A Casa de Pilatos

Sevilha se reconhece por seus bairros antigos bem preservados, suas cores, suas laranjeiras carregadas de frutas mesmo no inverno, suas ruas pitorescas, pelo céu azul e pela luz peculiar. Some-se a isso o clima ameno no outono e no inverno, os excelentes e inúmeros restaurantes e a boa educação da população local e tem-se a explicação de por que a capital da Andaluzia é destino apreciado pelos turistas. Lá passei a virada do ano.

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Quando a conheci pela primeira vez em 2007, Sevilha já possuía fortes conotações culturais para mim. Desde sempre, era o local que eu associava a Carmen, a Velázquez -que nasceu na cidade – à figura de Figaro (que já mencionei em Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro) e à estória de Don Juan, que inspirou Molière e Mozart. Até hoje, não posso passar ao longo do muro da antiga Real Fábrica de Tabacos, atualmente sede da Universidade, e frente à sua entrada monumental sem pensar que é lá onde trabalha a fictícia Carmen e cantarolar alguma ária da ópera de Bizet:

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A dama de ficção mais querida para os sevilhanos é porém a figura de bronze do século XVI que adorna o topo do campanário (e ex-minarete) da Catedral, representando a Fé Vitoriosa. Originalmente conhecida como Giralda, porque ela gira de acordo ao vento, a escultura passou a se chamar Giraldillo quando o nome original, por extensão, foi atribuído ao campanário. Aparentemente, há quem use os dois termos, de maneira indiferente, para se referir a ela.

Para um fotógrafo amador, conseguir uma boa imagem da Giralda e do Giraldillo é um desafio, por causa da altura do campanário, de quase 100 metros. Tirei várias fotos; acho que esta, onde coloquei um filtro para tornar os detalhes mais nítidos, mostra melhor a imponência da torre, embora a figura de bronze pareça distante:

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Felizmente, frente a uma das portas da Catedral há uma réplica também em bronze da escultura – que já esteve no topo da torre de 1999 a 2005, enquanto o original era restaurado – e assim pode-se apreciar de perto a beleza da figura renascentista:

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Cervantes, que morou em Sevilha, menciona a escultura no Don Quijote, como lembra placa em uma fachada na praça em torno à Catedral, mais precisamente no trecho conhecido como Plaza del Triunfo:

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Cervantes menciona Sevilha frequentemente em sua obra. Caminhando pela cidade, vi duas outras placas, ambas de azulejos, comemorando o escritor.

Na famosa Calle Sierpes, tradicional rua de comércio, vi esta:

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A Cárcel Real é onde Cervantes esteve preso por três meses, em 1597.

Em 1999, em entrevista publicada pela revista Sibila, João Cabral de Melo Neto, que morou em Sevilha mais de um vez e dedicou a ela os poemas recolhidos no livro Sevilha Andando, perguntado sobre que imagem lhe vinha à cabeça quando pensava na cidade, respondeu: “Acho que é a calle Sierpes, a rua principal. Chama-se Sierpes por isso, porque ela não é reta”.

Haverá forma mais bonita de celebrar uma cidade do que o famoso poema de João Cabral Sevilhizar o mundo ?

Como é impossível, por enquanto,
civilizar toda a terra,
o que não veremos, verão,
de certo, nossas tetranetas,

infundir na terra esse alerta,
fazê-la uma enorme Sevilha,
que é a contra-pelo, onde uma viva
guerrilha do ser, pode a guerra.

Voltemos a Cervantes. Em um muro, ao lado de portão de acesso ao recinto da Catedral, há esta placa:

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A referência às Novelas Ejemplares me traz boas lembranças, pois tenho particular afeição por esse livro. Vejam a placa em mais detalhe:

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Intrigado pela confecção harmoniosa das placas de azulejos referentes à obra de Cervantes, fiz pesquisa na Internet, onde descobri texto interessante do escritor José Carlos Canalda, no qual explica que, em 1916, para comemorar o tricentenário da morte de Cervantes – e o ano de 1616 é também, quero lembrar, pois é uma coincidência marcante, aquele em que morreu Shakespeare – as autoridades sevilhanas encomendaram vinte placas de azulejos em que seriam lembradas as menções feitas pelo escritor à cidade.

Falemos, porém, não mais de uma heroína de ficção, como Carmen ou a Giralda ou Giraldillo, mas de uma mulher de carne e osso.

No final do século XV, vivia en Sevilha uma dama nobre de nome Catalina de Ribera, que faleceu em 1505, com cerca de 55 anos de idade. Catalina casou-se com o viúvo de sua irmã, Pedro Enríquez de Quiñones. Os dois iniciaram a construção da Casa de Pilatos e, em 1483, adquiriram outro imóvel em Sevilha, o Palacio de las Dueñas. E é assim que o casal, que deve ter sido uma potência imobiliária na Sevilha da virada dos séculos XV e XVI, possuiu as primeiras versões das duas residências que, hoje, modificadas e ampliadas, são consideradas os mais importantes bens imóveis de Sevilha, após o Alcázar, residência real.

Catalina de Ribera é amplamente homenageada na Sevilha contemporânea. Na continuação dos Jardines de Murillo estão os Jardines de Catalina de Ribera, onde está, ao longo da muralha do Alcázar, o Paseo de Catalina de Ribera, no qual existe uma fonte do começo do século XX celebrando-a. Abaixo, mostro a fonte e sua inscrição, em sucessivos graus de detalhes:

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Tirar essa foto de lado não foi uma boa ideia, obviamente. O detalhe abaixo, tirado de frente, ficou melhor:

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E finalmente, a inscrição, que faz referência ao fato de Catalina ter sido a “egregia fundadora” do Hospital de las Cinco Llagas:

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Pelas vicissitudes das sucessões, os dois palácios do casal Pedro e Catalina, embora estejam ambos ainda nas mãos de seus descendentes, pertencem a proprietários diferentes. Os Duques de Alba são os donos do Palacio de las Dueñas; os Duques de Medinaceli são os donos da Casa de Pilatos.

Em uma visita anterior a Sevilha, há muitos anos, eu visitara a Casa de Pilatos. Em 2016, pela primeira vez, o Palacio de las Dueñas foi aberto à visitação, em função da morte, em 2014, de Cayetana, 18ª Duquesa de Alba, célebre por seu espírito independente e anti-conformista, que lhe rendeu, entre os espanhóis, enorme popularidade, rara talvez em alguém nesse nível de riqueza – há avaliações de que deixou, ao morrer, fortuna de cerca de 2,8 bilhões de euros. A imagem da Duquesa de Alba está associada à casa em Sevilha, aparentemente sua preferida. Os jornais com frequência declaravam que ela detinha 46 títulos de nobreza e que essa cifra seria um recorde. A 18ª Duquesa de Medinaceli, porém, falecida em 2013, um ano antes de Cayetana (e não deixa de ser curioso que os numerais das duas fossem idênticos) parece ter detido 51 títulos. Quando a mesma pessoa possui 6, 7, 8 ou 9 Ducados, como era o caso das duas, aparentemente a precisão fica mais difícil.

Tanta ostentação de nobreza e fortuna, nas famílias dos Duques de Alba e de Medinaceli, me faz pensar em duas coisas, relacionadas. Primeiro, penso no poema de Sophia de Mello Breyer Andresen, Retrato de uma princesa desconhecida:

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Em segundo lugar, lembro que o Duque de Alba mais destacado foi o terceiro, o celebérrimo  Governador dos Países Baixos – região então possessão dos Habsburgos espanhóis – que, sob o reino de Felipe II, reprimiu de forma cruel e sanguinária a revolta contra o domínio da Espanha, o que não impediu o Norte da província, os atuais Países Baixos, de se tornarem independentes. O Sul católico, a atual Bélgica, permaneceu sob domínio dos Habsburgos, primeiro do ramo espanhol e, depois, com a extinção desse, do ramo austríaco, até a Revolução francesa. O mesmo Duque de Alba se destacou também por ter conquistado Portugal para Felipe II e ter sido nomeado primeiro Vice-Rei da nova possessão da monarquia habsburguesa. Por mais condenável que seja o Duque de Alba, responsável por milhares de execuções nos Países Baixos – de fato, “um imenso desperdiçar de gente”- na Espanha ele parece ainda ser visto como herói. Nenhum Duque de Medinaceli chegou perto de sua fama.

No final de dezembro, visitei as duas propriedades, o Palacio de las Dueñas e a Casa de Pilatos, uma logo após a outra.

Vejamos primeiro o Palacio de las Dueñas. Este é o portão de entrada, com o brasão usado pela família no século XVIII:

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 O que se vê do portão, em direção à rua, é o seguinte:

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A placa de azulejos no muro da direita foi colocada em homenagem ao poeta Antonio Machado, nascido na propriedade em 1875, pois seu pai era advogado ou administrador dos Duques de Alba, que alugavam casas no recinto de seu palácio, como os Duques de Guermantes alugavam à família do Narrador um apartamento em seu hôtel particulier.

Ver essa homenagem a Machado foi comovente para mim porque, na adolescência, em Montevidéu, minha professora de espanhol na escola era admiradora de sua poesia e as aulas eram passadas dissecando obras suas. Vejam em detalhe a placa, que alude a poemas de Machado:

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A paródia da bandeira e do hino britânicos pintada em uma porta de garagem pode ser vista mais nitidamente na foto abaixo:

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Uma homenagem, portanto, frente ao seu palácio, à popularidade de Cayetana, descendente do Rei da Grã-Bretanha James II.

Entremos no recinto do Palacio de las Dueñas. Chama a atenção a profusão de pátios, o mais célebre dos quais talvez seja o Patio de los limoneros, ilustrado nas duas fotos abaixo:

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Segue-se a ele o pátio principal, com suas arcadas:

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Na foto abaixo, a placa no muro, à esquerda, presta mais uma homenagem a Antonio Machado.

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Reparem abaixo nos azulejos e na ornamentação dos muros e do arco da porta, no pátio principal, que dá acesso ao chamado Salón de la Gitana:

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E aqui, em mais detalhe:

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A decoração do Salón de la Gitana, como em todas as salas do Palácio, é pesada, sombria e carregada de objetos. Deve-se supor que era assim que gostava de viver Cayetana:

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A Capela possui quadros de boa qualidade, como o retábulo – bom, embora não inovador – de Santa Catarina entre Santos, de Neri di Bicci, que viveu no século XV:

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A biblioteca, mostrada em duas fotos abaixo, revela atmosfera do final do século XIX, embora talvez faltem livros. É importante lembrar, contudo, que o Palacio de las Dueñas é apenas uma das casas dos Duques de Alba e que a maioria de seus tesouros está no palácio madrilenho:

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Por fim, chega-se ao Patio del Aceite:

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Terminada a visita ao Palacio de las Dueñas, fui rever a Casa de Pilatos.

A entrada principal da residência sevilhana dos Duques de Medinaceli, típica do Renascimento italiano, é mais elaborada em termos artísticos mas possui soberba nobiliárquica mais sutil do que a de seus primos distantes, os Duques de Alba:

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O interior, porém, conta outra estória. Antes de mais nada, é preciso saber que não é permitido fotografar o interior do segundo andar da Casa de Pilatos, que possui quadros interessantes, particularmente de Luca Giordano, um favorito meu. O térreo apresenta-se assim, no pátio interno:

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Os bustos nas paredes são de Imperadores romanos e de personagens ilustres – Cícero, Marco Antonio, Aníbal – da Antiguidade. A exceção é o busto de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico e Rei de Espanha e de muitas outras terras. Fica claríssima a intenção de afirmar ser Carlos V o sucessor de Roma, na sua universalidade.

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Como se vê, a Casa de Pilatos é mais rica do que o Palacio de las Dueñas, em termos de   estuques e variedade nos azulejos. A casa deve muito, na sua aparência atual, ao filho de Catalina de Ribera e Pedro Enríquez, Fadrique Enríquez de Ribera, primeiro Marquês de Tarifa, que visitou Jerusalém (o que originou o atual nome da propriedade), entre 1518 e 1520. Seu sobrinho e herdeiro, o primeiro Duque de Alcalá, montou a coleção de estátuas antigas, muitas delas restauradas.

Ao redor do pátio principal, encontram-se diversas salas, onde as influências mudéjar – Sevilha foi possessão árabe até 1248 – e do Renascimento italiano se coadunam:

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Algumas salas contêm peças da coleção de bustos, esculturas e baixos-relevos, muitos deles, como disse, da Antiguidade:

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Comparados com o pátio central e as salas, os jardins possuem caráter mais intimista:

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Como outros cantos do palácio, o jardim principal é representativo, com sua loggia, do Renascimento italiano:

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Nada mostra mais a diferença entre o Palacio de las Dueñas e a Casa de Pilatos do que as respectivas escadarias ao segundo andar (o qual, no caso da casa dos Duques de Alba, não é visitável). Abaixo, a escadaria do Palacio de las Dueñas:

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Sem dúvida, aristocrático e elegante, inclusive porque o retrato ao fundo representa a Imperatriz Eugenia, mulher de Napoleão III, que era espanhola de nascimento e cuja irmã foi Duquesa de Alba. Eugenia de Montijo é tratada, no Palacio de las Dueñas, como verdadeira heroína (e, sejamos justos, qualquer um que tivesse tido uma tia-trisavó Imperatriz dos Franceses provavelmente faria o mesmo); somos informados de que gostava particularmente do Patio de los limoneros e de que morreu, em 1920, na residência madrilenha dos Duques de Alba, o Palacio de Liria.

Vejamos abaixo, em duas fotos,  a escadaria da Casa de Pilatos:

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A variedade e a riqueza dos azulejos, todos do século XVI, elevam o refinamento a um nível superior. Aqui, não é necessário o retrato de uma tia-trisavó Imperatriz.

Qual das duas casas é mais bonita?

Elas se complementam.

O Palacio de las Dueñas se parece a uma casa onde as pessoas vivem. Com seu excesso de objetos e memorabilia em homenagem a uma celebridade, Cayetana de Alba (por exemplo, são expostos em uma vitrine, no centro de uma sala, o vestido e os sapatos com que dançava flamenco), apesar de secular dá a impressão de ter sido a casa de uma pessoa específica.

A Casa de Pilatos, mais impressionante, se parece a um museu, com seus bustos e esculturas e a multiplicidade de desenhos de azulejos. Embora os Duques de Medinaceli a usem frequentemente, é mais impessoal e não celebra uma pessoa específica.

A única regra seria, para um turista, não visitá-las depois de ir ao Alcázar (ou Reales Alcázares, no plural, como gostam os sevilhanos) que, por ser palácio real e fonte de inspiração para as duas casas particulares, as supera pelo requinte e a qualidade dos estuques e dos azulejos.

O que as duas casas fornecem é a percepção de como o Renascimento chegou a Sevilha e se juntou ao gótico moribundo e ao estilo mudéjar para formar conjuntos harmônicos, imponentes, luxuosos, mas onde havia a preocupação com conforto e de tornar a vida mais agradável, mais bela.

Antonio Machado, nascido no Palacio de las Dueñas e que depois de se mudar para Madri, em 1883, aos 8 anos de idade, nunca mais moraria em Sevilha, lembrou-se para sempre, como mostra sua poesia, dos “naranjos encendidos“,  do “limonero lánguido”, do “encanto de la fuente limpia”, da “tarde alegre y clara”. Seus versos fazem referência a Sevilha mas também à casa onde nasceu, fonte para ele de paz, beleza, harmonia: “Esta luz de Sevilla… es el palacio donde nací, con su rumor de fuente“. Desde o ano passado, com a abertura do Palacio de las Dueñas, todo visitante pode sentir o mesmo que o poeta.

Museu de Arte Islâmica, Doha

Em outubro de 2016, em minha viagem a Goa, fiz escala em Doha, onde meditei sobre o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan, a forma como ele canta Full Moon and Empty Arms  e se Alfred de Musset tinha ou não razão em achar que a lua cheia, vista sobre uma torre, se parece a um pingo no “i”. Houve também tempo suficiente para eu conhecer o extraordinário Museu de Arte Islâmica.

Como salientou Alexander Sokurov em seu Francofonia, os grandes museus – e o Louvre, objeto do seu ensaio filmado, é provavelmente o mais famoso e maior dos museus – passam a simbolizar a cidade onde se situam e se tornam os depositários da arte, da história, da civilização, da própria vida humana.

Esse é o caso do Museu de Arte Islâmica de Doha, conhecido como MIA (acrônimo de seu nome em inglês), obra do arquiteto I.M. Pei – o mesmo, cabe recordar, da pirâmide do Louvre – e inaugurado em 2008.

O edifício, inspirado na arquitetura islâmica tradicional e que, por parecer emergir do mar, faz-me pensar também em um palazzo veneziano, é, em si, uma obra-prima:

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Vejam agora o interior, mais especificamente o café (no último andar, há também um restaurante do Alain Ducasse):

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A coleção, compacta, é extremamente variada, as peças são, muitas delas, excepcionais, e o museu tem o claro propósito de preservar uma civilização. Um painel, que me arrependo de não ter fotografado, avisa que o MIA pretende oferecer um panorama sobre “as diferentes culturas que formaram a civilização islâmica”.

Fiz a visita usando a câmera do celular profusamente… Não há restrição à fotografia. Depois de um certo tempo, dei-me conta de que estava favorecendo peças onde a escrita tem um lugar importante. Hábito de apreço por textos ou fascínio pela arte da caligrafia?

Vejam o exemplo abaixo, um Alcorão chinês do século XVII:

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O museu possui numerosos manuscritos, muitos antiquíssimos, onde a junção da imagem e do texto forma obras de arte de uma beleza impenetrável.

Às vezes, a simples escrita produz um impacto forte, como no belíssimo manuscrito abaixo do Alcorão, da Península Arábica, do século VII ou do começo do século VIII, portanto talvez contemporâneo de Maomé, na escrita hijazi. Podemos imaginar a fé do escriba, as condições em que produziu o texto, talvez seu orgulho com a beleza da sua caligrafia.

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Quando eu era estudante em Londres, frequentava assiduamente a National Gallery e passei muitas tardes nas salas dos primitivos italianos, pelos quais sentia na época forte atração. Vendo os quadros de temática religiosa de Cimabue, Duccio e seus contemporâneos, eu me perguntava até que ponto eles eram acessíveis aos turistas orientais. Eu mesmo – embora criado em um ambiente cultural católico e ocidental – ia ao museu, frequentemente, com meu exemplar do Dictionary of Subjects and Symbols in Art, de James Hall, debaixo do braço, para ler sobre conceitos misteriosos como a Transfiguração, bem menos claros para mim do que para pintores italianos do século XIII.

Hoje, quando visito exposições ou coleções de arte oriental ou arte islâmica, tenho consciência de só estar captando parte da mensagem ou mesmo da beleza de cada obra. De museu em museu, porém, o grau de conhecimento – ou ao menos de curiosidade – vai aumentando. Com toda manifestação artística é assim: quanto mais se vê, mais se aprende e mais se quer saber.

As duas jarras abaixo, por exemplo, não criam questionamentos. São belíssimas em sua simplicidade, oriundas do Iraque e feitas no século VIII ou no século IX. Podem ser admiradas sem indagações filosóficas.

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Outros objetos, embora mais elaborados, podem, como os jarros, ser admirados apenas pela sua beleza, como o galo de bronze abaixo, folheado a ouro, espanhol, dos séculos X ou XI,  que provém de uma fonte:

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O falcão abaixo, indiano do século XVII, é uma das peças famosas do museu, por causa de seu luxo absurdo: é feito de ouro, esmalte, rubis, esmeraldas, diamantes, safiras e ônix. Trata-se de uma jóia, que provocará cobiça em alguns, mas certamente não dúvidas existenciais. Vê-lo em Doha faz algum sentido, por causa da obsessão no Catar com os falcões, transformados em animais domésticos e símbolos de status. Há toda uma ala do souq, em Doha, voltada à venda de falcões, que possuem lá mesmo o seu próprio hospital.

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Há mais poesia nesta cabeça de uma estátua iraniana do século XII:

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O  azulejo abaixo coloca algum grau de questionamento. É turco ou sírio, do século XVI. Fiquei intrigado com o tom de azul, que a foto não reproduz corretamente. Também surpreendentes são os desenhos. Quão usual é esse modelo? Simboliza algo ou é apenas  tirado da imaginação individual do artista?

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Com os manuscritos, a impenetrabilidade aumenta. Abaixo, vejam uma página do livro As Maravilhas da Criação e Curiosidades da Existência, escrito no século XIII, conhecido como a Cosmografia de Qazwini, do nome de seu autor. O MIA se orgulha de possuir o que é, provavelmente, o exemplar mais antigo ainda disponível (quatro páginas estavam expostas). A Biblioteca Digital Mundial informa ser esse “um dos livros mais conhecidos do mundo islâmico”. Coloquei um  filtro na foto, para tornar mais nítidos os detalhes da aquarela:

A pintura abaixo, ostensivamente, não apresenta mistérios. Seu título é O Mestre em Luta Livre Desafiado pelo seu Discípulo, o artista é Mahmud Muzahhib, de Bukhara, no Uzbequistão, e a obra é datada de 1560-1561. A plaquinha do museu nada mais diz a não ser que os materiais utilizados são tinta, aquarela e ouro em papel.

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Tentei vários filtros, nenhum torna os rostos mais nítidos, mas está claro que o vencedor foi o Mestre. O homem sendo levantado ao ar é mais jovem do que o outro. O Mestre foi desafiado por um discípulo e venceu.

Uma parábola sobre a arrogância da juventude e a sabedoria dos mais velhos? Certamente. Uma pesquisa na Internet, porém, revelou mais detalhes. A pintura foi leiloada em 4 de outubro de 2012 (quando, suponho, o MIA a comprou) pela Christie´s de Londres e o catálogo com informações sobre a obra ainda está na sua página eletrônica. A estimativa de preço era entre 100.000 e 150.000 libras esterlinas; a pintura foi vendida por 181.250 libras. Informa a Christie´s: “This miniature illustrates one of the best known stories from the Gulistan of Sa’di, (bab 1 hikayat 27)”. O Golestan (“Jardim de Rosas“), escrito por Sadi no século XIII, é talvez o livro em prosa mais importante da literatura persa. Em abril, em Teerã, eu visitei o Palácio de Golestan e fiquei me perguntando se o nome do Palácio é uma referência não só aos seus jardins, mas também ao livro.

Continuemos com a transcrição que o catálogo da Christie´s faz do conto sobre o mestre em luta livre no Golestan (resumo a estória): um grande mestre em luta livre conhecia 360 truques, dos quais ensinou 359 ao seu discípulo predileto, por quem tinha “uma particular afeição”. Graças ao aprendizado com seu mestre, o aluno tornou-se altamente hábil em luta livre, a ponto de declarar-se tão capaz quanto ele. O rei, chocado com a pretensão do discípulo, ordenou que eles disputassem uma luta, que o mestre venceu graças ao único truque que não ensinara. O aluno declarou-se injustiçado, por não ter recebido esse ensinamento do mestre, ao que este retrucou que fizera bem em não compartilhar todo o seu conhecimento, citando a seguir um poema: “Ou a fidelidade não existe neste mundo ou ninguém a pratica mais, pois todos aqueles a quem ensinei tiro com arco e flecha, em algum momento me tomaram como alvo”.

Sobre a pintura abaixo, indiana de 1595 e intitulada Um Poeta Sendo Descartado por um Príncipe (‘spurned’, na versão em inglês da placa no museu; o verbo pode ser traduzido também como ‘desprezado’ ou ‘rejeitado’), nada encontrei na Internet, e a mensagem subjacente à cena é obscura: a frieza dos poderosos frente às artes, a inocência sendo derrotada pelas artimanhas do poder ou uma estória de amor mal-sucedida? Devemos supor que um destino não muito bom espera a eloquente figura humana sendo retirada do cenário no canto inferior direito, mas o quê: a morte, a miséria, o exílio, penas de amor? A escrita na pintura deve elucidar tudo isso, e esta é a ilustração de algum conto ou poema conhecido no mundo islâmico, contido na coletânea (diwan) de poesia de Amir Shahi, mas para mim permanece o mistério.

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Prefiro terminar este passeio pelas coleções do MIA com uma pintura indiana do século XVI que apresenta uma visão mais serena da vida, sem conflitos ou rivalidades:

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A cena representa dois músicos sentados sob uma árvore florida. Esperemos que pertencessem a uma corte ilustrada, onde houvesse espaço para que vários músicos  fossem valorizados e pudessem mostrar seu talento, sem intrigas ou competições.

Ao sair do museu, ao anoitecer, vi a seguinte imagem, tão serena quanto a dos músicos, embora povoada de vida; e com ela encerro:

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Em 2021, eu escreveria também sobre o Museu de Artes Islâmicas de Kuala Lumpur, em Os bois de Mirza Babur

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Os Bragança de Chandor

Iniciar por Goa uma primeira visita à Índia é, para um brasileiro, experiência marcante. De um lado, vê-se a Índia como a imaginamos: vegetação luxuriante, vacas passeando calmamente pela rua, atrapalhando o trânsito, um sem fim de motos buzinando. De outro, nomes portugueses de pessoas, nomes portugueses de lugares e capelinhas ou altares católicos pelos cantos, em profusão.

Como tanta coisa na Índia, Goa é antes de mais nada um estado de espírito. É um estado pequeno na costa Oeste – o menor da Índia – e é também um lugarejo, agora conhecido como Velha Goa, remanescente da antiga e dinâmica capital da Índia portuguesa, “a Roma do Oriente”, que chegou a ter 200 mil habitantes e hoje abriga cerca de 5 mil. Do antigo esplendor, restam as igrejas barrocas. É importante lembrar que Camões lá morou e que Afonso de Albuquerque, que lá morreu, é quem conquistou a região, em 1510, para os portugueses (“Toma a ilha ilustríssima de Goa!”, diz o verso do Canto X dos Lusíadas, referindo-se a alguma das ilhas na desembocadura do rio Mandovi) e foi recompensado com os títulos de vice-rei da Índia e de duque de Goa.

Das igrejas, pude na semana passada visitar duas, a Basílica do Bom Menino Jesus – o nome é esse mesmo; estamos na Índia, mas estamos em Goa – e a Sé. As duas são separadas por uma estrada ao longo da qual, nos dois lados, correm gramados bem cuidados, protegidos do asfalto por cercas pintadas de branco. O espírito bucólico dos jardins é o oposto do que acontece na estrada, onde há ruído, buzina, motos, carros e ônibus.

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E agora, vejam esta foto, tirada em uma rua transversal à estrada, ladeando o gramado mostrado acima, mas que revela universo contrastante:

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Todas as fotos que tirei da fachada da Basílica ficaram ruins, possivelmente porque os cartazes de cada lado da porta principal me pareceram incompatíveis com a beleza do edifício, e resolvi que qualquer foto seria estragada por eles, mas esta talvez dê uma ideia da imponência da igreja:

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O interior é igualmente belo:

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O arco à direita leva ao túmulo de São Francisco Xavier, que viveu em Goa e morreu na China mas teve seu corpo aqui enterrado, após algumas peripécias: em apenas um ano, entre dezembro de 1552, quando morreu o futuro santo, e dezembro de 1553, quando foi enterrado na Basílica em Goa, o corpo passou por túmulos na China e em Málaca.

Do outro lado da estrada, dentro da Sé de Velha Goa, o interior é ainda mais magnífico:

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Do que vi em Goa, nada me chamou mais a atenção do que a casa dos Menezes Bragança, na aldeia de Chandor, no interior do estado, a Leste da costa.

Quando os portugueses chegaram à Índia, no século XVI, não faltaram membros da elite local para se associar a eles. Essas famílias converteram-se ao catolicismo e no batismo adotaram nomes portugueses. Uma delas passou a se chamar Bragança, dividindo-se posteriormente em dois ramos, Menezes Bragança e Bragança Pereira. As famílias da casta dos xátrias (guerreiros) convertidas ao catolicismo, como os Bragança, são conhecidas como chardós.

Quando a família adotou o nome da família real portuguesa? Goa virou colônia em 1510; os Bragança subiram ao trono em 1640. A família hindu passou a apoiar os portugueses depois de 1640 e aí adotou o sobrenome real ou já seria aportuguesada e católica anteriormente, passando apenas a adotar novo sobrenome depois dessa data?

A casa dos Menezes Bragança, que pertence ainda à família, é considerada a mais imponente das que sobrevivem do período colonial. No dia da minha partida de Goa, decidi sair cedo do hotel, e seguir no taxi um desvio por Chandor… em resumo, fui ao Norte passando pelo Leste. A caminho de Chandor, passei por uma agitada cidade de nome Margão e por estradas vicinais praticamente desertas.

A casa fica isolada no campo, rodeada apenas de alguns monumentos indo-portugueses e de uma feíssima igreja católica. Julguei que apenas os dois monumentos mereciam ser fotografados. Um deles, me disseram, é o mausoléu da família (não sei qual dos dois):

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Os vários cabos de eletricidade entrecruzando-se no ar me fizeram pensar no Brasil.

Em frente a esses dois monumentos, mas na diagonal, encontra-se a casa:

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Esta é apenas uma parte da fachada, que é belíssima em seu estilo indo-português. Passada a porta de entrada, o acesso ao andar principal não poderia ser mais despojado:

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Fui recebido pela Sra. Judith Borges, membro da família, que me acompanhou na visita. É proibido fotografar o interior da casa, mas minha guia abriu exceção para mim, deixando-me tirar três ou quatro fotos; para cada uma, precisei mendigar arduamente. Recebi autorização para publicá-las neste blog. Foi uma experiência única, conversar no interior da Índia com uma senhora indiana (“não temos uma gota de sangue português”, disse-me ela, em tom neutro), que fala um português de Portugal perfeito, fluente e sem acento.

A Sra. Borges contou-me a estória da família: aliados ao portugueses durante a conquista e   a consolidação da colônia, tornaram-se nacionalistas durante o processo de independência da Índia. O membro mais ilustre da família pode ter sido Luís de Menezes Bragança (1878-1938), escritor e ativista anticolonialista, nascido na casa, a qual viria a herdar de seu avô materno, Francisco Xavier de Bragança, moço fidalgo, de quem há em uma parede  – não pude fotografá-lo – um retrato sentado, ostentando numerosas ordens e condecorações. Goa foi incorporada à Índia em 1961. No ano seguinte, segundo minha guia, a reforma agrária privou a família de sua fonte de renda principal.

A casa, construída há 380 anos, contém tesouros em móveis, prata e porcelana. Dois vasos pertenceram a São Francisco Xavier. Mostro na foto abaixo a enfileirada de salas:

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O retrato é o de Luís de Menezes Bragança. Pensei em pedir autorização para afastar a cadeira branca de plástico, julgando que a foto, assim, produziria cena mais homogênea. E aí percebi que isso seria um erro, pois a cadeira de plástico dá o toque divergente, humano.

O jornal inglês The Independent publicou, em 2003, artigo bem informativo, mas com erros factuais, sobre a casa, dando-lhe o título exagerado – ou sarcástico  – de The Lost Versailles of the Jungle. O artigo foi fator determinante para minha decisão de visitar o palacete dos Menezes Bragança. De certa forma, entendi a razão do título ao ver o salão de baile: longo, com uma sucessão de espelhos (“vindos da Bélgica”, disse-me Judith Borges), de janelas e de candelabros venezianos, lembra mesmo uma versão reduzida da Galerie des glaces de Versalhes. Recebi autorização para fotografar não o salão todo, mas o canto de que mais gostei, por causa do piano e os porta-retratos que, uma vez mais, humanizam:

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Como no caso da cadeira de plástico branco, o fio de eletricidade comove pela simplicidade.

Em retrospecto, percebo que deixei de fazer perguntas à minha guia que poderiam ter me ajudado a conhecer melhor a colonização portuguesa em Goa e o processo de integração à Índia independente. Por exemplo, vejam a foto abaixo:

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O buraco na parede (há outro igual do outro lado da janela) servia, voluntariou minha cicerone, para inserir armas de fogo. Para proteger a casa de quem, pergunto-me agora… quem era o inimigo?

Não há restrições para fotografar o pátio interno. Das muitas fotos que dele tirei, escolho esta abaixo, porque mostra a janela coberta de madrepérola, material utilizado antes da popularização˜do vidro em Goa e que ajudava a proteger do calor e a diminuir a intensidade da luz:

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A visita é gratuita, mas a família pede uma contribuição voluntária, para ajudar na manutenção da casa. Na saída, no salão verde retratado acima, Judith Borges apontou para uma caixa retangular de madeira, onde eu deveria colocar o dinheiro. Pensei em uma estória que li sobre Chopin, na adolescência: aristocrático, sobrevivia em Paris dando aulas de piano a moças nobres. Ao terminar as aulas, virava as costas para suas alunas, enquanto elas depositavam o pagamento sobre a lareira. Estávamos em plena era romântica, Chopin tinha suscetibilidades que deviam ser preservadas. A estória é narrada por Harold  C. Schonberg em seu The Lives of the Great Composers, onde acabo de relê-la: “Elegant pupils would enter Chopin’s studio and put theit twenty or thirty francs on the mantelpiece while he looked out of the window. He was a gentleman and gentlemen did not soil their hands with anything as vulgar as business transactions”.

Deixei 500 rúpias na caixa de madeira. Fiquei me perguntando se era pouco. Pelo meu contentamento, nunca seria demais. Judith Borges deu-me seu cartão, mas não há endereço eletrônico nem número de celular indicados, então a opção de eu obter respostas a minhas atuais indagações históricas sobre Goa e sobre a casa por meio de mail ou de whatsapp não existe.

O cartão, na verdade, é ainda o de Aida de Menezes Bragança, nora do jornalista e escritor anticolonialista e também sua prima, pois nascera no outro ramo da família, os Bragança Pereira. Falecida em 2012 aos 95 anos, tia de Judith, Aida foi objeto, em 1998, de um documentário, A Dama de Chandor, dirigido por Catarina Mourão. Declara no filme: “Fui colocada em um internato em Paris [isso terá disso em torno de 1930] e as pessoas lá me perguntavam sobre Gandhi. Eu não sabia quem ele era e explicava: ‘Eu sou da Índia portuguesa, não da Índia inglesa’ “.

No taxi, indo ao aeroporto, comecei a pensar no que vira e nas questões que me povoavam a mente, sobre o palacete, a família, a colonização, a integração à Índia. Junto com indianos, esperei o trem passar:

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Passei por este lago, o próprio retrato da serenidade:

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Cheguei ao aeroporto meditando ainda sobre a História e a grandeza desse país, desde sempre objeto das cobiças e devaneios alheios, e dizendo para mim mesmo: “De fato, Incredible India‘”.

 

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Bob Dylan encontra a lua e Alfred de Musset em Doha

O Prêmio Nobel de Literatura para Bob Dylan parece contar com unanimidade, o que não é tão surpreendente: quem ousaria, sob o risco de parecer retrógrado, condenar a Academia Sueca por ser inovadora e fazer um aceno a um compositor popular e idolatrado? Por enquanto, li apenas uma voz discordante, a de Anna North no New York Times, mas o jornal publicou também artigos elogiando a escolha.

Coloco esta foto, que tirei em Doha ontem, em homenagem a Dylan, por causa de uma canção que ele canta magistralmente, Full Moon and Empty Arms.

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A canção não foi composta por ele. É de 1945 e foi gravada por Sinatra e posteriormente por vários outros cantores. A melodia é de Ted Mossman e a letra é de Buddy Kaye. Bem, dizer que a melodia é de Ted Mossman é generosidade, pois é fortemente inspirada, se não copiada, do terceiro movimento do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff. Ted Mossman parece ter sido um popularizador de composições alheias e em seu tempo nem sempre foi elogiado por isso.

Vejam neste artigo do ano passado de cmuse.org como o Concerto de Rachmaninoff influenciou a cultura popular. Estranhamente, o texto não menciona Full Moon and Empty Arms, talvez porque o disco de Dylan onde a canção aparece, Shadows in the Night, que deu à música nova vida, é também de 2015.

Sempre, quando vejo a lua cheia, eu penso em Alfred de Musset, por causa de seu interminável poema Ballade à la Lune, incluído  em uma coletânea de versos franceses que meus pais me deram de presente, nos meus 7 ou 8 anos. O poema começa assim: “C’était,  dans la nuit brune, sur le clocher jauni, la lune, comme un point sur un i”. Acho muita graça na noção da lua como “um pingo no ‘i'”… isso remete a dias muito felizes da minha infância. Ao ver a lua cheia, frequentemente exclamo: “Como um pingo no ‘i'”, para perplexidade das pessoas próximas de mim, que não consideram a ideia tão marcante. A tradução para “clocher jauni” seria “o campanário amarelado”. Na foto cima, há duas torres amareladas, incluindo o minarete ao fundo; um boa ilustração do verso de Musset.

A lua ajuda a ter uma boa concepção da relatividade da vida. Como não se sentir mínimo, ao lembrar que, como Bob Dylan em 2015, agricultores nos vales do rio Eufrates, no século VI a.C. (para não falar do próprio Nabucodonosor), já deviam olhar para a lua com perplexidade e fazer dela a confidente de seus sonhos, suas esperanças, seus temores?

Se quiser ouvir o Prêmio Nobel de Literatura cantando Full Moon and Empy Arms –  e acho que você deveria querer – aqui está o link:

Full Moon and Empty Arms

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