e quisera saber mais.
Perguntou-me o sentido do título “Geografia do tempo”. Expliquei que uma das minhas indagações sobre o mundo é a constante variação entre a presença e a ausência de pessoas e lugares em nossas vidas. É um fluxo e refluxo em que podemos nunca mais reencontrar os seres mais queridos, por razões fora do nosso alcance; ou, ao contrário, circunstâncias imprevisíveis podem tornar as pessoas ainda mais presentes, por um período que será longo ou curto, mas jamais eterno.
Da mesma forma, avaliamos que um parque, uma cidade, um país, uma obra de arte ou um autor ficarão conosco para sempre; e no entanto, tantas vezes eles acabam por se perder para nós. A memória, assim, é como um ser independente. O tempo nos faz lembrar de algumas pessoas e de alguns lugares, e esquecer de outros, e torna misteriosa, à medida que nos deslocamos por este mundo, a geografia dos nossos sentimentos.
Assinei exemplares de Geografiadotempo durante três horas e meia. Ao sair da livraria quando já fechavam as portas, liguei o celular e vi mensagens de minha mãe e de minha irmã avisando que, enquanto eu conversava com leitores e amigos em Brasília, no Rio falecera Marcos Azambuja.
Não é fácil discorrer sobre alguém com quem interagimos durante muitas décadas. As pessoas mudam com o avanço dos anos, e o Marcos Azambuja falecido em 28 de maio de 2025, aos 90 anos, era distinto daquele que primeiro conheci quando ele estava na faixa dos quarenta. Minha própria avaliação a seu respeito não poderia ser a mesma de quando eu tinha quatorze anos. Diante do seu falecimento tanto foi dito sobre ele, e da maneira mais elogiosa, na imprensa, nas redes sociais e nos noticiários de televisão, que parece difícil eu poder acrescentar algo.
Não é usual que a partida de um diplomata aposentado desperte tanto interesse midiático, o que diz muito sobre a celebrada capacidade de Marcos de encantar interlocutores. Sua trajetória diplomática, embora notável, por si só não justificaria tamanha comoção. Marcos não chegou a ser chanceler e sua gestão como secretário-geral das Relações Exteriores deu-se no mandato presidencial curto e conturbado de Fernando Collor de Mello. Sempre houve nele, porém, uma luz própria, uma inteligência vivaz, que não dependiam de funções ou cargos para se fazer visíveis e brilhar.
Quando o vi pela última vez, em julho de 2024, ele me lembrou que a aposentadoria lhe permitira dedicar-se a novas atividades, como palestrante em seminários, analista frequente sobre a situação internacional em telejornais, conselheiro de entidades privadas. Ao se aposentar, vira portas se abrirem. Pareceu considerar sua vida pós-Itamaraty tão estimulante, se não mais, do que a sua exitosa carreira diplomática.
Conhecido como frasista mordaz, daqueles que, como se diz, perdem o amigo mas não perdem a pilhéria, Marcos Azambuja era, na realidade e antes de mais nada, um hábil analista das situações. Isso valia tanto para a política e as relações internacionais como para os relacionamentos pessoais. Dissecava com lucidez e sem sentimentalismo os problemas do interlocutor e era, assim, objetivo e certeiro em seus conselhos. Para minha irmã, que foi sua nora e é mãe de dois de seus netos, ele se mostrou sempre um sogro afetuoso, atencioso, incentivador de seus projetos. Para minha mãe, um amigo cada vez mais presente com o passar dos anos.
O velório foi realizado, no Rio, no térreo do Palácio Itamaraty. Em 1912, o barão do Rio Branco lá também fora velado. Sem dúvida, Marcos teria apreciado essa homenagem. Andei pelas salas e corredores vazios — era sábado de manhã — daquela ala do Itamaraty. Naquele edifício tão carioca, cujo espaço me faz, no entanto, pensar em palácios romanos, iniciaram-se as carreiras de Marcos e de minha mãe. Ali, durante décadas, de 1899 a 1970, antes de a diplomacia brasileira mudar-se para Brasília, sonhos e ambições pessoais, mas também projetos para o País, foram arquitetados e tocados adiante, ou, ao contrário, desmantelados, de maneira muitas vezes arbitrária. Pensei no hábito comum a alguns diplomatas de, tendo morado em diversos continentes e viajado incessantemente pelo mundo, virem a morrer na sua cidade natal. Impossível decidir se há aí uma vitória do indivíduo sobre a geografia, ou da geografia sobre o indivíduo.
Vivenciar o dia a dia de maneira intensa, vibrante, é que era a forma de ser de Marcos Azambuja. Poucos dias antes de viajar ao Brasil, eu soubera pela minha mãe que ele preparava suas memórias. Se estiverem em estado de ser publicadas, trarão luz, com a efervescência e irreverência que o caracterizavam, sobre o que viu e ouviu em uma vida passada dentro do Itamaraty. No caso de Marcos, poderia haver uma vitória do indivíduo sobre o tempo.
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Hall dos Ministros, Palácio Itamaraty, Rio de Janeiro
Minha coluna quinzenal no jornal Estado de Minas publicada ontem, 24 de maio:
Meu pai, também Ary Quintella, entrevistou em 1970 o político mineiro Afonso Arinos de Mello Franco. A conversa aconteceu na casa de Botafogo, na rua Dona Mariana, onde o ex-ministro das Relações Exteriores morava e que ainda existe, e onde eu mesmo estive quando ela servia de sede ao centro de pesquisas Brics Policy Center.
Naquele mesmo ano de 1970, meu pai conduziu entrevistas com diversos autores brasileiros para o suplemento literário do Jornal do Commercio carioca. Algumas foram publicadas, outras não. Ignoro as razões para a seleção final, ou mesmo para a escolha dos escritores. As conversas realizadas com Rachel de Queiroz e Mário Palmério, outro mineiro, viraram referência e são sempre citadas por estudiosos de suas obras.
A longa entrevista com Afonso Arinos, que eu saiba, nunca veio a público. Apenas em 2019, vinte anos após a morte do meu pai, preparando-me para partir como embaixador na Malásia, descobri, classificando seus documentos, uma pasta contendo a transcrição de todas as entrevistas. O diálogo com Afonso Arinos chamou minha atenção, talvez por vício profissional, já que o senador foi chanceler em dois períodos, de fevereiro a agosto de 1961 e de julho a setembro de 1962, que integram o que viria a ser conhecido como Política Externa Independente.
Há muito a saborear no diálogo, por causa da cumplicidade entre entrevistado e entrevistador. Meu pai explica sobre seu interlocutor: “Sua fala é tranquila e sem vacilações: absoluta sinceridade, que espouca decididamente”. Afonso Arinos comenta ter sido colega de classe no Colégio Pedro II de meu avô, o matemático, também Ary Quintella.
Um dos temas mais presentes é Guimarães Rosa. Discutem sua personalidade, seu “método de composição”. O autor de Grande Sertão: Veredas sentara-se, um dia depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras — quando fora saudado por Afonso Arinos — e um dia antes de morrer, na mesma poltrona na varanda da casa na rua Dona Mariana de onde meu pai conduzia o diálogo. “Guimarães Rosa gostava dessa aí”, diz o político mineiro, apontando a poltrona, e meu pai, que então apenas iniciava sua carreira literária, comenta com o leitor: “sinto um arrepio ao longo da espinha”. Recorda Afonso Arinos que “Rosa era de uma amabilidade exuberante, implacável, minuciosa, que nos obrigava a tomar cuidado para não lhe causar nenhuma decepção”.
Casa de Afonso Arinos na rua Dona Mariana, Botafogo, Rio de Janeiro
A conversa flui, passando da literatura brasileira para a francesa, e incluindo Jânio Quadros, Che Guevara e o Papa João XXIII. Sobre a Lei Afonso Arinos, de 1951, primeira norma no Brasil contra o racismo, o político declara ter sido “a mais importante realização da minha vida parlamentar”. Afirma que sempre se dedicou à política “com esmero, por uma questão de decoro e consciência, mas sem paixão”. Famoso pela capacidade oratória, admite: “se de fato eu tivesse no coração aquela paixão que demonstrava em minha voz quando fazia discursos violentos, eu já teria morrido há muito tempo”. Meu pai pergunta: “Era simulação?”, e ele responde: “não era simulação, mas a consciência de uma representação. Aliás, é a primeira vez que digo isso com tal franqueza”.
Há momentos de indagação filosófica: “esse problema de fixação no tempo, Ary, é coisa que todos nós nos consultamos permanentemente: quem somos nós, de onde viemos, para onde vamos? Não há ninguém que tenha um pouco de capacidade de se demorar dentro de si mesmo que não esteja sempre perseguido por essas ideias”. Meu pai faz uma pergunta difícil e pertinente, considerando o ano em que se realiza a entrevista: “Não se sente frustrado ao dar aulas de direito constitucional?”.
Indagado sobre “sua melhor experiência como chanceler”, Afonso Arinos responde: “ela se situa fora do Ministério, depois que o deixei. Durante todo o período em que fui ministro, só encontrei resistências, incompreensões e obstáculos às minhas ideias”. Só depois suas tentativas de “viabilizar a afirmação da personalidade nacional” viriam a ser aceitas. Não sente saudades do Itamaraty, “pelas injustiças” que sofreu, “de ataques feitos por interesses escusos”.
Em um de seus livros de memórias, Planalto (1968), o político estende-se sobre esse assunto e nota que a hostilidade não vinha somente do empresariado ou da imprensa. “Tudo aquilo que podia representar cultura, inteligência, independência, trabalho, nacionalismo não existia para a maior parte do grupo dominante do Itamaraty”, escreve, e condena a “frivolidade condecorada” de diplomatas. Mesmo um senador ilustre, patrício, destacado político conservador não conseguiu que seus objetivos de “criação daquela imagem de um Brasil consciente e forte” fossem aceitos.
Um tema candente no Brasil, desde a década de 1950, era o das colônias portuguesas na África, em relação ao qual o Brasil, até a presidência de Jânio Quadros, se alinhava às teses portuguesas. A mudança de orientação a partir de 1961, diz Afonso Arinos a meu pai, constituiu uma das principais razões das críticas que recebeu como chanceler, ao ser acusado de não guardar “a tradição da fraternidade luso-brasileira”, e lembra: “nós somos o maior país africano do mundo”. Avalia que o Brasil, embora não sendo “uma grande potência”, é “uma grande nação” e “deve e pode” contribuir “como força decisiva no sentido da paz mundial”.
Como conclusão da entrevista, declara o ex-chanceler: “o grande problema da humanidade é a paz” e lamenta-se com meu pai: “nós poderemos assistir durante toda a nossa vida a essa sucessão monótona de tragédias, limitadas a tais ou quais regiões do planeta, e que desencadeiam brutalidades que não poderemos jamais compreender”.
É desconsolador saber que, desde 1970, nada mudou.
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No final de novembro, viajei de Kuala Lumpur ao Rio de Janeiro para lançar meu livro Geografia do tempo. Compromissos de trabalho me obrigaram a viajar de volta à Malásia logo após a noite de autógrafos.
Em 28 de maio, viajarei de Luanda a Brasília especificamente para fazer noite de autógrafos na Livraria da Travessa do CasaPark, a partir das 19h.
Espero vocês lá. Será uma festa. Tragam os amigos.
O seu convite para a noite de autógrafos deGeografia do tempo
Transcrevo abaixo minha coluna quinzenal no jornal “Estado de Minas” publicada em 10 de maio:
A imigração chinesa aos territórios que eram então as colônias britânicas da Península Malaia e de Singapura, ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX, é uma história de superação da extrema pobreza. Os imigrantes viviam em condições insalubres, submetidos a trabalhos fisicamente árduos, enfrentando enorme dificuldade financeira.
Fortunas surgiram porém já no século XIX. Existe em George Town, capital da ilha e do estado de Penang, a célebre “mansão azul”, ou “mansão de Cheong Fatt Tze”, do nome de seu proprietário original, nascido em 1840 e falecido em 1916. Cheong Fatt Tze elevou-se, pelo trabalho no comércio, a um nível de riqueza tão impressionante que chegou a ser conhecido como “o Rockefeller do Oriente”. Sua casa é hoje um hotel; serviu de cenário, no cinema, para Indochina (1992) e Podres de ricos (2018). Nesse último filme, o jogo de mahjong entre as futuras sogra e nora foi filmado no pátio da “mansão azul”, embora o enredo se passe em Singapura.
Hoje, a população de origem chinesa na Malásia situa-se em torno de 23%. Em Singapura, onde a proporção de chineses étnicos chega a 80%, ao caminhar pelas ruas ouve-se mais facilmente transeuntes conversando em mandarim do que em inglês. A influência chinesa, misturada à malaia, deu origem à cultura peranakan, particularmente viva hoje, nos dois países, e de forma deliciosa, na área gastronômica.
Tash Aw é um dos escritores malásios de língua inglesa mais conhecidos da atualidade. Seus cinco romances — o quinto foi publicado este ano — não foram ainda traduzidos no Brasil. Em Portugal, a tradução do primeiro, The Harmony Silk Factory (2005), recebeu o título de A fábrica das sedas. Durante o primeiro confinamento causado pela pandemia de Covid-19, em 2020, eu acabara de chegar à Malásia, e esse livro ofereceu-me a experiência possível do país.
A editora brasileira Todavia lançará, este ano, Estranhos em um píer, obra autobiográfica de Tash Aw de 90 páginas. Ao contrário de Podres de ricos, o livro não nos mostra os excessos dos bilionários contemporâneos, de origem chinesa, na Malásia ou em Singapura. Descreve a criação, a partir da segunda metade do século XX, da classe média urbana malásia.
A aventura familiar começa com os dois avós. Um fala o dialeto chinês hokkien, o outro o dialeto hainanês. Ambos aportam em Singapura na década de 1920, vindos do sul da China. Estrangeiros no píer, não se sentem porém estranhos ao lugar. A ilha é uma colônia britânica, mas é também um entreposto comercial. A imigração chinesa começara oitenta anos antes, e os avós de Tash Aw “estão a muitas gerações de serem pioneiros”. Abandonaram um país “devastado pela fome e pela guerra civil”. Não viveriam o suficiente para ver a pátria original “tornar-se a fábrica do mundo, o maior consumidor de bens de luxo e a segunda economia mundial”.
Instalam-se ambos na Península Malaia. Vão viver no campo, “às margens de rios amplos e barrentos”. Um deles mantinha uma venda, o outro era professor rural. Um capítulo detém-se na figura de uma das avós, na verdade madrasta de sua mãe. Nascida em uma aldeia na selva malásia, em uma família sem recursos, algumas realidades cedo se impuseram sobre ela: nunca frequentaria uma escola, começaria a trabalhar ainda muito jovem e teria de se casar com o primeiro homem aceitável que se apresentasse.
Na escola pública malásia onde o autor estudou na década de 1980, os alunos eram “parte de um processo de formação da nação”, cujos pais “acreditavam em um projeto comum de construção do ´eu´, da sociedade, do país”. Eram todos eles “filhos dos que passaram privações, nascidos em um país que nunca antes produzira uma burguesia”. Tash Aw pertence à geração que testemunhou o desenvolvimento industrial e tecnológico da Malásia. Quatro décadas depois, importante elo na cadeia global de semicondutores, o país está a um passo de se consolidar como nação de alta renda.
Descendentes de imigrantes tendem a “criar narrativa de trajetória positiva, com alguma dose de sofrimento bem apresentado, naturalmente superado, que valorize a ascensão ao conforto, ao sucesso e à felicidade”. Conflitos entre etnias, religiões e classes sociais são vistos como menores e relativos ao passado. Membro de uma etnia minoritária, Tash Aw entende ser preciso “provar que você é trabalhador e útil para a sociedade, mas não a ponto de se tornar uma ameaça; então você desvia atenção da sua pessoa”.
Estranhos em um píer é um texto muito rico. Trata, em poucas páginas, do processo de urbanização, do surgimento da prosperidade em um país que se modernizou rapidamente, e do fosso assim criado entre gerações mais novas e mais instruídas e as anteriores ou as que permaneceram rurais. Ir de Kuala Lumpur à aldeia, para visitar parentes, significava para o autor esconder os livros que estava lendo e modificar a maneira de falar. Sua irmã, “mais determinada a escapar” daquela realidade familiar, sente-se menos constrangida e pratica abertamente “caligrafia chinesa e gramática francesa”.
Tash Aw hoje mora no sul da França; visita os pais com frequência na Malásia, onde é uma celebridade. Em uma das vezes em que almoçamos juntos em Kuala Lumpur, comentei que Estranhos em um píer me permitira aprender mais sobre seu país do que qualquer volume de história ou de sociologia.
Mas o livro vai além. Como toda obra autobiográfica verdadeiramente literária, ilumina o processo de conscientização, por um ser humano, de sua individualidade.
Conversando com Tash Aw em Kuala Lumpur, em novembro de 2024, no lançamento do último livro de William Dalrymple, “The Golden Road”; e “Estranhos em um píer”
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Transcrevo minha coluna quinzenal no jornal “Estado de Minas“, publicada ontem, 26 de abril:
O desaparecimento do papa marca a imaginação coletiva. A constatação de que pode haver apenas um pontífice em exercício cria para o ocupante da cadeira de São Pedro uma posição única. Presidentes e primeiros–ministros detêm títulos raros, mas há uns duzentos deles no mundo. Mesmo os reis, escassos hoje, são ainda algumas dezenas. O papa é só um.
Tendo sido Francisco um homem humilde na maneira de ser, teremos neste sábado, paradoxalmente, o espetáculo grandioso do seu sepultamento. É um lugar comum a observação de que nenhum protocolo se assemelha ao do Vaticano ou ao da Corte inglesa. Por mais simples que seja um bispo de Roma, ele continua encarnando a figura papal até entrar no túmulo, e o público espera assistir a um belo ritual.
Ao mesmo tempo, por mais admirado e querido que seja o sucessor de São Pedro, iniciam-se imediatamente, quando ele falece, as especulações sobre seu substituto. Haverá sempre um papa, espera-se, até o fim da humanidade, variando apenas os indivíduos que exercem a função ao longo da História.
Quando Francisco partiu, pensei em um diplomata que conviveu com quatro pontífices. Carlos Magalhães de Azeredo chefiou, durante vinte anos, de 1914 a 1934, a representação do Brasil junto à Santa Sé, onde servira anteriormente como secretário. Aposentado, ficou vivendo em Roma, onde faleceu em 1963, aos 91 anos.
Poeta, contista, membro fundador da Academia Brasileira de Letras antes de completar 25 anos, ele hoje é lembrado como amigo de Machado de Assis, 33 anos mais velho. No terceiro volume da correspondência machadiana, publicado em 2011 pela Academia Brasileira de Letras, Sergio Paulo Rouanet comenta: “a partir de 1892, as cartas de e para Azeredo predominam de modo avassalador”. A correspondência entre os dois compõe um livro muito útil, de quase trezentas páginas, editado em 1969 por Carmelo Virgillo. Em O presidente Machado de Assis, Josué Montello já comentava, em 1961, ser essa “a mais importante correspondência epistolar da literatura brasileira”.
É em uma obra de Afonso Arinos, Amor a Roma (1982), que primeiro li sobre Magalhães de Azeredo. O futuro senador, chanceler e acadêmico, passando semanas em Roma em 1925, aos 19 anos, conviveu com Azeredo — era 33 anos mais jovem do que o embaixador — e afeiçoou-se a ele. Em seu primeiro livro de memórias, A alma do tempo (1961), o político mineiro nos conta ter Azeredo escrito um depoimento, “colorido e curioso”, e nunca publicado, sobre “a atmosfera de inquietação e intriga que reinava nos corredores do Vaticano, nas horas que precederam à morte de Leão XIII”, em 1903. Em Amor a Roma, volta ao assunto. Foi no Janículo que Azeredo leu a ele essa “peça meio crítica, na qual o então secretário brasileiro anotava as intrigas dos vivos ao redor do grande papa moribundo”.
Para entender Azeredo, convém saber que era filho único e póstumo. Seu livro de memórias, organizado em 2003 pelo acadêmico Afonso Arinos, filho, que havia sido ele também embaixador no Vaticano, seria mais interessante se não se fizesse tão presente a veneração por figuras mais velhas ou ilustres, como Dom Pedro II, Leão XIII ou Joaquim Nabuco. Sobre Pedro Augusto de Saxe-Coburgo-Gotha, neto de Dom Pedro II e objeto de um livro de Mary Del Priore de 2007 cujos título e subtítulo, O principe maldito, traição e loucura na Família Imperial, já dizem muito, Azeredo, tendo conhecido o príncipe na adolescência, nos conta apenas que era “de caráter bondoso e extremamente singelo”.
Em 1896, escreve da Itália a Machado de Assis: “Quero dizer-lhe algo da maravilha máxima do Vaticano e de Roma, Leão XIII”. Tendo assistido a uma missa celebrada pelo pontífice, conta que ele o tratou “paternalmente; tomou entre as suas as minhas mãos, unindo-as ao seu coração, e assim as teve durante toda a audiência”.
Não é preciso ser psicanalista para ver em Azeredo a busca constante da figura paterna. As demandas de sua amizade eram exaustivas. Em março de 1897, queixa-se a Machado de Assis: “A falta de cartas suas tem sido muitas vezes para mim objeto de reflexões melancólicas. Não posso crer que o seu coração tenha mudado para comigo. Mas o que creio e vejo é que as manifestações exteriores, visíveis, da sua amizade já não são as mesmas”.
Recente artigo do pesquisador Jair Santos, “Um poeta brasileiro no Vaticano”, me fez chegar aos ofícios enviados de Roma por Azeredo. Alguns, selecionados e apresentados por Luiz Felipe de Seixas Corrêa, que foi ele mesmo embaixador no Vaticano, foram publicados em 2016 pela Fundação Alexandre de Gusmão. Não podendo conhecer o depoimento “colorido e curioso” sobre a morte de Leão XIII em 1903, lemos nesse volume a respeito do falecimento de Bento XV em 1922 e da eleição de seu sucessor, Pio XI. Esses documentos oficiais, burocráticos, não possuem a verve do outro texto, que Afonso Arinos nos faz imaginar.
Um resfriado rapidamente evolui para a bronquite, que avança para a broncopneumonia, e Bento XV morre. Pio XI, eleito, aparece na sacada pela primeira vez, pronuncia, “com voz clara e vibrante, as preces preliminares”, traça “três vastas cruzes no espaço”, dá a bênção apostólica. E, então, “as aclamações reboaram pela praça inteira”.
É esse ritual de apresentação do novo papa que, em poucas semanas, veremos novamente, dando-nos a sensação de continuidade e perenidade em um mundo onde, cada vez mais, tudo parece efêmero.
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Transcrevo minha coluna quinzenal no jornal Estado de Minas publicada ontem, 12 de abril:
Recebo em Luanda, em 31 de março, dois livros que me envia de presente o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim.
A primeira vez que o visitei, em novembro de 2020, Anwar Ibrahim era líder da Oposição no Parlamento malásio. Recebeu-me em seu escritório pessoal em um bairro residencial de Kuala Lumpur. Mostrou-me uma estante onde eram expostas recordações dos anos em que esteve preso, condenado por motivos políticos. Entre os objetos, figuravam vários livros que as autoridades malásias de então haviam permitido a ele ler enquanto esteve preso. Fotografei alguns desses volumes. Havia, entre outros, uma edição de “Os ensaios” de Montaigne; a biografia de Barack Obama por David Remnick; “A vida dos grandes compositores”, por Harold C. Schonberg, livro de que gosto particularmente. Na foto que tirei, aparece apenas um romance, “O sol é para todos”, de Harper Lee. Em nossa conversa, o futuro primeiro-ministro citou Ortega y Gasset.
Poucos dias antes de abrir, em Angola, o pacote contendo os presentes de Anwar Ibrahim, eu recebera um telefonema do ministro das Relações Exteriores da Malásia, Mohamad Hasan. Conversamos como bons e velhos amigos que somos.
E hoje, enquanto escrevo esta coluna, leio artigo que me envia o seu autor, outro amigo malásio, Yin Shao Loong, brilhante pensador e analista das relações internacionais, sobre as consequências para a Malásia das tarifas de importação anunciadas pelos Estados Unidos em 2 de abril e revistas uma semana depois.
O Sudeste Asiático, de onde parti há dois meses, voltou assim com muita força, nesses últimos dias, à minha imaginação. De resto, parte do meu tempo livre nas últimas semanas tem sido passado comunicando a amigos daquelas latitudes que cheguei ao meu destino atual, que estou bem e que sinto saudade deles.
Um dos livros que me envia o primeiro-ministro Anwar Ibrahim contém análise da Bienal de Veneza de 2024, organizada por Adriano Pedrosa sob o tema “Estrangeiros por toda parte”. Lamentei perder essa Bienal, a primeira sob curadoria não só de um brasileiro, mas de um latino-americano, e de um residente no hemisfério sul. Uma frase de Pedrosa me chama a atenção: “onde quer que você esteja, você sempre é, verdadeira e profundamente, um estrangeiro”.
Para um diplomata, sentir-se estrangeiro, enquanto representa o seu país em outro, é muitas vezes uma característica do cotidiano. Um trecho da frase de Adriano Pedrosa, porém — “onde quer que você esteja” — parece possuir valor filosófico. De fato, a nossa realidade individual nunca consegue ser perfeitamente compartilhada com outros. Para cada um de nós, brasileiros, o Brasil possui um sentido pessoal, único. Uma das belezas do Brasil é, justamente, que em um país tão vasto, tão rico e diverso culturalmente, com uma população tão numerosa e sofrendo de marcadas diferenças sociais e econômicas, desde a independência tenha predominado entre nós um sentido autêntico de nacionalidade. Esse é o verdadeiro milagre brasileiro.
Neste exato momento, relendo “Sagarana”, penso que apenas o mineiro — e diplomata — João Guimarães Rosa poderia ter descrito tão bem a realidade de Minas Gerais. No entanto, as novelas dele se passam em uma Minas Gerais diferente daquela que eu, por exemplo, tenho entranhada em mim, que é a da Zona da Mata. “Eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias”, diz Guimarães Rosa. Por isso, afirma, optou “pelo pedaço de Minas que era mais meu”.
Quando vivemos em um país estrangeiro, nossa apreensão da realidade local é delimitada pelo bairro onde moramos, pelos lugares que frequentamos, pelos amigos com os quais convivemos, pelos jornais que lemos. Por mais que tentemos, nunca obteremos uma visão completa daquela sociedade. Ao analisar “Sagarana”, o mais brasileiro dos húngaros, Paulo Rónai, que chegou ao Brasil já adulto, comenta: “O leitor vindo de fora, por mais integrado que se sinta no ambiente brasileiro, não pode estar suficientemente familiarizado com o rico cabedal linguístico e etnográfico do país para analisar o aspecto regionalista dessa obra”.
Não quero sugerir que não é possível adquirir uma noção correta da cultura onde estamos baseados. Procurar alcançar essa percepção deveria ser mesmo uma obrigação para todo diplomata. Nos países onde servi, tive sempre muita sorte nas amizades que fiz; elas abriram o acesso para uma melhor compreensão daquelas outras realidades.
Mas também o acaso permite novas percepções. Ano passado, caminhando por um bairro de Kuala Lumpur onde eu nunca antes estivera, de repente vi um mural representando uma cena rural no interior da Malásia. Casas de madeira sobre pilotis, com telhado de palha, alternavam com palmeiras e vegetação tropical. Em primeiro plano, um carro de boi idêntico ao que tantas vezes me transportou na infância, na Zona da Mata, ambos simples e menos aparatosos do que o de uma das novelas de “Sagarana”, puxado por nada menos do que oito bois. Associando-se às melhores lembranças da infância e da adolescência em Minas, aquele mural surgido repentinamente tornou a Malásia ainda mais compreensível para mim.
Voltando, pela imaginação, a Minas Gerais, percebi que conhecer e entender a Malásia era, também, uma forma de amar o Brasil.
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Transcrevo minha coluna quinzenal para o jornal Estado de Minas publicada ontem, 15 de março:
Em Escolhas difíceis, livro de 2014 sobre sua gestão como secretária de Estado, Hillary Clinton ridiculariza sutilmente Serguei Lavrov, chanceler da Rússia desde 2004: “ele estava sempre bronzeado e bem-vestido”. Um dos propósitos da obra era contribuir para que a ex-secretária de Estado ganhasse, em 2016, a nomeação do partido democrata para as eleições presidenciais, que viria a disputar e perderia para Donald Trump. O livro de memórias procura provar sua firmeza com a Rússia, considerada ainda então pelos Estados Unidos como seu principal rival.
Contou-me um diplomata russo que, nas reuniões entre Hillary Clinton e Serguei Lavrov, era penoso constatar como a secretária de Estado lidava de forma superficial com os assuntos, os quais parecia não dominar. O livro de Clinton e o comentário do colega russo demonstram que a disputa entre grandes potências se dá também no plano da rivalidade pessoal entre chanceleres, competindo entre si sobre quem transmite a imagem de mais habilidoso.
Não há mulheres entre os biografados no livro editado em 2024 por Hubert Védrine — chanceler da França no gabinete do primeiro-ministro Lionel Jospin, durante a presidência de Jacques Chirac —, intitulado Grandes diplomatas: os mestres das relações internacionais, de Mazarino aos nossos dias.
Poucos dos perfis ali destacados foram diplomatas de carreira. Muitos ocuparam o cargo de ministro das Relações Exteriores. Dos vinte homens celebrados no livro por vinte historiadores ou jornalistas franceses — dos quais apenas quatro mulheres — doze trabalharam a serviço de França, Alemanha, Áustria ou Inglaterra, e dois a serviço dos Estados Unidos. Dos seis restantes, Kofi Annan e Boutros Boutros-Ghali foram secretários-gerais da Organização das Nações Unidas; três foram chanceleres da Rússia; e um, da China.
Para um diplomata brasileiro, salta aos olhos a falta de uma representatividade geográfica mais ampla. Não há razão, por exemplo, para a ausência do barão do Rio Branco. Sua gestão como chanceler, entre 1902 e 1912, foi mais bem-sucedida e de resultados mais duradouros do que a da maioria dos biografados.
Escritório do barão do Rio Branco, onde viria a falecer em 1912, no Palácio Itamaraty , Rio de Janeiro
A celebridade parece ter sido um critério para a seleção. No prefácio, Védrine orgulha-se de que podem ser encontrados no livro “quatro nomes de notoriedade mundial: Talleyrand, Metternich, Bismarck e Kissinger”. O culto à notoriedade pode ter influenciado também o espírito às vezes pouco crítico das análises. Lemos no artigo sobre Henry Kissinger que “em 1973, ele tinha virado uma celebridade mundial, uma figura da cultura pop americana”. São apenas afloradas as acusações de crimes de guerra, atribuídas à “ala esquerda do partido democrata”.
Há traços comuns às diferentes trajetórias. Mazarino, Kissinger e Brzezinski, estrangeiros tendo de se adaptar à nova pátria, enfrentam dificuldades de inserção na elite local. Sobre Mazarino, italiano que foi primeiro-ministro da França na infância e juventude de Luís XIV, a historiadora Simone Bertière escreve: “sua inteligência é de um poder tão inquietante que ele é obrigado a escondê-la”, sem que possa “dividir com ninguém suas visões anticonformistas”. Molotov e Zhou Enlai são, em razão da visibilidade de seus cargos, as figuras politicas mais famosas de seus países no exterior, depois de Stalin e Mao Tsé-Tung. Isso basta para despertar a ira e o sadismo de seus chefes. A maioria dos biografados precisa acomodar-se ao temperamento de seus reis ou presidentes e aceitar humilhações. Vários são considerados cortesãos pelos contemporâneos.
O artigo mais estimulante é o último, que retrata Lavrov, único dos vinte “grandes diplomatas” ainda vivo e ainda em função. A inclusão de seu nome em obra publicada após o início da guerra na Ucrânia e das sanções ocidentais contra a Rússia é, em si, reveladora de sua importância. A autora do artigo, Sylvie Bermann, foi a primeira mulher embaixadora da França, sucessivamente, na China, no Reino Unido e na Rússia.
Segundo Bermann, Serguei Lavrov se insere “na linhagem de ministros extremamente competentes e temíveis na defesa dos interesses de seu país”, como Andrei Gromiko —um dos grandes ausentes do livro, admite Hubert Védrine no prefácio — e Evgueni Primakov. Lavrov compartilharia a visão desses predecessores de que a Rússia é “uma fortaleza assediada”, à qual interessaria, por isso, um multilateralismo fortalecido.
Como Kissinger em seu tempo, Lavrov pertence à cultura pop: “é uma das figuras mais populares e respeitadas na Rússia; há camisetas com seu rosto”. Sylvie Bermann especula não haver “nem amizade nem proximidade entre ele e Putin”. Sustenta que Lavrov “executa a política decidida no Kremlim, mais do que a elabora”, tendo sido a Chancelaria “marginalizada” nos dois temas de política externa mais importantes para a Rússia nos últimos anos — Síria e Ucrânia.
Putin e Lavrov “compartilham a nostalgia de uma Rússia poderosa e o ressentimento contra o Ocidente e as ações da OTAN, com seus avanços em direção às fronteiras russas”. Pergunta-se a embaixadora que imagem o chanceler deixará na História. Avalia que isso dependerá do resultado da guerra na Ucrânia: “Quando voltar o tempo da diplomacia, é possível que ele conheça uma forma de reabilitação”.
Em suas conclusões, Hubert Védrine critica discretamente a diplomacia europeia da atualidade, para a qual seria tabu, desde 2022, preparar o futuro das relações com Moscou, no pós-guerra da Ucrânia. De forma presciente — o livro foi preparado em 2023 — declara que esse tema é menos inabordável para os Estados Unidos, “para os quais a prioridade é fazer face ao desafio chinês”.
O embaixador Ary Quintella, diplomata de carreira, escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Publicou, em novembro de 2024, o livro “Geografia do tempo”.
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O assunto surgiu em fevereiro, enquanto eu almoçava com Tininha Barros Greindl em um restaurante que está na moda, em Bruxelas, e onde no passado minha família e eu costumávamos ir aos domingos. Eu pedira como entrada croquetes de camarão com salsa frita. Esse, como já contei antes, ao descrever um passeio com minha filha pelo campo de batalha de Waterloo, é um dos meus pratos prediletos na culinária belga. Veio depois um bacalhau — dos de cabillaud — com purê de batata.
Os croquetes de camarão nunca poderiam me decepcionar, mas o bacalhau pareceu-me insosso. Não consegui terminá-lo. Eu acabara de desembarcar de Kuala Lumpur, para onde já não voltaria, e durante os meus quinze dias na Europa muitas vezes achei sem gosto a comida, sentindo falta dos fortes condimentos asiáticos.
Enquanto eu brincava com o bacalhau no prato e me perguntava como cinco anos trabalhando na Malásia haviam podido modificar a esse ponto o meu paladar, Tininha mencionou haver na cidade, na Villa Empain, uma exposição do Alechinsky.
Uma semana depois, no meu último dia em Bruxelas, eu almoçava em outro restaurante de predileção, Au Vieux Saint Martin, na praça do Sablon. Há quase vinte anos frequento o local por causa de um prato específico, o dueto de chouriço de sangue e chouriço branco, com purê de batata e de maçã. Chouriços e purês, especialmente o de maçã, trouxeram-me reconforto. Era como recuperar o tempo, reviver existências pretéritas, lembrar de todas as pessoas com as quais eu no passado almoçara e jantara naquela mesma sala, pedindo sempre aquele mesmo prato. A mousse de chocolate, na sobremesa, completou a sensação de impressões já vividas e sempre apreciadas.
Enquanto eu comia, olhava ao meu redor. Ao longo de vinte anos, nada mudara na decoração, ao menos que eu pudesse perceber. O nome do restaurante é derivado de uma pequena escultura em madeira do século XVI, mostrando São Martinho, a cavalo, procedendo ao seu famoso gesto de cortar com a espada metade do casaco para entregar a um mendigo. A cena é uma das mais facilmente reconhecíveis na iconografia cristã. No passado, inúmeras vezes tentei fotografá-la, o que não é fácil, pois ela é colocada perto do teto, vermelho e abobadado.
São Martinho existiu verdadeiramente. Viveu no século IV. Nasceu na Hungria. Oficial do exército romano, abandonou jovem a carreira militar para se dedicar à religião. Foi bispo de Tours. O encontro com o mendigo, na suposição de que seja fato e não lenda, aconteceu às portas de Amiens.
Martinho é um dos santos cuja trajetória podemos ler na Legenda áurea, obra do século XIII escrita em latim por Jacopo de Varazze. Existe no Brasil uma bela tradução, de 2003, por Hilário Franco Júnior. O capítulo sobre São Martinho nos informa que ele “tinha corpo disforme e rosto feio”. Como muitos dos hagiografados da Legenda áurea, mais de uma vez enfrentou o diabo “sob forma humana”. Lemos que “tinha grande habilidade para reconhecer os demônios, não importava a imagem que assumissem”. Recebia conselhos de anjos; a água, o fogo e os vegetais obedeciam às suas ordens; e também os cães e as serpentes. Uma de suas especialidades parece ter sido a de ressuscitar os mortos.
Na obra de Jacopo de Varazze, minha história predileta é a dos “Sete Adormecidos”. Sete amigos cristãos em Éfeso, fugindo à perseguição do imperador Décio, refugiam-se em uma caverna. Décio ordena que a entrada da caverna seja obstruída com pedras. Séculos depois, Deus ressuscita os mártires. Estes admiram-se de ver “o signo da cruz” por toda parte na cidade. O cristianismo triunfara. O mais enternecedor é a preocupação histórico-científica do autor de nos explicar, nas últimas linhas: “Que eles tenham dormido 372 anos, como se diz, permite dúvidas, pois eles ressuscitaram no ano do Senhor de 448, e Décio reinou apenas um ano e três meses no ano do Senhor de 252. Ou seja, eles dormiram apenas 196 anos”.
Dessa vez, mal olhei para a escultura de São Martinho. A lembrança de que eu partiria de Bruxelas na manhã do dia seguinte para Lisboa deixava-me acabrunhado. Pois ir a Bruxelas, hoje, significa visitar minha filha. A cada separação, vem a sensação de vazio, pois nunca sei quando poderei vê-la novamente. Há quatorze anos moramos em continentes diferentes. O último encontro acontecera no Japão, nove meses antes.
Da mesma maneira como, nessa minha ida mais recente a Au Vieux Saint Martin, pouca atenção prestei a São Martinho, mal olhei para as obras de Alechinsky que também decoram o restaurante. Só agora, escrevendo em Luanda, onde cheguei há uma semana, dou-me conta de que não parei para examinar seus dois tondi em pedra de lava esmaltada, em azul e branco, de que tanto gosto, expostos logo na entrada.
Mas enquanto eu ia devorando os chouriços e os purês e a mousse de chocolate, era impossível ignorar que eu estava rodeado de obras de arte, várias delas marcantes, e em momento algum os dois Alechinskys do salão principal fugiram à minha consciência. Decidi dar sequência à conversa que tivera dias antes com Tininha Barros Greindl. Paguei a conta, chamei um Uber e parti para a Villa Empain.
Hoje sede da Fundação Boghossian, que usa a casa em estilo art déco para exposições de arte, a Villa Empain foi construída na década de 1930. Muitas vezes, lá visitei exposições, acompanhado de minha mulher, de minha filha, de ambas, de minha filha e de meu genro, possivelmente de minha mãe. Em resumo, lá estive em diferentes combinações familiares. Durante anos, trabalhei na mesma rua. A soberba casa está, assim, fortemente associada à minha vida profissional e familiar.
Villa Empain, fachada sobre os jardins
O espaço não é enorme. As mostras podem, portanto, ser visitadas de maneira tranquila, sem as afobações ou o cansaço que às vezes acompanham exposições gigantescas, que parecem nunca ter fim. Estar ali é como visitar uma coleção na casa de algum conhecido. Cada aposento preserva seu nome distintivo, como: “salão”, “banheiro azul”, “quarto de hóspedes”, “quarto de Monsieur“, “quarto de Madame” e, o que mais me intriga, “sala de esgrima”, recordação de que a propriedade pertenceu originalmente a um barão milionário, Louis Empain.
Sempre considerei estimulante a obra do pintor e gravurista belga Pierre Alechinsky. Retrospectivas são perigosas, porque ver em dose maciça a obra de um artista pode nos decepcionar. Renoir, para mim, ficou desmistificado quando, muito jovem, assisti em Londres a uma megaexposição de seus quadros na Hayward Gallery. Minha impressão foi de que o conjunto revelava quão piegas era seu pincel. Posso ainda gostar de alguma pintura sua, isoladamente, mas nunca esqueço quão açucarado seu estilo pode ser. Em O Delacroix de Chelsea comentei como me aborreceu, mais recentemente, uma colossal exposição de Delacroix no Louvre, embora nesse caso eu tenha atribuído a frustração mais à curadoria ou à minha sonolência, causada por um xarope contra a tosse, do que ao pintor.
No caso da exposição Alechinsky na Villa Empain, fiquei plenamente satisfeito. A rigor, como apontaram alguns críticos, não se trata exatamente de uma retrospectiva, já que as obras não são expostas de maneira cronológica, mas em função do seu tamanho e das dimensões de cada espaço. O título da mostra, “Alechinsky, pincel viajante”, também explica as seleções da curadora, Catherine de Braekeleer, cujo foco foi mostrar a produção do artista influenciada pelas artes chinesa e japonesa.
O pintor fará 98 anos em outubro. Continua trabalhando. Reparei haver obras de 2023, de 2024. Fui passando de sala em sala, do “boudoir” ao “banheiro de Madame“, sem pressa, embora tivesse um compromisso às cinco da tarde e tivesse chegado à Villa Empain depois das três.
Um traço característico de Alechinsky é que ele frequentemente desenha uma moldura em torno ao que é retratado no centro. Às vezes, o centro é colorido e o entorno branco e negro. Às vezes, é o contrário. As obras com essas duas variações são as que mais me interessaram na exposição. Em algumas, a moldura colorida causava a impressão de ter adquirido a textura de porcelana chinesa.
O título de uma das obras, Ubu no Extremo-Oriente, chamou minha atenção. Quando meus irmãos e eu éramos crianças, na Bélgica justamente, uma das brincadeiras era interpretar papéis da peça Ubu rei, de Alfred Jarry. Mas a maneira como o papel sobre tela, aos meus olhos, parecia tornar-se outro material é o que realmente me fez passar alguns minutos diante do quadro.
Ubu no Extremo-Oriente, 1991
Outra obra, O Mar Negro, é homenagem ao pai, refugiado russo oriundo da Crimeia. O catálogo fala em “tristeza e luto”, mas não é isso o que vi. Pensei apenas na beleza do contraste entre as cores vivas, enérgicas da moldura, onde o azul e o vermelho predominam, e o preto do mar e do céu no centro.
Desde a infância, noites estreladas me fazem pensar, sem melancolia, na vastidão do universo e na pequenez das coisas humanas. Também me dão a noção de continuidade do homem ao longo da História. O mesmo céu que vemos, todos vêm desde o início de tudo. Pensar nisso pela primeira vez, aos oito ou nove anos, ao olhar para um céu de verão onde as estrelas eram nítidas — e lembro bem da ocasião e onde eu estava —, foi uma revelação intimidadora. Paradoxalmente, houve também o sentimento de paz em saber que tudo o que jamais aconteceu ao longo dos séculos, dos milênios, com absolutamente todos os seres humanos, aconteceu aqui, sob essa mesma arcada infinita, no mesmo espaço onde, temporariamente, vivemos nós. A noite silenciosa, deduzi naquela ocasião, continha os mistérios mas também as explicações da vida.
O Mar Negro, 1990
Quanto ao mar no quadro de Alechinsky, não me fez pensar em Crimeia ou tormentas, “tristeza e luto”, mas antes em um convite a alguma viagem, longe de guerras, da política e das reviravoltas humanas. Por aqueles dias, eu observava, pela imprensa europeia, a erosão acelerada da aliança transatlântica, na qual o termo “aliança” deve ser entendido como a complacente e cômoda subordinação da Europa ao poderio americano. Pensava já em escrever a respeito para minha coluna quinzenal no jornal Estado de Minas, o que viria a fazer poucos dias depois, durante o voo Lisboa-Luanda. O mundo por onde eu passeava na mostra da Fundação Boghossian abria um hiato nesse momento de perplexidade sobre o que o futuro próximo nos reserva.
As duas outras obras frente às quais mais me demorei são antagônicas, pelo contraste entre a riqueza de significados em um caso e a simplicidade no outro.
A tela Oitava, segundo Alechinsky, pode “evocar uma estrela, uma oitava, uma mandala…”. A mim, causou um impacto puramente visual, diante do qual a definição do que é representado perde importância. Os círculos pretos rodam em um movimento próprio.
Recordei uma conversa que tivera duas semanas antes, ainda em Kuala Lumpur. O sultão de Perak, Nazrin Shah, que será o próximo rei da Malásia, oferecera-me um jantar de despedida. Naquela noite, comentei com dois dos amigos presentes que a previsibilidade do clima malásio — há sol, calor e chuva todo dia, e a temperatura é sempre em torno a 32 graus — me agradava. Os dois me disseram que sentiam falta das quatro estações, pois com elas “sente-se o tempo passar”. Retruquei que eu gostava da sensação de suspensão do tempo causada pela homogeneidade do clima ao longo do ano, dia após dia, na Malásia.
Oitava, 1983
Os círculos e os traços de Alechinsky parecem saltar ao chão, ou intimar-nos a mergulhar no quadro. Oitava é uma recordação de que há atividade e movimento por toda parte, inclusive e sobretudo em nós mesmos. Não precisamos de indicações externas para ver o tempo passar.
Seus traços sinuosos podem, à primeira vista, parecer abstratos. Olhando atentamente, porém — e Ubu no Extremo-Oriente e Oitava são bons exemplos — notamos figuras humanas ou humanoides aparentemente mascaradas. O catálogo não diz, mas é sabido que uma das influências sobre o artista é o pintor belga James Ensor. Personagens portando máscaras são típicas de Ensor. Há ao menos três em Oitava, duas delas relativamente nítidas, na metade inferior do quadro, uma do lado esquerdo e outra do lado direito.
Já Material mínimo poderia ser considerado um autorretrato surrealista. O artista desenhou seus instrumentos de trabalho: pincel, tinteiro, folha de papel e óculos. Desde 1965, Alechinsky pinta ou desenha sobre folhas de papel colocadas no chão. Na década de 1980, comentou que usa um pincel japonês, que recebeu de presente do calígrafo Morita Shiryu, “na plataforma da estação de Kyoto”, na única vez em que viajou ao Japão, em 1955. O papel é depois afixado a uma tela. A obra de Alechinsky é geralmente vista como contendo elementos de caligrafia oriental.
O pincel é constituído de “nove centímetros de pelos de cabra, inseridos em dezenove centímetros de bambu de primeira qualidade”. É segurado com a mão esquerda, ficando as tigelas com as cores na mão direita do artista. Não está claro no catálogo se o pincel que utiliza hoje ainda é o mesmo recebido de Morita Shiryu. Em caso afirmativo, sua vida útil seria excepcionalmente duradoura e ele ganharia uma dimensão quase mítica.
Material mínimo, 1988
Precisei pôr fim à viagem que a exposição me proporcionava. Estava já atrasado para minha visita, às cinco, ao ateliê de um amigo, outro artista belga, Fabrice Samyn.
No dia seguinte, de manhã, o voo de Bruxelas para Lisboa atrasou noventa minutos. Passei a demora de uma hora e meia, dentro do avião, pensando sobre minha vida familiar. Em Bruxelas, ficavam minha filha e meu genro. À minha espera em Lisboa estavam Titina, a mais afetuosa das irmãs, e vários amigos que eu não via há muito tempo. Um deles viria me ver de Roma, no fim de semana. No ponto final da viagem, cinco dias depois, em Luanda, eu reencontraria minha mulher.
Ao amigo em Roma, porém, escrevi: “Meio triste no avião, já com saudades da Julia”. Era impossível, de fato, deixar de pensar que, mais uma vez, eu estava rumo a um continente que estabeleceria grande distância física entre nós.