A Praia do Flamengo vista da varanda do Pen Clube do Brasil
Tomei posse, em 27 de junho, no Rio de Janeiro, como sócio do Pen Clube do Brasil. Na ocasião, fiz este discurso sobre a tradição literária do Rio:
Sr. presidente do Pen Clube do Brasil, professor Ricardo Cravo Albim,
Caros amigos, caros colegas do Itamaraty,
Quero antes de mais nada agradecer ao nosso presidente, Ricardo Cravo Albim, por esta cerimônia. Como sou Embaixador do Brasil na Malásia, eu não pudera ainda tomar posse como membro do Pen Clube do Brasil. Nosso Presidente acolheu favoravelmente que a cerimônia se desse esta semana, a única que passarei no Rio de Janeiro nestes poucos dias de férias no Brasil.
Quero também agradecer ao editor Carlos Leal, meu amigo, pelas palavras generosas com que me saudou.
Há muitos amigos e primos presentes aqui hoje. Quero registrar, em especial, a presença de minha mãe, Embaixadora Thereza Quintella. Minha mulher, Eugênia Barthelmess, por ser Embaixadora do Brasil em Singapura, não pôde estar presente. Por intermédio da minha mãe e da minha mulher, quero homenagear todas as mulheres profissionais do Brasil, e não somente as diplomatas, que enfrentam toda série de dificuldades para o bom êxito de suas carreiras.
Quero, desde já, prestar homenagem a uma personalidade ímpar, meu pai, Ary Quintella, que pertenceu ele também a esta instituição. Em setembro, serão 25 anos desde seu falecimento.
Não é à toa que começo este discurso mencionando meu pai e minha mãe. Eles foram, sem dúvida, e como seria natural, as maiores influências na minha formação. Minha formação emocional, psicológica e também intelectual.
Criança e adolescente, minha maior alegria, meus melhores momentos eram passados lendo os volumes que eu retirava da biblioteca familiar. Havia, naturalmente, os livros infantis e juvenis que meus pais ofereciam a mim e aos meus irmãos. Este ano, em abril, vimos partir o Ziraldo. Guardo com carinho a primeira edição de Flicts, que ganhei aos seis anos de idade. Ou melhor, Eugênia o guarda com carinho, pois o livro está em Singapura. Essa separação involuntária da biblioteca conjugal é, desde 2020, um dos elementos da nossa realidade de casal de diplomatas.
Havia portanto os livros oferecidos pelos pais, mas havia os livros pertencentes aos pais, em suas estantes no Rio, em Bruxelas, em Montevidéu, em Brasília, em Londres. Há algo de mágico no fato de uma biblioteca viajar. Ao nos acompanhar, ela torna nossa vida nômade mais estável, mais aceitável. A casa da gente é onde nossos livros estão. Filho de diplomata, desde sempre tive de aceitar que tudo seria impermanente: os amigos, a escola, o idioma, a cultura e os hábitos locais.
Mas a biblioteca dos meus pais era um dado permanente, era algo sólido, em que eu podia confiar. Era um refúgio. Um refúgio contra as impermanências da vida, as incertezas que eu percebia ao meu redor, inclusive as incertezas quanto à durabilidade do casamento dos meus pais.
Em dezembro de 2023, na qualidade de Embaixador na Malásia, participei do Festival Literário de George Town, na ilha de Penang, na costa ocidental da Malásia. É um celebrado evento anual. A edição de 2023 contou com a presença de famosos autores europeus, entre outros Geoff Dyer e Édouard Louis. E também, e sobretudo, com a presença de Clarice Lispector. Graças a recursos fornecidos pelo Instituto Guimarães Rosa, que é o departamento cultural do Itamaraty, a Embaixada em Kuala Lumpur montou, para o Festival de George Town, uma exposição sobre a vida e a obra de Clarice. O material nos foi cedido gratuitamente pelo Instituto Moreira Salles, e a exposição em Penang era uma versão reduzida da mostra realizada pelo Instituto Moreira Salles, “Constelação Clarice”, em São Paulo e no Rio, entre 2021 e 2022. Em Penang, o espaço era apenas um ambiente, transformado pelo curador malásio como se fosse uma sala no apartamento de Clarice. Era um espaço intimista. Visitantes me disseram que, ao tomar conhecimento pela primeira vez da existência de Clarice naquela exposição, haviam se sentido estimulados a ler sua obra. Seus livros, aliás, em traduções para o inglês, estavam à venda na livraria oficial do Festival, e saíram rapidamente.
Ao abrir a exposição, eu disse algumas palavras sobre Clarice Lispector e citei uma carta sua muito famosa a Olga Borelli, que muitos dos aqui presentes já conhecem. É a primeira carta; Clarice e Olga Borelli acabavam de se conhecer, por isso o tom pessoal e franco usado por Clarice causa ainda mais impacto. A carta diz: “Sou uma pessoa sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes, tenho esperança”.
Eu gosto muito dessa carta. Frequentemente penso nela. A meu ver, ela sintetiza a razão pela qual lemos e escrevemos. Lemos e escrevemos para ter um rumo na vida, um leme que nos guie. Lemos e escrevemos para descobrir o que queremos fazer de nós mesmos.
Ler e escrever são duas facetas da mesma atividade, a busca de si mesmo. Ajuda no processo que um bonito poema de Jorge Luis Borges, “Tríada”, define como la triste costumbre de ser alguien. E eu vejo que essa é a grande aventura de todo ser humano, descobrir como somos, como ser alguém. E é isso que ler e escrever nos permitem fazer.
O Rio de Janeiro é um lugar privilegiado. Não só por causa da sua inigualável beleza natural, mas por ser um celeiro da escrita. Terra natal ou de moradia de escritores. Podemos acompanhar sua evolução ao longo do tempo por meio da literatura, a que serve de fonte de inspiração. O Rio iguala-se então a outras cidades literárias, como Paris, Londres, São Petersburgo. Quando, em posto no exterior, leio a descrição que Machado de Assis faz, em Quincas Borba, da praia de Botafogo ao luar, o coração se aquece. Escreve Machado: “A lua estava então brilhante; a enseada, vista pelas janelas, apresentava aquele aspecto sedutor que nenhum carioca pode crer que exista em outra parte do mundo”.
Estrangeiros citam o Rio em suas obras. Há três anos, escrevi um ensaio intitulado “Joseph Brodsky no Corcovado”. Pois Brodsky aqui esteve, em 1979, justamente para participar de um congresso do Pen Clube Internacional, então presidido por Mario Vargas Llosa. O texto de Brodsky é ambíguo e até preconceituoso; ele não entendeu o Rio de Janeiro. Achou mesmo haver aqui um rio chamado Janeiro. Mas mesmo ele ficou boquiaberto com a nossa paisagem. Vendo a cidade do alto do Corcovado, estima que: “Em um dia claro, você sente que tudo o que seu olhar já viu antes são apenas as sobras miseráveis e sem brio de uma imaginação interrompida”. O Rio, assim, embora visto com ressalvas por Brodsky, e sem muita compreensão, e, como eu disse, com preconceito, causou um impacto pela sua beleza. É uma das três cidades sobre as quais se detém em sua obra, junto com sua cidade natal, São Petersburgo, e sua cidade preferida, Veneza.
Mas o Rio não é apenas um celeiro de escritores. É também o depositário de instituições literárias. Temos aqui na cidade o Pen Clube do Brasil, e também a Academia Brasileira de Letras e a Biblioteca Nacional. Visitei esta semana o presidente da Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, que é aliás membro do Pen Clube do Brasil, para fazer doação à Biblioteca de um exemplar do livro que a Embaixada do Brasil na Malásia publicou, em janeiro, sobre a obra realizada por um gênio brasileiro, Roberto Burle Marx, em Kuala Lumpur. A capital malásia tem a distinção de ser a única cidade asiática a conter um parque projetado por Burle Marx.
A Biblioteca Nacional impressiona. Na juventude, passei muitas horas em seu salão de leitura. O prédio está em perfeito estado de conservação, é um tesouro nacional, depositário de muitos outros tesouros.
Há outra instituição literária no Rio, além das que já citei. Existe, na Casa de Ruy Barbosa, o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira. Vou ao AMLB com frequência, quando estou no Rio, e já escrevi mais de uma vez sobre essa instituição. O arquivo do meu pai está lá. É algo estranho para mim que as cartas bastante francas, transparentes que escrevi ao meu pai não estejam comigo, mas sim no AMLB. Ele assim quis. Hoje mesmo, de manhã, fui à rua São Clemente, para visitar a nova diretora do Arquivo-Museu, Maria de Andrade, cuja presença nesta cerimônia agradeço. Rever no AMLB a poltrona de Manuel Bandeira, os óculos de Carlos Drummond de Andrade é também uma forma de pensar na tradição literária do Rio de Janeiro e, por extensão, do Brasil. Uma vez, há alguns anos, foi-me lá mostrado o manuscrito de Menino de engenho, de José Lins do Rego. Esse livro, cuja ação se passa no Nordeste, marcou minha adolescência de menino meio carioca e meio mineiro. Esse é o poder da literatura. José Lins do Rego, paraibano, escreve um romance sobre um menino nordestino, com o qual um adolescente no Sul do país pode se identificar. Ver o manuscrito no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira foi por isso uma experiência cativante para mim.
Ao agradecer uma vez mais esta cerimônia, senhor presidente, quero cumprimentá-lo pela iniciativa de organizar também esta semana um evento comemorativo de Guimarães Rosa. É por meio de iniciativas como essa que o Pen Clube do Brasil se equipara às outras instituições literárias. Contribui a fazer do Rio de Janeiro, terra lúdica, também um palco literário.
Aconteceu na Embaixada da França em Kuala Lumpur, uma noite de abril. O convite dizia que o mágico Anson Chen, de Hong Kong, faria uma apresentação pela primeira vez na Malásia. Éramos pouco menos de trinta convidados, acomodados em fileiras na sala de jantar.
O cenário
O primeiro truque já causou impacto. O mágico tirou do bolso um papel dobrado e explicou: “há aqui uma mensagem, dirigida a um membro específico do público”. Escreveu, sem nos mostrar, um número no papel, que entregou a um dos convidados na primeira fila, recomendando que o escondesse. Pediu que todos pensássemos em um número na faixa de 1 a 100.
O primeiro que me veio à mente foi 39, o que é coerente, porque tenho forte predileção por múltiplos de 3, desde que não sejam também múltiplos de 2. Gosto de 15, 27, 33, 45 e assim por diante. Anson Chen olhou em volta para a plateia. Acredito que tenha se detido sobre cada um de nós. Escolheu seis dos presentes para que se levantassem e anunciassem que número haviam escolhido.
Revelado em seguida o número escrito pelo mágico, que era 23, uma moça francesa, que dissera 21 —um dos meus favoritos, diga-se de passagem — era quem chegara mais perto de adivinhar corretamente. Anson Chen recuperou o papel, entregou-o à francesa e pediu que o lesse em voz alta. O texto iniciava com as palavras: “A pessoa que está lendo este bilhete usa calças pretas, e uma jaqueta amarelada”. Era uma boa descrição do traje da moça. Sobre os recados que o texto continha para ela, curiosamente não consigo me lembrar. Consultei por whatsapp o próprio mágico, que declarou-me também já haver esquecido.
Muitos dos truques eram inexplicáveis. Um casal malásio que conheço, Wei-Ling, galerista de arte, e Yohan, advogado, foi convidado a se sentar de frente para o público. Ambos vendados, estavam separados por uns dois metros. Anson Chen segurava uma mecha do cabelo de Wei-Ling e passava-o pela ponta do nariz da galerista. Perguntava então a Yohan se sentira algo. “Sim”, respondia o marido, “algo leve, como uma pluma, alisou meu nariz”. O experimento continuou, na testa de Wei-Ling, na face, no ombro, e sempre Yohan sentia o toque no mesmo lugar. Terminada a sessão na Embaixada, ao me despedir deles comentei: “Vocês foram submetidos a um teste de amor verdadeiro, e passaram”.
Uma mulher de verde, também francesa, recebeu nas mãos um livro. Foi-lhe pedido que o abrisse ao acaso, escolhesse uma palavra na primeira linha da página e a memorizasse. Fechado o volume, Anson Chen começou, frente à plateia, a procurar adivinhar a palavra, escrevendo as letras pouco a pouco sobre uma folha de papel. Talvez para aumentar ainda mais o nível de interesse, escreveu-as fora de ordem, formando um termo que nada significava. Colocando-as por fim na ordem correta, mostrou-nos a palavra court, que a mulher de verde admitiu ter sido a que pinçara no livro.
Na segunda ou terceira mágica, fui eu o escolhido como colaborador. Anson Chen pediu que eu me levantasse. Estendeu a mão, oferecendo-me um baralho imaginário. Ao entregá-lo, comentou aliás que eu não o estava segurando da maneira correta. Disse-me que embaralhasse as cartas. A esta altura, eu estava às gargalhadas, em pé, segurando as cartas invisíveis. De um lado, constrangido com a atenção da pequena plateia sobre mim, de outro curioso em ver o que me esperava, e achando graça naquele diálogo sobre um baralho inexistente, mas que adquiria, pela atenção a ele concedida, uma existência bem real.
Nunca fui adepto de jogos de cartas. Apenas no final da infância e na adolescência, na fazenda do meu avô materno, na Zona da Mata em Minas Gerais, muitas vezes joguei biriba. Não era porém do jogo que eu gostava, mas do acesso que me dava ao mundo adulto. Lembro com carinho das tardes passadas à mesa quadrada com tampo de feltro, em um canto do salão principal, onde meu avô, minha mãe, a irmã dela e eu jogávamos partidas que eram, para mim, enciclopédicas. Na infância e na adolescência, eu era calado. Por isso, falava pouco enquanto ouvia os três adultos. Observava. Analisava.
Frequentemente escrevo sobre meu avô e a fazenda. Ele não era muito loquaz, como certamente já tive ocasião de dizer em algum texto. Homem imponente, verdadeiro gigante silencioso, sua presença física comandava respeito, assim como seu olhar. Mas jogando biriba, em um ambiente familiar restrito às duas filhas e a um dos netos, transformava-se. Contava histórias, ria, dava detalhes, às vezes tenebrosos, da vida dos fazendeiros vizinhos, relembrava seus pais e o curso de sua vida, naquela fazenda e em outras onde crescera.
Meu avô quase sempre ganhava nas cartas, e por isso mesmo, nas duplas, era uma tranquilidade atuar como seu parceiro. Hoje, quando estou em salas de espera de dentistas ou médicos e jogo biriba no celular com robôs, lembro sempre de uma de suas regras, que era nunca deixar passar um ás. Adquiri dele, também, o hábito de comprar a mesa com frequência, algo irritante para o jogador subsequente.
Ele era fruto de uma intensa endogamia, o que só vim a entender mais tarde, ao examinar sua genealogia. Não sei até que ponto ele tinha consciência disso. Há algum tempo, perguntei a uma de suas sobrinhas se meu bisavô, Bertoldo, e minha bisavó, Olívia, com os quais ela convivera, tinham presente que eram primos múltiplas vezes, em graus variados de proximidade.
A questão para eles, avaliou minha prima, provavelmente não se colocava assim; terão sabido apenas que pertenciam ao mesmo grupo, e que seus pais se conheciam. Fora, aliás, um casamento arranjado mas, tudo indica, feliz. Na noite de núpcias, Olívia, de 12 anos, queria brincar com suas bonecas. Bertoldo respeitou seu desejo, devolveu-a ao pai e voltou alguns anos mais tarde para recuperá-la. A história soa triste, e parece tirada de algum livro de Gilberto Freyre, mas ilumina, a meu ver, de maneira positiva o caráter do meu bisavô.
Bertoldo e Olívia Machado, anos depois da noite de núpcias
Ocasionalmente, enquanto jogávamos biriba, meu avô fazia perguntas sobre minha avó, que se separara dele aos 18 ou 19 anos, grávida da minha mãe, deixando para trás a filha mais velha, de um ano e meio. Aludi ao fim desse casamento em Minha avó e seus dois maridos, sem porém mencionar o sofrimento decorrente da separação, para todos os envolvidos. Naturalmente, a dor maior coubera às duas meninas, crescendo uma sem o pai, a outra sem a mãe. As irmãs só iriam se conhecer dez anos após a partida da minha avó para o Rio de Janeiro.
Mais tarde, depois da morte da sua segunda mulher, surgiu para meu avô a era das namoradas nas cidades da redondeza. Conheci uma delas. Era casada. Aos 14 ou 15 anos, eu ficava boquiaberto ao presenciar a cordialidade com que meu avô tratava o marido, jovem o suficiente para ser seu filho.
Mais uns anos, e meus avós, que não se viam há décadas, iniciariam um namoro. Ele ia ao Rio, ela ia à fazenda. Em retrospecto, já mais velho, vejo que esse reencontro era natural, pois a vida é assim, em ciclos que se cruzam. Na obra teatral que é toda existência humana, em que cada um é diretor, produtor, cenógrafo, autor e ator principal da sua própria peça, as outras personagens aparecem, somem, reaparecem. Há períodos em que algumas são importantes, e permitimos que influenciem nossos rumos, em outros mal chegam a ser coadjuvantes. Minha avó e meu avô, após um afastamento de 45 anos, durante os quais praticamente nunca se viram, nunca se falaram, voltaram a namorar, a querer bem um ao outro. Mas não voltaram a se casar, e nem creio que essa reaproximação haja durado mais do que alguns meses. Terá servido porém para eliminar o rancor mútuo.
Nesse canto, costumava ficar a mesa com tampo de feltro
Abandonemos a fazenda de Sant’Anna em Minas Gerais, os seus morros, o verde que eu via por toda parte pelas janelas abertas enquanto ia ouvindo a conversa dos adultos e cometendo erros com as cartas. Voltemos a Kuala Lumpur, voltemos à sala de jantar da Embaixada da França, onde o mágico chinês me acusa de não saber embaralhar as cartas.
Ali, em pé, com os outros convidados me olhando, estou rindo, manuseando o baralho imaginário, como eu fazia com as cartas verdadeiras, em Sant’Anna. Separava as cartas em dois blocos, colocava os dois verticalmente, um sobre o outro, e empurrava as cartas do maço superior sobre as de baixo. Bem diferente dos adultos, do meu avô em especial, que sabia embaralhar como um profissional, e com extrema rapidez. Anson Chen me pergunta, em tom de crítica, olhar surpreso: “É assim que você faz?”. Respondo: “Não tenho muita prática. Nunca jogo cartas”. Mas enquanto digo isso, meu avô está bem presente na minha imaginação, e minha mãe, Thereza Quintella, que veio me visitar na Malásia, está aliás fisicamente ali, sentada ao meu lado, na sala de jantar da Embaixada da França.
Anson Chen instrui-me a retirar uma carta do monte invisível e dizer qual é. Com a mão direita fazendo o gesto de quem segura um baralho, com a esquerda interpreto o ato de extrair uma carta. Imediatamente, visualizo o 8 de Copas, o que anuncio em voz alta.
Devolvo o baralho fictício ao mágico e me sento. Ele tira do bolso da calça cartas verdadeiras, que entrega a outro membro do público, a quem pede para verificar se o 8 de Copas está incluído. Não está. Sobe da plateia um som de surpresa e suspense. Anson Chen então coloca a mão em outro bolso, do qual retira o 8 de Copas. Choque na assistência, incompreensão minha. Como ele pudera adivinhar, de antemão, que eu escolheria aquela carta especificamente?
Muito da sua atuação como mágico parece-me baseado em um poder de sugestão da mente alheia. Terá ele, ao me olhar e ao pedir que eu escolhesse uma carta, me induzido a selecionar o 8 de Copas? Mas isso existe? Um indivíduo que se apresenta também como hipnotista pode, ao olhar para outra pessoa, conduzir seu pensamento, levá-la a optar?
Minha própria escolha, na hora, surpreendeu-me. Contradizia minha preferência pelos números ímpares múltiplos de três. Em um baralho, faria sentido eu escolher o 3 ou o 9, ou talvez o 7, que, embora não seja múltiplo de 3, é um número favorito. O 8 nada significa para mim. Tampouco saberia explicar por que copas, e não um dos outros naipes.
Dias depois, ainda intrigado com a escolha do 8, descobri ser esse um número auspicioso na cultura chinesa. A informação veio por acaso. Selecionando em uma loja abotoaduras para dar de presente a meu genro, notei que o único par representando números era um 8. Não havia 5, ou 9 ou 4, só 8. Perguntei a razão à vendedora, e considerei a resposta reveladora: “esse é um número importante para os chineses, representa prosperidade, é um número de sorte”. Sem dúvida, estará mais vivo na mente de Anson Chen, o surpreendente mágico chinês, do que costuma estar na minha.
No carro, voltando para casa, pensei que Anson Chen, tendo ocupado minha mente para me fazer escolher o 8 de Copas, bem poderia ter também instalado nela a solução aos meus problemas. Na infância e na adolescência, na época em que eu jogava biriba na fazenda, essa era uma fantasia recorrente, de que alguém, magicamente, tudo resolveria para mim.
Logo depois, ao deitar, eu já aceitara que isso não aconteceria. Mais uma vez, caberia a mim tomar minhas próprias decisões. Senti-me mais poderoso do que o mágico chinês.
Visitando um pequeno museu em Kuching, cidade à beira do Rio Sarawak, na Malásia, deparei-me com o sobrenome Rastignac. Para o leitor apaixonado por Balzac, foi como ser atingido por um raio. Eu me via confrontado, em plena ilha de Bornéu, com a existência bem real de uma família com o mesmo sobrenome de um dos personagens mais famosos do escritor, Eugène de Rastignac, símbolo do jovem ingênuo transformado em ambicioso calculista. Ler aos quatorze ou quinze anos Le Père Goriot (1835), obra cruel até para os padrões de Balzac, gerou em mim uma impressão permanente.
Despertada minha curiosidade sobre como o nome – tão francês – de Rastignac fora aparecer na parede de um museu em Bornéu, acabei mergulhado em uma história muito inglesa – a de Charles e Margaret Brooke. Passei quase um ano lendo e pesquisando com estupefação biografias, memórias, volumes de história e genealogias em busca de explicação sobre como uma família de classe média do interior da Inglaterra chegara a se transformar em dinastia de rajás à frente de um vasto entreposto do império britânico na Ásia.
Margaret nos conta ela própria a sua vida. Casada com seu parente Charles Brooke, o segundo “Rajá Branco” de Sarawak, perdeu em seis dias os três filhos, mortos de cólera no navio, em viagem de Kuching à Inglaterra via Singapura. Os corpos foram atirados ao Mar Vermelho. Uma quarta criança havia nascido morta, uns meses antes. Era 1873 e ela tinha 24 anos. Estava casada desde 1869 apenas. Décadas depois, Margaret Brooke se tornaria amiga da escritora inglesa Marie Belloc Lowndes. Em suas memórias, The Merry Wives of Westminster (1946), esta conta que apenas uma vez ouviu Margaret referir-se à morte dos filhos, e mesmo assim de forma vaga, “de uma maneira tal que, se eu já não tivesse sabido a respeito, não teria entendido a alusão”. Três filhos adicionais viriam a nascer, chegariam à idade adulta, e o mais velho, Vyner, reinaria em Sarawak depois do pai.
Charles Brooke era o administrador colonial de Sarawak, que governava como chefe de Estado hereditário. Sucedeu ao tio, James Brooke, o primeiro Rajá Branco, e legou por sua vez o território ao filho. Metodicamente, em detrimento do sultão de Brunei, foi acrescentando terras ao seu domínio, que acabou ficando tão extenso quanto a própria Inglaterra. Margaret Brooke era a Rani de Sarawak, a mulher do Rajá. O casamento não era feliz. Em seu livro de memórias My Life in Sarawak (1913) — que Joseph Conrad elogiaria em uma carta à autora escrita em 1920 — e na autobiografia Good Morning and Good Night (1934), Margaret descreve o marido como homem silencioso e metódico, totalmente voltado para a administração do território que comandava em Bornéu, e quite incapable of showing sympathy or feeling about anything that did not touch Sarawak.
Charles Brooke em meados da década de 1860
Good Morning and Good Night revela-nos a falta de opções à disposição da autora quando solteira, apesar do dinheiro da mãe. Nascera em Paris, crescera até os dez anos no castelo da avó na França, em Épinay, e desde a morte do pai de uma queda de cavalo, que a deixara órfã aos quatorze anos, levava uma vida errante pela Europa, com a mãe, Elizabeth Sarah de Windt, conhecida como Lily, os dois irmãos e umas amigas antigas de Lily, parasitical spinsters, como Margaret as classifica: From Paris to Florence – from Florence to Rome – Switzerland – the Tyrol, on we would move, always living in hotels.
Charles Brooke era primo-irmão de sua mãe. Um dia, aos 42 anos, solteiro, ele aparece na casa de campo da família, na Inglaterra, em busca de uma noiva rica cuja fortuna pudesse saldar as dívidas de Sarawak. Ele próprio não tinha conhecidos na Europa, pois desde os 13 anos estivera na Marinha britânica, e a partir dos 23 vivera em Sarawak, a serviço do tio, de quem herdara o poder em 1868.
Não é impossível que Margaret tenha tido alguma noção romântica da figura de Charles. Antes de conhecê-lo, ela lera já o livro, publicado em 1866, em que ele relata sua vida em Sarawak, onde morara dez anos em fortes à beira de algum rio, na floresta, controlando etnias inimigas entre si e jogando uns contra os outros os caçadores de cabeças. O aparecimento do primo mais velho, soberano em uma terra distante, sobrinho de uma figura mítica como fora James Brooke, deve ter sido acompanhado de uma aura de mistério e aventura.
Não faltam certos trechos de algum valor literário no livro de Charles, como este, inserido no meio da descrição de um ataque que ele organiza e lidera à terra dos Kayans, que estavam depredando bens dos Dayaks e prejudicando o comércio: the only sounds to be heard were those of nature alone, – the murmuring of the jungle insects, the low rumbling of the distant rapids, and the stream pouring over the pebbles close to us. Charles sentia-se inteiramente adaptado à vida em Sarawak e pouco à vontade no país onde nascera. Na floresta, costumava andar descalço como os Dayaks. Tendo de viajar à Inglaterra, após dez anos ininterruptos na Malásia, ele comenta: little did I care for the prospect of European pleasures, so much thought of and sought after as an Elysium by many living so far away. They are invariably found disappointing when England is reached.
Mapa da Malásia
Nas memórias e biografias dos diferentes atores envolvidos, há frequentes referências ao fato de que Charles pode ter primeiro pensado em se casar com a mãe de Margaret, Lily de Windt, então com 43 anos. A escolha acaba recaindo sobre a filha, que, aos 19 anos, lhe permitiria o mesmo nível de acesso aos recursos financeiros da família. A oferta de casamento e sua aceitação não refletiam sentimentos amorosos. No hotel em Innsbruck, aonde acompanhara os primos, Charles atira sobre as teclas do piano, no qual a moça supostamente teria estado tocando um noturno de Chopin, um poema sobre casamento – mas não sobre amor. I do not imagine the poor dear man could ever have been madly in love with me, admite ela; on my side, although I respected him and admired his achievements, I was never in love with him.
Desde o início, o marido foi parcimonioso com dinheiro, inclusive o da mulher. Com o tempo, o casamento torna-se uma ficção. Margaret vive na Europa, sob o pretexto de cuidar da educação dos filhos. A partir de 1880, os períodos que ela passa na Malásia são cada vez mais raros e curtos. Em 1887, esteve em Sarawak por poucos meses. A viagem seguinte a Bornéu aconteceria somente em 1896. Seria a última. Quando My Life in Sarawak foi publicado, fazia dezessete anos que a Rani não via sua terra de adoção. Ela morreria em 1936, sem ter voltado a Bornéu nos últimos quarenta anos de vida. Durante alguns anos, em Londres, morou com os filhos ainda pequenos em Cornwall Gardens. Minha mãe, minha irmã e eu moraríamos na mesma pequena rua cem anos depois. Entre os dois períodos, lá viveu também Joaquim Nabuco.
A história contada em My Life in Sarawak é a de uma jovem vitoriana que descobre aos vinte anos, com fascinação, a realidade tropical de Bornéu. Ela se adapta às suas novas circunstâncias, faz amizades locais. Viaja no iate do marido e em pequenas embarcações fluviais, acompanhando o Rajá Branco em seus roteiros de inspeção. Enfrenta sem o marido, sozinha em um forte longe da capital, querreiros Kayans, que teria conseguido apaziguar. Passa a usar trajes típicos de Sarawak. Aprende a língua malaia. Descobre que o canto do bulbul é mais bonito que o do rouxinol.
A primeira frase resume o espírito de todo o volume: When I remember Sarawak, its remoteness, the dreamy loveliness of its landscape, the childlike confidence its people have in their rulers, I long to take the first ship back to it, never to leave it again. Por um lado, a declaração de amor pela terra que não verá mais chega a ser tocante. Por outro, a referência à “confiança infantil que seu povo deposita nos governantes” irrita e nos faz lembrar estarmos diante de um casal inglês, representante do espírito colonialista britânico, transformado em rei e rainha nos trópicos asiáticos. Desde o início, em 1841, quando James Brooke passara a governar Sarawak, esta fora a ambiguidade da curiosa dinastia: reinavam na Ásia do Sudeste, mas não abandonavam a nacionalidade inglesa. Eram simultaneamente senhores e súditos.
O segundo livro, Good Morning and Good Night, é mais pessoal e revelador – e ainda assim de maneira relativa, como veremos. No texto de 1934, Margaret atribui o insucesso matrimonial aos ciúmes que o marido teria da sua popularidade em Sarawak: he wished to remain alone and supreme in the love and affection of his subjects. Ao mesmo tempo, depreende-se que, em Bornéu, ela estava sempre adoentada, talvez com depressão, talvez com malária. Há uma contradição entre o amor professado por Sarawak e suas constantes doenças. O médico britânico em Kuching entende que ela sofre de histeria, clássico “diagnóstico” do século XIX para deslegitimizar mulheres. Ela própria nos diz: Hysteria! – that blessed refuge of somewhat unskilful doctors who find themselves unable to diagnose a disease!.
Nos dois livros, Kuching, onde viviam 30 mil habitantes quando Margaret lá aportou pela primeira vez, é simultaneamente apresentada como uma espécie de paraíso, mas também com outras cores, como aldeia insalubre infestada de malária, mosquitos e ratos. No rio Sarawak, nadavam crocodilos. Se é verdade que a Rani teria sido acordada uma noite, como relata, por migração de “milhares” de ratos que atravessavam seu quarto, não sei. Mas posso testemunhar que na ilha de Bornéu a questão dos ratos não pode ser minimizada. O maior que vi em minha vida cruzou frente aos meus pés, em fevereiro de 2023, no mercado noturno de Kota Kinabalu, capital de Sabá, o outro estado malásio da ilha. Eu me preparava para acomodar-me em uma cadeira de plástico e jantar um peixe que vira ser preparado. A aparição do rato, grande como um gato e com sinais de doença na pelagem, me fez desistir.
Kuching na época de Margaret BrookeO Astana, ou palácio de Kuching, como o conheceu Margaret Brooke
Margaret de Windt passou proporcionalmente pouco tempo em Sarawak. Era porém seu título de Rani que lhe conferia prestígio na Europa. Frequentava a corte inglesa, junto à qual conseguiu diversas vantagens cerimoniais para Sarawak e o marido – para desgosto dele, que não apreciava suas interferências. Em 1901, obteve do novo rei, Eduardo VII, uma definição protocolar do status de Charles e, portanto, dela própria. O Rajá nascido na paróquia provinciana de Berrow, no interior de Somerset, ficava formalmente reconhecido como soberano de um Estado independente sob proteção britânica; os dois recebiam o título de altezas e eram inscritos, na ordem de precedência, logo após os príncipes reinantes indianos.
A facilidade com que Margaret, e, antes dela, o marido, construíam para si, por meio de suas memórias, uma imagem de exotismo e heroísmo tampouco atrapalhava sua popularidade. Próxima do príncipe Alberto I de Mônaco e sua mulher, a “soberana” de Sarawak frequentava artistas e escritores na França e na Inglaterra. Good Morning and Good Night narra episódios de sua amizade com Henry James, iniciada na década de 1890 e que durou até a morte do romancista. No primeiro encontro entre os dois, em Londres, na casa de uma conhecida comum, o escritor é descrito como um homem condescendente. A Rani afirma já haver então lido Roderick Hudson, Daisy Miller e The Princess Casamassima e elogia essas obras. Henry James levanta a mão ao ar e afirma: No, my dear lady, no, I can do better – I can do better than that. Margaret retruca: Oh, how can you say so? Surely they are quite perfect? A mão do escritor desce. Henry James olha para Margaret Brooke com sorriso de comiseração e responde: Well, as you will! But why are you here? You come from a land where the bulbul sings.
O livro menciona Pierre Loti – que dedicou um conto a Margaret – Maupassant, Rudyard Kipling, Swinburne, o pintor Edward Burne-Jones, a atriz Sarah Bernhardt. Parece haver consenso de que a Rani de Sarawak chegou a viver um romance, na década de 1890, com o jornalista americano William Morton Fullerton, quinze anos mais jovem, que não é mencionado em seus livros. Fullerton é hoje lembrado sobretudo pelo relacionamento amoroso com a escritora Edith Wharton e a amizade intensa que despertou em Henry James. Foi um desses personagens, como de uma certa forma a própria Margaret Brooke, que existem em toda parte, atraídos por escritores mais talentosos do que eles próprios. Ao fazerem parte da biografia alheia, preservam alguma fama após a morte.
Margaret Brooke em trajes malaiosA rani em trajes de Corte, na Inglaterra
Oscar Wilde, que lhe dedicou o primeiro conto de seu livro A House of Pomegranates (1891) – “To Margaret, Lady Brooke” – tampouco é mencionado, o que pode parecer estranho para nós, leitores do século XXI, cientes da perenidade de algumas de suas obras. Ocorre que quando Margaret escreveu seus livros de memórias, Wilde já morrera em desgraça, após o escândalo do seu processo e prisão. A mulher dele, Constance, precisara adotar outro sobrenome para si e os filhos, tal o constrangimento que passara a ser associado ao nome de Wilde. A Rani não viveu o suficiente para presenciar sua reabilitação.
Elemento constante na vida mutável de Margaret de Windt parece ter sido a busca por respeitabilidade, por afirmação de uma posição social. Não deixou, apesar disso, de prestar apoio a Constance, durante a prisão do escritor. Vyvyan Holland, filho de Wilde, escreve com gratidão a seu respeito, rememorando os dias passados perto de Gênova ao seu lado, e contando como sua mãe reencontrou alguma felicidade in the companionship of the Ranee, who was a comfort and a consolation to her until the time of her death three years later. Marie Belloc Lowndes afirma que o político trabalhista Richard Haldane visitou Oscar Wilde na prisão a pedido de Margaret. Foi graças a essa visita, é sabido, que o prisioneiro pôde receber livros e, mais tarde, caneta e papel, o que lhe permitiu escrever De Profundis, a longa carta da prisão de Reading.
É no afã de procurar demonstrar respeitabilidade que tem início Good Morning and Good Night. O castelo da avó em Épinay, onde Margaret crescera, é apresentado, nas primeiras páginas, como the home of the Rastignacs for generations. O “Reino do Terror” da Revolução Francesa, wreaking its hatred on the aristocrats, teria confiscado a propriedade e guilhotinado o marquês e a marquesa de Rastignac, “junto com tantos de seus amigos”. A única prole do casal, Elisabeth, bisavó de Margaret, teria sido “escondida pelos aldeões, que amavam os Rastignac”, e enviada à Holanda, para ser criada em segurança por um casal amigo, que a teria adotado. Mais tarde um filho do casal, Peter de Witt, casou-se com Elisabeth. Peter e Elisabeth de Witt teriam recuperado o castelo na França, onde foram viver, e o nome de Witt teria sido deturpado – pelos camponeses, afirma Margaret – em de Windt.
É um inteiro conto de fadas. Existem dois museus em Kuching celebrando o reinado de cem anos – de 1841 a 1946 – da dinastia Brooke. Ambos são administrados, com apoio do governo estadual, por uma entidade inglesa, Brooke Heritage Trust, presidida por Jason Brooke, descendente da família. Um dos museus, sediado no antigo Forte Marguerita, construído por Charles e nomeado em homenagem à mulher, é dedicado aos três Rajás Brancos. O outro, instalado no antigo Tribunal de Justiça, à vida de Margaret. O percurso pelas suas poucas salas começa com a reprodução de um quadro a óleo que representaria “o Marquês e a Marquesa de Rastignac, trisavós de Marguerite, por volta de 1780”.
As explicações do museu repetem, de forma acrítica, a versão fantasiosa oferecida por Margaret de suas origens. O tom esnobe da narrativa, com sua ingênua redução da Revolução Francesa ao “Reino do Terror”, ao “ódio pelos aristocratas” e à guilhotina é reproduzido pelo museu. Curiosamente, Margaret de Windt lembra nessa hora Lady Bracknell, personagem cômico de The Importance of Being Earnest, porta-voz assertivo, na peça, de valores sociais conservadores.
Forte MargueritaMuseu da Rani
A realidade é diferente do seu conto. Margaret fala da “bisavó Rastignac adotada pela família de Witt” como se a tivesse conhecido: “ela morreu quando eu tinha quatro anos”. Cita até, entre aspas, uma frase que a bisavó costumava dizer, falando dos casamentos da filha e da neta com ingleses: Ces Anglais, ces Anglais, toujours ces Anglais. Denomina-a “baronesa de Windt”. Essa pessoa, porém, nunca existiu. Ninguém usando o título de marquês ou marquesa de Rastignac jamais morreu guilhotinado. A avó materna de Margaret, Elisabeth, era uma de Windt adotada e transformada em herdeira pela tia, Judith de Windt. Esta, sim, enviuvara em 1817 de Jacques Gabriel Chapt, visconde de Rastignac. Os de Windt estavam instalados desde o início do século XVIII no Caribe – onde terão feito fortuna com lavoura de açúcar à base de trabalho escravo – e escreviam seu nome com essa grafia desde pelo menos o século XVII. A avó de Margaret, Elisabeth de Windt, casou-se com um inglês, que adotou seu sobrenome, e não com um holandês chamado Peter de Witt. Margaret não teve nem avô nem bisavô com esse nome. A sua bisavó de Windt, nascida Sarah Roosevelt, no Caribe — e não Elisabeth de Rastignac, na França —, morreu em Paris, em 1850, um ano após o nascimento da bisneta. Essas informações encontram-se em diferentes estudos genealógicos, todos de acesso público.
A história da família Chapt de Rastignac foi publicada em 1858 por sua última representante, Zénaïde, duquesa de La Rochefoucauld. Os Chapt de Rastignac são consistentemente descritos como de nobreza antiga. Pode-se deduzir a satisfação de Margaret de Windt em conseguir fazer crer, por meio das suas alegações, que descendia da família.
Terá Margaret sabido que na verdade não descendia dos Rastignac? Inventou ela própria essa fábula ou herdou-a da mãe ou da avó? A resposta pode estar em livro autobiográfico de seu irmão caçula, Harry de Windt, célebre em sua época como viajante incansável e também ele autor prolífico de narrativas de viagens. Vyvyan Holland é quem, mais uma vez, nos conta que Harry de Windt was a famous explorer at the end of the last century, his most remarkable feat being to travel from Pekin to Paris overland in 1887. É sobriamente, sem fantasias, que o irmão mais novo explica, em My Restless Life (1909), que o castelo em Épinay “tinha sido herdado de um parente, o visconde de Rastignac”.
O museu em Kuching perpetua no entanto as invencionices de Good Morning and Good Night. De um museu, mesmo um museu familiar, espera-se algum apego à realidade. Mais extraordinário ainda é que o mito dos antepassados aristocráticos franceses seja recolhido na obra da historiadora australiana Cassandra Pybus, que estudou as vidas de Charles e Margaret em The White Rajahs of Sarawak (1996) e compra, sem crivo, a versão de que Margaret de Windt descendia de “aristocratas franceses” e era por isso socialmente superior aos Brooke.
Viúva desde 1917, Margaret morreu em 1936, aos 87 anos. Foi poupada de ver o filho Vyner ter de renunciar, em 1946, ao reino de Sarawak, que se tornou formalmente apenas mais uma entre as colônias de um império britânico em declínio.
Em uma família onde cada um parece haver deixado seu próprio livro de memórias, sua nora, Sylvia Brett, mulher do terceiro e último Rajá Branco, também publicou as suas, com um título sensacionalista, Queen of the Headhunters (1970). Sylvia Brooke visitou a sogra poucos dias antes de sua morte e não foi por ela reconhecida. She had been a woman of note, escreve a nora, the friend of Henry James, H. G. Wells and Elgar. Now there was nobody; and she was just a lonely woman, living in a small flat, and already separated from life. There was something regal and tragic in her isolation.
Oscar Wilde não é a única omissão notável em Good Morning and Good Night. Quando Margaret descreve a morte de seus três filhos pequenos a bordo do navio – “aquelas flores belas e encantadoras cortadas em poucas horas, arrancadas de nós e jogadas ao mar” – e lista todos os presentes no seu grupo, “marido, irmão, os três bebês, a babá inglesa, a empregada doméstica”, deixa de lado uma pessoa.
Viajando com eles, ia uma outra criança, um menino de seis anos. Ele se chamava Esca Brooke e era filho de Charles Brooke com uma mulher malaia, de origem nobre, Dayang Mastiah. Charles e a mãe da criança podem ter se casado em um rito muçulmano. O garoto passou a ser criado no Astana, como é chamado o palácio em Kuching, e sua existência em Sarawak nunca foi um mistério.
Pode-se imaginar a reação de Margaret ao ver seus três filhos morrerem e serem atirados ao mar, enquanto o outro menino, que também adoeceu, sobrevivia. Cassandra Pybus especula ser possível que Esca, nascido na terra de Sarawak, filho mais velho do Rajá, fruto talvez de um casamento que as populações locais considerariam legítimo, viesse a ser um candidato sólido a suceder ao pai, em detrimento dos filhos da Rani. Cita uma frase de Margaret a um sobrinho, em carta de 1927: “Tive o bom senso de perceber que ele seria um problema se ficasse em Sarawak”.
Deixado na Inglaterra, em 1873, para ser criado por um reverendo anglicano, Esca Brooke emigrou com sua família adotiva para o Canadá. Ele nunca mais veria o pai; nunca receberia um bilhete sequer dele, apenas uma pequena pensão; nunca retornaria a Sarawak. Morreu em Toronto em 1953.
Quantas facetas cabem em um único personagem? Ao longo da história de Margaret de Windt, como ela a quis contar, vemos sucessivamente a jovem vitoriana ingênua, isolada embora de família rica; a soberana corajosa de uma terra tropical, distante do seu país de origem; a mulher infeliz no casamento e enlutada pela morte de vários filhos; a alteza detentora de um título espetacularmente insólito, amiga, na Europa, de príncipes e artistas; a personalidade pública ciosa de estabelecer uma posição de brilho para si, o marido e os filhos.
O que não vemos em momento algum, ao longo das suas memórias, é uma dimensão importante – que talvez seja o seu aspecto mais fascinante. Margaret entrou na vida do pequeno Esca Brooke, possível herdeiro de Sarawak, como presença nefasta, a clássica madrasta má. Com isso, conseguiu tornar-se, de fato, não uma Rastignac real, como fantasiou ser, mas uma personagem digna de Balzac.
A troca de mensagens inesperada, uma noite em Kuala Lumpur, desviou minha atenção do texto que eu escrevia sobre Castro Alves. Um amigo virtual no Twitter, Hudson Rabelo, residente no Rio de Janeiro, mandava-me a foto de um livro que conseguira na Berinjela, conceituado sebo carioca, e de um recibo. Nunca tínhamos nos correspondido antes. O recibo, onde meu nome aparece impresso, é o de uma compra que fiz em Quito, onde eu então morava, na livraria Libri Mundi. Lista sete obras, uma delas La guerra del fin del mundo, de Mario Vargas Llosa, justamente o mesmo exemplar adquirido por Hudson Rabelo na Berinjela. Esse foi o último romance que me dispus a ler do escritor peruano. Antes de ele virar espanhol, antes de ele virar marquês, antes de ele virar companheiro de Isabel Preysler, heroína das revistas espanholas de fofocas e ex-senhora Julio Iglesias. Preferi não ler nenhum dos subsequentes.
A Berinjela fica em frente à livraria Leonardo da Vinci. Essa não é mais a Leonardo da Vinci especializada em obras estrangeiras que conheci criança, levado pela minha mãe, e frequentei, ao longo da vida, até que fechasse em 2015. Um ano depois, surgiu novo estabelecimento com o mesmo nome, no mesmo local, no subsolo do prédio Marquês do Herval, na Avenida Rio Branco no Centro do Rio de Janeiro. O perfil mudou. Transformou-se em uma boa livraria de obras brasileiras e dispõe de um ótimo café. Compete, para mim, com a Livraria da Travessa de Ipanema na categoria de mais charmosa do Rio de Janeiro. Outros, eu sei, preferem a elas a Argumento.
É um mistério como La guerra del fin del mundo foi parar no alfarrabista. Tenho uma teoria a respeito, mas ela não explica tudo. Tampouco sei o motivo de eu ter comprado esse exemplar na Libri Mundi, pois já lera o romance anos antes. Igualmente estranho é o recibo, que considero um documento de caráter pessoal, ainda estar dentro do volume e ter podido ser lido por todos os que o abriram no sebo.
O recibo da Libri Mundi e A Guerra do Fim do Mundo
Lembro, para quem tiver esquecido, que La orgía perpetua não é um livro erótico, mas outra obra de Vargas Llosa, um estudo sobre Flaubert. Esse exemplar, também listado no recibo, continua a existir em nossas estantes, e posso vê-lo neste exato momento aqui em Kuala Lumpur.
Em Quito, naquele tempo, nosso programa predileto, aos domingos, era almoçar no restaurante italiano de um hotel no centro da cidade — nossa filha, então muito criança, encomendava sempre o mesmo prato, um farfalle ao salmão — e, depois, ir visitar ali perto a Libri Mundi. Como o nome indica, a livraria oferecia obras em diversos idiomas. Era como ter, em Quito, a Leonardo da Vinci de antigamente, que ainda então existia. A Libri Mundi ficava instalada em uma casa de dois ou três andares em rua bucólica. Vejo na Internet que, nessa localização, ela fechou em 2015, portanto no mesmo ano da velha Leonardo da Vinci, mas continua a existir em centros comerciais da cidade.
Rever o recibo esquecido da Libri Mundi foi como viajar no tempo. Relembrei a infância da minha filha; relembrei nossos animais de estimação, todos agora mortos, que eram felizes na casa em Quito; relembrei detalhes da vida no Equador; relembrei amigos. Saber do fechamento da sede da Libri Mundi na rua Juan León Mera doeu, como dói o fechamento de toda livraria. A verdade, contudo, é que se os humanos desaparecem, não deve surpreender que o mesmo aconteça aos lugares mágicos onde compramos livros.
Em Seis livrarias, em 2018, escrevi sobre aquelas de que mais tinha gostado no ano anterior. A primeira frase dessa minha crônica é absolutamente verdadeira: “Livrarias tendem a aparecer magicamente diante de mim”.
A lembrança da Libri Mundi, ressuscitada inocentemente por uma mensagem no Twitter, deu-me vontade de voltar a falar em livrarias. Omito aqui as lisboetas, descritas em um texto meu de 2021, Um dia em Lisboa, e aquelas de que tratei em “Seis Livrarias”. Todas as fotos foram tiradas por mim menos, naturalmente, a que revela o recibo da livraria quitenha e o romance de Vargas Llosa dentro do qual ele reside há anos.
Em sua essência, livrarias são todas parecidas, e podemos considerá-las de maneira descomplicada. São espaços onde não há suspense. No entanto, algumas se diferenciam das demais. A razão para isso é o ambiente. Entramos, e recebemos a sensação agradável que aquele espaço provoca. Pode ser por causa da arquitetura, ou da decoração, ou do espírito reinante, generoso e simpático ou, ao contrário, imponente. Às vezes o estoque também se destaca, e pode ser mais dirigido aos nossos interesses pessoais.
Há por exemplo, em Paris, uma livraria, Les Cahiers de Colette, xodó de intelectuais, que a rigor em nada se distingue de qualquer outra boa livraria da capital francesa, onde elas pululam. Dois detalhes, porém, a tornam particularmente atraente, a presença magnética no recinto da proprietária e fundadora, Colette Kerber, e um painel em que ela afixa fotografias de escritores que admira. Esses dois detalhes bastam para conceder ao local uma atmosfera única. Nas fotos abaixo, a segunda mostra o que torna Les Cahiers de Colette uma típica livraria parisiense de alta qualidade. A terceira revela um dos detalhes que a transformam em algo fora do comum.
A vitrine de Les Cahiers de ColetteLivros e mais livrosProust, Kafka, Freud, Beckett, Cortázar
Deveríamos porém iniciar pela mais nobre das livrarias, a Hatchards, em Londres, que frequento desde o final da adolescência. É tão distinta — “livreiros desde 1797” — que expõe, no patamar entre dois dos andares, um retrato a óleo de seu fundador, John Hatchard. A fachada, debruçada sobre a Piccadilly Street, apresenta três alvarás reais, de Elizabeth II, do duque de Edimburgo e daquele que era até setembro de 2022 o príncipe de Gales. Com a morte da rainha e de seu marido, e a ascensão ao trono de Carlos III, suponho que os alvarás terão de ser retirados, e um deles, o do novo rei, novamente concedido. Em julho de 2022, quando lá estivemos pela última vez, os três continuavam na fachada, embora o príncipe Philip tenha morrido em abril de 2021.
A principesca fachada da HatchardsJohn Hatchard, o fundadorMalas na seção de livros de viagemEm Piccadilly Street, sobrevivem cabines telefônicas
Perto do hotel em que minha mulher e eu ficamos hospedados em Londres, em julho, caminhando ao acaso descobri a mais charmosa das livrarias, a John Sandoe. Em um tuíte, durante a viagem, escrevi sobre ela: “a própria ideia de paraíso sereno”. É assim, elas realmente aparecem magicamente diante de mim. Entrei na John Sandoe várias vezes em julho. Era como a livraria do bairro para mim. Situada quase na esquina da agitada King’s Road, o seu silêncio, quando se entra, faz com que pareça a sólida biblioteca de uma casa no campo. Eu subia e descia pelos seus três andares. Às vezes, ficava em pé no térreo, frente às janelas, lendo algum volume retirado de uma das estantes. O verdadeiro luxo, durante uma viagem, é este: não sentir urgência em correr de museu em museu e em visitar exposições, enfrentando trânsito e multidões, mas ficar em um ambiente protegido, longe de todo burburinho, sonhando com frases escritas por outros.
Embora Machado de Assis fosse todo dia à livraria Garnier, não era essa a sua predileta. Isso mostra Brito Broca em A Vida Literária no Brasil – 1900, obra de 1956. Estima ele que Machado “não devia apreciar muito aquele recinto, onde os intelectuais se cruzavam e tropeçavam uns nos outros”, e conta que, uma vez, o escritor comentou com o gerente de outra livraria, a Quaresma, aonde também ia todo dia: “Sabe? Gosto mais da sua casa porque é silenciosa, não há aquele zunzum da Garnier”. Machado teria adorado a John Sandoe.
John Sandoe, um paraíso sereno e sem zunzum
Em viagem anterior a Londres, em setembro de 2019, eu conhecera, acredito que pela primeira vez, outra livraria famosa da cidade, a Daunt Books de Marylebone, original do que hoje é uma rede. A seção sobre o Sudeste Asiático é importante, e isso despertou minha curiosidade, já que poucos meses depois, eu sabia, estaria de mudança para Kuala Lumpur. Os vitrais e a claraboia na galeria principal fazem dela um espaço particularmente agradável.
A Daunt Books possui uma característica: é ainda, verdadeiramente, uma cadeia de livrarias independentes, cujo proprietário é até hoje seu fundador, James Daunt. Nem a Hatchards preserva mais essa qualidade, pois embora mantenha personalidade própria, pertence agora à rede Waterstones. Esta, por sua, vez, é controlada majoritariamente por uma firma de investimentos americana, proprietária também da rede, colossal, Barnes & Noble. As redes Barnes & Noble e Waterstones são presididas pelo mesmo James Daunt, que já não dirige as livrarias de que é dono.
Daunt Books, MaryleboneVitrais eduardianos O Sudeste Asiático me chamando
A maior livraria de Londres, e certamente uma das maiores do mundo, é a Foyles. Faz dez anos que ela já não ocupa o prédio onde a conheci, onde permaneceu por 90 anos, na Charing Cross Road, mas continua na mesma rua, reduto histórico de livreiros. Muitas vezes, quando estudante, perdi-me nos corredores, nos vários andares do edifício anterior. No novo prédio, o interior da Foyles é bem diferente de quando eu era adolescente. É mais nítido, mais claro, mais arrumado. Talvez, por isso, menos original. Possivelmente, a razão seja que a livraria já não é independente, mas pertence à Waterstones. Sem dúvida, eu gostava mais do prédio e do ambiente anteriores. No entanto, sempre acabo entrando no espaço atual, apesar do zunzum.
Fachada da nova Foyles, Charing Cross RoadLivros e mais livros
Charing Cross Road deve muito de sua fama como paraíso de literatos ao filme de 1987 dirigido por David Jones, 84 Charing Cross Road, estrelado por Anne Bancroft, Anthony Hopkins e Judi Dench, e inspirado em uma peça de teatro de James Roose-Evans, a qual era uma adaptação do livro de mesmo título de Helene Hanff. Esta, como o mundo inteiro hoje sabe, graças ao filme, manteve durante cerca de vinte anos uma amizade epistolar com Frank Doel, gerente da livraria de segunda mão londrina Marks & Co. Livros eram encomendados de Nova York por Helen Hanff, Frank Doel os providenciava, muitas cartas eram trocadas pelo Oceano Atlântico, e presentes também. Os dois amigos epistolares nunca se encontraram. Marks & Co já não existe, e o prédio na Charing Cross Road é hoje um McDonald’s.
Assisti à peça em Londres, na adolescência, e revi o filme faz talvez dois anos. O enredo é a celebração de como a relação entre seres humanos pode ser baseada em amor pelos livros. Essa é a minha experiência pessoal. Discutir livros, oferecer e receber livros são gestos que aproximam as pessoas.
Além da Foyles, sobrevivem algumas livrarias na rua. Há pelo menos dois bons sebos, Henry Pordes e Any Amount of Books, ao lado um do outro. Uma pequena rua transversal, de pedestres, Cecil Court, é quase que exclusivamente povoada de alfarrabistas. Ao entrar em Any Amount of Books, em julho, recebi uma surpresa e ouvi uma novidade, ao me ver face a face com um amigo livreiro malásio, Nazir Harith Fadzilah. Eu sabia que ele estava em Londres, acompanhando a mulher, mestranda na Inglaterra. Não sabia que trabalhava no sebo em Charing Cross Road. Nazir é o fundador de uma livraria encantadora, Tintabudi, em uma pequena sala em Kuala Lumpur, sobre a qual escrevi em uma Carta da Malásia, A Tinta dos Seres Bons. A surpresa, boa, foi encontrar Nazir em Any Amount of Books. A novidade, menos boa, foi saber por ele que a Tintabudi, fechada enquanto seu proprietário está na Inglaterra, já não reabrirá no mesmo endereço quando Nazir voltar à Malásia.
Duas atrações na Charing Cross RoadAny Amount of BooksHenry Pordes
Notei a ausência, nessa última viagem, de um terceiro sebo na Charing Cross Road. A Internet me informa que Francis Edwards e Quinto — duas antigas livrarias que se haviam fundido em um só estabelecimento — fecharam em 2020, por causa da Covid. Novamente separados, os dois alfarrabistas continuam a existir, embora não mais em Londres; Quinto, na verdade, agora é apenas virtual. Descubro, meio por acaso, que Francis Edwards esteve instalada, originalmente, no prédio onde hoje fica a Daunt Books original, a de Marylebone.
Fica o registro de como a fachada do local na Charing Cross Road se apresentava ao transeunte em 2019, quando a fotografei.
Triste pensar que essas vitrines já não contêm livros
Assim como Londres, Paris e Bruxelas são povoadas de livrarias irresistíveis, em cuja companhia as horas passam agradavelmente.
A maior de Bruxelas é provavelmente a Filigranes. Quando eu trabalhava na capital da Bélgica, ficar lá ouvindo o piano, selecionando livros, tomando um chocolate quente era uma boa forma, aos domingos, de passar as tardes de inverno. Menor, porém mais bonita, é a Tropismes. O nome, suponho, é homenagem à obra mais famosa da escritora Nathalie Sarraute. A livraria fica dentro das Galeries Royales, três passagens interligadas, de meados do século XIX, com teto de vidro, no centro histórico de Bruxelas. Seu estoque é particularmente valioso nas áreas de literatura e poesia francófonas e de história e outras ciências humanas.
Enobrecendo a Galeria dos Príncipes Livros e mais livrosO teto e os espelhos da Tropismes
Muitas vezes mencionei a livraria Galignani, em Paris, de passado tão ilustre que há na sua página eletrônica um opúsculo ilustrado, em francês e inglês, narrando sua história e a da família que a fundou. Existente desde os primeiros anos do século XIX, instalou-se na rue de Rivoli em meados do mesmo século. Já no início era também uma livraria, e uma editora, de livros em inglês. O espírito que reina nela é semelhante ao da Hatchards e ao da Ferin de Lisboa. Trata-se de um ambiente aristocrático, acolhedor, a anos-luz das vicissitudes e tragédias humanas. Deti-me sobre a Galignani, particularmente, em Um lugar encantado, em que comentei o guia de François Busnel, Mon Paris littéraire.
GalignaniLivros e mais livrosA porta lateral verde sempre me intriga
Um leitor, na época, referindo-se ao título que eu dera àquela crônica, perguntou-me qual era o “lugar encantado”: Paris, a rue de Richelieu, livrarias em geral, alguma específica, livros ou o guia de François Busnel? Ou se seria minha imaginação vagando por todos esses elementos? O sentido do título, a mim, parece evidente.
Além da Galignani e de Les Cahiers de Colette, em “Um lugar encantado” eu citava outra livraria entre minhas prediletas, a Delamain. Sobre a permanência de outra favorita, L´écume des pages, e os infortúnios de La Hune, talvez um dia eu escreva no futuro. Convém, aqui, fazer um comentário a respeito da Shakespeare and Company, possivelmente a mais célebre de Paris, se não do mundo.
Antes de mais nada, é preciso saber que essa não é a livraria homônima fundada e mantida por Sylvia Beach entre 1919 e 1941. Deve-se ler seu livro de memórias de 1956, intitulado naturalmente Shakespeare and Company, para entender a personalidade da autora. Obra mais encantadora nunca foi escrita. Revela uma visão do mundo espirituosa, não-conflitiva, sem dramas. Assim, pelo menos, Sylvia Beach quis passar para a posteridade. Narra com pluma leve os dissabores de sua vida. Sobre os seis meses que passou presa pelos alemães em Vittel, em 1941, diz apenas: After six months in an internment camp, I was back in Paris, but with a paper stating that I could be taken again by the German military authorities at any time they saw fit. Comenta rapidamente o fato de que a igreja presbiteriana de que seu pai era pastor, em Princeton, contava, entre os membros da congregação, com o futuro presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson. Sylvia Beach descreve de maneira vívida os muitos escritores de quem foi amiga, como Valery Larbaud, André Gide, Paul Valéry, Gertrude Stein, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Este, em suas próprias memórias dos anos passados em Paris, A Moveable Feast, incluiu um capítulo sobre a livraria. De forma pouco característica, Hemingway tem apenas elogios sobre a livreira, dizendo: No one that I ever knew was nicer to me.
Acabo de reler Shakespeare and Company, onde aprendo que Sylvia Beach also translated Barbarian in Asia by Henri Michaux. Em julho, em Paris, minha mulher e eu, depois de muito buscar, encontramos um exemplar de Un barbare en Asie na livraria L’écume des pages. Nesse livro, que procurávamos há tempos, o escritor franco-belga fala sobre sobre sua experiência da Ásia, inclusive da Península Malaia e de Singapura. Diz sobre os malaios o que penso cotidianamente em Kuala Lumpur: Il n´y a pas une chose que je n´aime en eux. Foi em Quito que li pela primeira vez um livro de Henri Michaux, comprado na Libri Mundi, que trata do período, em 1928, em que morou no Equador, e de como tomou o caminho de regresso à Europa a pé, em lombo de mula e em canoa, descendo o rio Napo e, depois, de barco, o Amazonas até Belém do Pará, de onde finalmente tomou o navio para casa. Só em canoa foram dois mil quilômetros percorridos. Em Iquitos, acorda um dia e pensa que terá ainda tout le Brésil à traverser.
E é como se tudo fizesse sentido no mundo, como se todos os pontos esparsos da minha vida se juntassem na nossa biblioteca, hoje dividida entre Kuala Lumpur e Singapura.
Nosso exemplar de Shakespeare and Company também foi comprado em Quito, em um sebo chamado Confederate Books, que ainda existe, embora hoje sob outro proprietário e em outra localização. Naquela época, situava-se em uma esquina da Juan León Mera, a rua onde ficava a Libri Mundi. De repente, lembro que aquele era um canto da cidade bem perto do meu escritório, e que às vezes, na hora do almoço, eu caminhava até lá, ia de livraria em livraria, fuçando. Abro A Moveable Feast e encontro dentro um recibo da Confederate Books, listando à mão a compra do livro do Hemingway com mais dois, um deles o Seven Gothic Tales da Isak Dinesen, que considero notável e no qual penso com frequência.
A Shakespeare and Company era na verdade um centro intelectual. Também biblioteca de empréstimo, servia de ponto de referência, de encontro, para os escritores da Lost Generation, conterrâneos de Sylvia Beach — all those pilgrims of the twenties, ela nos diz, who crossed the ocean and colonized the Left Bank of the Seine — naquela época hoje venerada, em que Paris, entre as duas Guerras Mundiais, ainda era o centro do mundo, em termos artísticos e culturais. A livreira tornou-se uma editora famosa na história da literatura ao financiar, apesar de seus escassos recursos monetários, a publicação de Ulysses de James Joyce, em 1922, quando isso não teria sido possível na Inglaterra ou nos Estados Unidos, onde o romance era considerado obsceno. Sylvia Beach idolatrava James Joyce e gerenciava sua vida, a pessoal e a profissional. Menciona apenas discretamente que o autor irlandês, quando pôde por fim publicar o livro em países anglófonos, mostrou-se ingrato com ela, financeiramente: I understood from the first that, working with or for Mr. Joyce, the pleasure was mine—an infinite pleasure: the profits were for him.
A primeira e ilustríssima Shakespeare and Company, que ficava na rue de l´Odéon, fechou em 1941. Sua história, por causa da importância que livraria e livreira tiveram, foi narrada muitas vezes. A atual usa o mesmo nome, mas em outro endereço. Situada em um dos bairros mais antigos de Paris, seu charme é inquestionável. Pouco vou lá, porém. Não sei se faz sentido, em Paris, frequentar uma livraria que vende obras exclusivamente em inglês. Talvez faça para turistas que não falam francês ou para franceses sedentos pela civilização americana. Ela exerce o papel, na capital da França, de bastião da cultura anglo-americana.
Quando lá estive pela última vez, em 2019, senti-me asfixiado. Poucos dias antes, eu havia chegado de Londres, onde dedicara boa parte de meu tempo a frequentar livrarias como a Daunt e a Hatchards. Com minha filha, eu tinha visitado na véspera, no Musée du Luxembourg, uma exposição excelente dedicada à obra de pintores ingleses do período de 1760 a 1820, L´âge d´or de la peinture anglaise. Estava, assim, saturado de anglofonia. Era agora a cultura francesa que eu buscava. Fiquei poucos minutos na Shakespeare and Company e saí.
Shakespeare and Company e os dizeres de George Whitman“all of us are angels in Paradise”
É proibido fotografar seu pitoresco interior. Tirei fotos da fachada. Os escritos nos painéis são do livreiro que fundou o novo estabelecimento, George Whitman. Como ele, considero Tolstoi e Dostoievski more real to me than my next door neighbors.
Em 2013, o escritor espanhol Jorge Carrión publicou um livro singelamente intitulado Librerías, sobre sua experiência de andar pelo mundo frequentando-as. Em algum momento, decidi comprá-lo, após ler comentários a respeito na imprensa brasileira, em especial em um artigo de Rodrigo Casarin.
Encomendei a edição espanhola, dando como local de entrega o hotel onde se hospedava o escritor Alexandre Vidal Porto, de passagem por Madri, que se dispôs a trazê-lo para mim. A encomenda atrasou e, se jamais chegou ao hotel, terá sido tarde demais para encontrar Alexandre. Meses mais tarde, fiz novo pedido e recebi o livro pelo correio em Brasília. Minha pertinácia e a dupla despesa não me renderam frutos. Logo depois, em 2020, parti para trabalhar na Malásia, minha mulher para Singapura, e o livro viajou na mudança dela. Tornou-se inacessível para mim até este ano, quando as fronteiras dos dois países foram reabertas, depois da pandemia.
Vi-o na estante em minha última ida a Singapura. Quis ver o que diz sobre a John Sandoe, o que mostra bem o quanto a livraria na rua Blacklands Terrace, a um pé da King’s Road e da Sloane Street, me impressionara em julho. O espanhol também cedeu aos seus encantos. Escreve que o interior da John Sandoe tiene todo lo que desea un fotógrafo aficionado. Contudo, avisa, ela é mais do que una imagen pintoresca, pois ese cuerpo precioso tiene alma.
O atual dono da Leonardo da Vinci, Daniel Louzada, comprou-a em 2016 de sua fundadora, Vanna Piraccini, que durante décadas foi amiga e inspiradora da intelligentsia carioca e com quem, por timidez, nunca tive coragem de conversar. Em janeiro de 2022, Vanna Piraccini morreu, aos 96 anos. Também faleceu este ano, em fevereiro, Brigitte de Meeûs, fundadora da Tropismes, aos 76. Em janeiro de 2017 já morrera José Ferreira Vicente, fundador de um de meus sebos prediletos em Lisboa, Olisipo, que desde então mudou-se para novo endereço.
Assim são as livrarias e seus criadores, mortais como nós, seus clientes, admiradores e amigos. Elas surgem, muitas prosperam, criam um impacto cultural, algumas tornam-se míticas, mudam de lugar, de proprietário, desaparecem ou parecem-nos, ilusoriamente, destinadas a durar para sempre, mas evoluem, transformam-se. Afetam nossas vidas, permitem sonhos, tornam-se nossa segunda casa. Quando uma fecha, é como um golpe no coração. Mas como um amigo querido, um parente carinhoso, em nós elas vivem para sempre. Como a Libri Mundi de Quito, no bairro La Mariscal, na rua Juan León Mera. Trazida de volta à memória, um dia em Kuala Lumpur, por uma foto casualmente recebida pelo Twitter. Voltou assim a existir.
Há algo insondável nisso tudo, pois assim é a vida.
A Livraria da Travessa de Ipanema, das mais charmosas do mundoA mesa de autores russos na Travessa
No Dia das Mães, nada mais justo do que eu celebrar a minha, Thereza Quintella, que atravessou dois oceanos, onze fusos horários, e mais de um continente para me visitar em Kuala Lumpur, entre fevereiro e abril. Depois de dois anos de pandemia, em que não pudemos ver um ao outro, pareceu algo milagroso que ela, prestes a completar 84 anos, tivesse chegado à Malásia.
Essa viagem merece registro, o que faço por meio das fotos abaixo. Formam um resumo da sua passagem de nove semanas pelo Sudeste Asiático, com o mínimo de explicações. É um registro incompleto, naturalmente. Na XV Carta da Malásia, “Além da aurora e do Ganges”, publicada há duas semanas, falei de um dia específico, 26 de março, em que fomos a uma propriedade rural paradisíaca no interior do país e depois jantamos, de volta à capital, com um amigo colecionador de vestimentas malaias tradicionais.
A visita da minha mãe coincidiu com a retomada de uma vida social normal, pós-Covid, em Kuala Lumpur. Isso me permitiu apresentar a ela muitas das pessoas com quem me dou na Malásia. Duas semanas depois da sua partida, em um almoço de trabalho onde todos os convidados a conheceram, ouvi de um deles, uma amiga malásia com quem minha mãe esteve várias vezes, em Kuala Lumpur e em Penang: “Your mother was a hit“. Isso talvez esteja refletido em uma das fotos, exemplo das matérias de imprensa que cobriram a cerimônia que fiz de condecoração de um cidadão malásio com a Ordem de Rio Branco.
A sua temporada na Malásia correspondeu também à reabertura gradual das fronteiras no Sudeste Asiático, após dois anos de fechamento. Por isso, tirei uns poucos dias de férias, em sua última semana, e fomos a Singapura visitar minha mulher.
Em dois meses, minha mãe provou várias cozinhas asiáticas. Sua primeira saída depois da quarentena foi para ir a um clube de que sou sócio, para uma refeição indiana sobre folha de bananeira. A segunda foi a um restaurante tailandês, a convite de um casal de grandes amigos que ela já conhecia do Brasil, e que logo partiriam da Malásia. Houve a seguir refeições cantonesas, malaias, japonesas, indianas, srilanquesas e peranakanesas — se este último gentílico não existe ainda em português, deveria. Refere-se aos malásios descendentes de chineses; eles criaram uma culinária própria.
Esta semana, minha mãe ofereceu, no apartamento no Rio, um almoço a amigos seus. O cardápio era totalmente do Sudeste da Ásia, com pratos que ela descobriu na Malásia e em Singapura. Maior demonstração de que gostou de vir e de estar conosco não poderia haver.
Nove semanas passam rápido. Minha mãe chegou em plena comemoração do Ano Novo Chinês, e partiu logo antes da Páscoa. Quase quatro semanas depois, voltar do trabalho à noite e não vê-la em casa ainda me causa surpresa. Durante pouco mais de dois meses, todo dia foi Dia das Mães para mim.
Primeira foto em KL, no dia da chegadaPrimeira refeição indiana em folha de bananeiraRestaurante tailandêsUm lago a caminho de Fraser´s HillO cenário idílico do almoço em Fraser´s Hill nos enganou, e pegamos uma insolaçãoUma jornalista de KL recomendou à minha mãe esta loja estilosa, em uma casa típica malaiaEm um restaurante, a vista sobre as Torres PetronasEm Malaca, no histórico assentamento português, há um Cristo Redentor. Ela quis vê-loJardim do palácio recriado dos antigos sultões de MalacaEm Malaca, o mais antigo templo chinês do paísO Museu Peranakan (ou Babanyonya) em Malaca No Museu Peranakan em MalacaSaindo na imprensaNo Ano do Tigre, o mural de um tigre em Chinatown, em KLO Museu Peranakan em PenangEm Penang, no Museu Peranakan, o templo familiar do dono original da casaTemplo do clã Khoo, em PenangMelhor livraria de Penang, Gerakbudaya (= “Ação Cultural”) Jardim Botânico em PenangA Casa Azul em Penang, cenário de filmes (“Indochine”, “Crazy Rich Asians”)No hotel em PenangNa Fundação Sutra, em KL, uma apresentação da arte cênica indiana Odissi para alguns convidadosPerto de Kl, almoço em uma propriedade rural, Sentosa (= “Tranquilidade”)Arte islâmica em SentosaNatureza em SentosaCasa tradicional malaia em SentosaTranquila em SentosaLaksa em SentosaVestimentas tradicionais malaiasInfluência chinesa nesse traje malaioPodia ser em As Mil e Uma NoitesA sombra da cítara por trás da roupaUma apresentação de Mak Yong O tocador de rebab e o tocador de cítaraGeethika é uma das estrelas da Fundação SutraDesnecessário por legendaUm domingo, café da manhã em um hotel de KLFrente ao parque desenhado por Roberto Burle Marx, um restaurante de cozinha malaiaNão podia faltar nasi lemakNo Museu de Artes Islâmicas, minha mãe também associou os bois de Mirza Babur à fazenda em MinasEm Singapura, em Kampong GlamLoja em Singapura para comprar ingredientes da culinária do Sudeste AsiáticoOlhar de mãe em Singapura No Museu Nacional em Singapura, minha mãe também gostou das fotos de Robert Zhao sobre árvores Em Singapura, neste restaurante chinês os dim sum têm forma de peixes, frutas… Um dia de restaurante indiano no Hotel Raffles
Se você quer saber mais sobre nasi lemak, o prato mais famoso da culinária malásia, leia As Cartas em Istana Negara
Se você quer saber mais sobre as fotos de Robert Zhao sobre árvores em Singapura e a relação das pessoas com elas, leia Tchekhov e os tigres
Se você quer saber mais sobre Penang, tema da primeira Carta da Malásia, leia A Ásia em Penang
Se você quer saber mais sobre o Museu de Artes Islâmicas de Kuala Lumpur, leia Os Bois de Mirza Babur
Uma das maiores atrações turísticas dos arredores de Kuala Lumpur são as Cavernas de Batu. Até chegar à Malásia, no final de janeiro de 2020, eu nunca ouvira falar nelas. Minha mulher, a caminho de Singapura, veio comigo e passou cinco dias. No fim de semana, procurei na Internet o que seria mais interessante visitarmos. As Cavernas de Batu eram recomendadas em todos os guias turísticos, pela singularidade de conterem, engastado na encosta de uma montanha, um dos maiores templos do hinduísmo fora da Índia.
Essa era a época feliz, pré-pandemia. O novo coronavírus era algo de que, mesmo no Sudeste Asiático, ouvíamos falar como uma coisa vaga, de alcance potencial ainda incerto. Sabíamos apenas que uma doença surgira na China, causada por um vírus novo. Muitos em Kuala Lumpur se perguntavam se a Malásia seria atingida, mas não se previa o grau duradouro de transtorno que todos iríamos enfrentar.
Fomos às Cavernas de Batu. Elas ficam dentro de um morro de calcário no Estado de Selangor, a apenas uns 20 minutos de carro do centro de Kuala Lumpur. “Batu” significa “pedra” em malásio. Chegando lá, descobrimos um universo bem diferente do bairro ocidentalizado onde moro na capital, o Kuala Lumpur City Center, conhecido como KLCC. Embora eu tenha estado na Índia duas vezes, todo o pressuposto cultural e religioso das Cavernas era desconhecido para mim.
A maioria dos malásios descendentes de indianos são da etnia tâmil. Os tâmeis manifestam devoção especial pelo deus da guerra do hinduísmo, Kartikeya, conhecido por vários outros nomes, inclusive Murugan. Ele é filho de Shiva e Parvati e irmão de Ganesha, o deus com cabeça de elefante. As Cavernas de Batu, juntas, formam um templo dedicado a Lord Murugan, como ele é chamado.
Lord Murugan, esperando devotos e visitantes
Quando, estudante universitário em Londres, eu fazia da National Gallery a minha segunda casa, eu gostava particularmente dos primitivos italianos, quadros do final do século XIII ao século XIV. Quase sempre, eles retratam, sobre um fundo dourado, histórias de santos, ou Madonas ou cenas da vida de Jesus. Não só nomes famosos da história da arte, como Cimabue, Duccio e Giotto faziam parte da minha experiência estética; eu me entusiasmava também com artistas excelentes mas menos celebrados, como Bernardo Daddi e Lorenzo Veneziano. Naquele tempo, eu conhecia detalhes de seus quadros de cor, e sabia exatamente onde encontrá-los no museu, e ia ao menos uma vez por semana revê-los, de tarde, depois das aulas, beneficiando-me do acesso gratuito. Hoje, com a exceção dos artistas mais conhecidos, os demais tornaram-se para mim apenas nomes vagos. Embora eu ainda me emocione ao ver suas obras em museus pelo mundo, a intimidade se perdeu. Aos 20 anos, eu teria ficado surpreso de ouvir que, um dia, eu esqueceria amigos como Barnaba da Modena (falecido em 1386) e Ugolino di Nerio (morto em 1349), que meus pensamentos já não seriam povoados pelas suas obras. Tornaram-se para mim uma referência obscura.
Naquela época, começava o auge do turismo japonês à Europa. Eu ficava me perguntando como uma pessoa de cultura oriental via e sentia aquelas pinturas que ilustravam cenas bíblicas. Ingenuamente, eu não percebia que, mesmo para um ocidental, as histórias ou lendas retratadas em obras produzidas seis ou sete séculos antes poderiam ter perdido seu sentido intelectual ou espiritual. Posso admirar esteticamente, se estiver em Londres e for à National Gallery, o quadro de Francesco da Rimini (morto em 1348) intitulado Visão da Bem-Aventurada Clara da Rimini. Não sei porém quem foi Clara da Rimini — entendo apenas que não é a famosa Santa Clara de Assis, a amiga de São Francisco — e nem que visão ela teve.
Tampouco me ocorreu prever, na inocência dos 20 anos, que, mais tarde, ao pisar no Oriente, eu lamentaria a minha ignorância das línguas, dos costumes, das religiões, da História, das literaturas dos povos asiáticos. Já aos 30 anos, na minha primeira viagem à Ásia, a uma reunião em Kyoto, eu perceberia o quanto uma cultura pode ser impermeável, quando não dominamos seus códigos. Gostar de sushi não basta para tornar alguém um experiente japonista. No fim de semana, em Kyoto, visitei os jardins de pedra, os templos; tudo admirei, mas podia admirar apenas na superfície. Fiz essa viagem com meu chefe de então, Antonio Dayrell de Lima. Ele mais tarde se tornaria um grande amigo. Foi ele, por exemplo, quem alguns anos depois me fez passar a gostar, em Paris, do Musée Guimet. Até então, eu entrava no Guimet e, da arte oriental que ele contém, notava somente a profusão de Budas, considerando-a desnecessária, sem conseguir fazer distinção entre as diferentes estátuas.
Uma tarde, em Kyoto, Antonio e eu tomamos um chá. As duas bandejas contendo recipientes de comida e as tigelas de chá verde formavam uma obra de arte. Tudo era perfeito: naquelas bandejas, reinavam a simetria, a beleza e a serenidade. A própria cor intensa e a espessura do chá verde nada tinham a ver com o que eu estava acostumado a tomar no Brasil. Comentei com ele: “Como é possível tanta perfeição, tanta beleza em uma bandeja de comida?”. Meu então chefe, uma das pessoas mais inteligentes e irônicas que já conheci, respondeu, meditativamente mas ao mesmo tempo achando graça: “A ideia agora é você se compenetrar do fato de que toda essa harmonia será desfeita assim que você começar a comer ou a tomar o chá. A perspectiva de desfazer essa harmonia deveria provocar tristeza em você”.
Nas Cavernas de Batu, há beleza, mas não há harmonia ou serenidade. É outra cultura que a japonesa. A 20 minutos do centro de Kuala Lumpur, que lembra São Paulo, vê-se, respira-se a intensidade das cores, dos cheiros da Índia. Era como se minha mulher e eu tivéssemos tomado um avião, em vez de um carro, e viajado ao subcontinente indiano. Não há nada mais exuberante do que um templo hindu, pela profusão de estátuas multicoloridas.
Sobe-se à primeira e mais importante caverna por uma escadaria de concreto, com os 272 degraus de diferentes cores. No começo da subida, há uma estátua gigantesca de Lord Murugan, de quase 43 metros, pintada de dourado.
Eu sofro, desde a infância, de vertigem. A ideia de escalar uma montanha, mesmo por meio de degraus, é sempre problemática para mim. A ida é fácil. A volta, bem menos. Mas esse era um problema para mais tarde. Minha mulher e eu fomos subindo, animadamente.
É tudo bastante pitoresco. Há bandos de macacos ao longo dos degraus, e nos corrimões. Pertencem à espécie Macaca fascicularis, nomeada assim pelo administrador colonial inglês Sir Thomas Stamford Raffles, sobre quem já falei na segunda Carta da Malásia, Juru Damang, o Elefante Real. A presença do público nos degraus e dentro das cavernas não incomoda o macaco-caranguejeiro, como ele é conhecido em português.
Um macaco-caranguejeiroUma vocação teatral
A combinação dos degraus coloridos, da profusão de macacos, da beleza da montanha arborizada, mas onde o calcário é visível, da perspectiva de entrar em um templo dentro de cavernas, da lembrança da estátua colossal lá embaixo, tornam a subida uma experiência extraordinária.
Chegando à primeira caverna, que é a principal, ficamos nos perguntando se valeria a pena subir mais. As seguintes, imaginamos, seriam mais escuras e opressivas. Depois de alguns minutos, fui sozinho à segunda caverna, que me pareceu, de fato, mais inquietante do que a primeira. Havia urina no chão, o cheiro era forte. O problema maior, porém, era outro. Talvez este seja um bom momento para revelar que, além de vertigem, eu sofro de claustrofobia. Desci as escadas e juntei-me rapidamente à minha mulher na primeira caverna.
A segunda caverna
Ao iniciar a descida, vi, ao longe, a silhueta dos arranha-céus de Kuala Lumpur. Depois, concentrei-me nos degraus, evitando olhar para o horizonte ou para muito abaixo na escadaria.
Duas semanas depois, no início de fevereiro, aconteceu o Festival de Thaipusam, que comemora a ocasião em que Parvati presenteia a seu filho Murugan uma lança para derrotar um demônio. Na região metropolitana de Kuala Lumpur, é nas Cavernas de Batu que o Festival é comemorado, durante todo um fim de semana. Fui no sábado à tarde, a convite dos administradores do templo.
Ao chegar, fiquei impressionado com a multidão. Era um cenário bem diferente do que eu vira duas semanas antes, quando havia umas poucas centenas de visitantes nas Cavernas, na escadaria ou no solo. O Thaipusam concentrara não só boa parte da população de origem tâmil da capital, como milhares dos turistas estrangeiros de passagem por Kuala Lumpur. Parecia que o centro do mundo era ali. Disseram-me meus anfitriões que, todo ano, durante o fim de semana, centenas de milhares de pessoas participam do Festival. Julguei estarem todas ali naquele momento.
Muitos participantes do Festival vão às Cavernas de Batu caminhando em procissões, vestidos de amarelo, e fazem a ascensão ao templo nas cavernas carregando potes de leite na cabeça, como oferenda. Outros carregam na cabeça adereços pesados, presos por estacas ao corpo, aos lábios ou à língua, às vezes por meio de perfurações. Ver isso é penoso, e devemos então imaginar quão doloroso será praticar essa auto-mortificação. Os adereços frequentemente são adornados com plumas de pavão, animal associado a Murugan. Os devotos em estado de auto-mortificação chegam ao local exaustos, quase frenéticos de tão cansados, depois de caminhar quilômetros carregando os adereços. Precisam, às vezes, parar e descansar, antes de enfrentar as escadarias. Vêm acompanhados de músicos, cujos instrumentos emitem sons extremamente parecidos com uma batucada. Alguns carregam seus adereços acompanhando o ritmo da música, como se estivessem dançando. Enquanto isso, seguem em direção às escadarias as procissões dos portadores de leite, homens e mulheres, com túnicas em diferentes tons de amarelo, serenos, monásticos, dando a impressão de pertencer a uma religiosidade diferente da dos homens de torso nu, agitados, carregando as armações na cabeça.
Mais tarde, ao entardecer, tendo voltado para casa, coloquei fotos e vídeos do Festival nas redes sociais. Amigos brasileiros comentaram que parecia Carnaval. Queriam dizer que as cenas lembravam o nosso Carnaval de rua, com seus blocos, a música, a forte concentração humana, o clima de celebração. O Thaipusam, porém, é uma manifestação de espírito religioso, um ato de devoção, o que não é o caso do Carnaval.
Normalmente, evito multidões. Mas assim como, se estou no Rio no Carnaval, saio com a Banda de Ipanema; assim como, se estou no Rio no réveillon, vou à areia de Copacabana; ou, se estou em Paris, em qualquer momento, faço fila para entrar no Louvre; e também em Roma, para revisitar a Basílica de São Pedro, senti contentamento pleno de estar ali, aos pés da estátua colossal de Lord Murugan. Uma realidade nova, misteriosa, até então impossível de imaginar revelava-se aos meus olhos e aos meus ouvidos. Nada ao meu redor era banal. Por mais que eu estudasse aqueles costumes, aquela religião, aquele cenário, muito ficaria para sempre impermeável à minha compreensão.
Nesse dia, não subi ao templo dedicado a Lord Murugan. Pensei que haveria acotovelamento na escadaria e dentro das cavernas. Lembrei também que convinha deixar o espaço apertado para os devotos. Aquele era um dos dias mais importantes do ano para eles. Aproveitei para visitar, o que não pudera fazer na vez anterior, templos ao nível do solo, que homenageiam outras divindades do hinduísmo.
Depois, arrependi-me. Imaginei que o interior das cavernas, amontoado de pessoas fazendo suas devoções e suas oferendas, permitiria observações importantes. Reduziria, talvez, a distância cultural. Prometi a mim mesmo que, no Thaipusam de 2021, eu iria às cavernas.
Na volta a Kuala Lumpur, ao me despedir do jovem colega que fora ao Festival comigo, recomendei-lhe: “Lembra, ao entrar em casa, antes de ir brincar com teus filhos, de lavar as mãos primeiro”. Em apenas duas semanas, a consciência da pandemia se tornara profunda na Malásia. Em um mês, o primeiro confinamento começaria.
Ninguém sabia ainda mas, em 2021, o Thaipusam não seria comemorado. Não pude mais voltar às cavernas.
Esta XII Carta da Malásia foi primeiro publicada, em 21 de agosto de 2021, na revista de cultura, artes e ideias Estado da Arte
Em outubro de 2016, fui à Índia pela primeira vez, a trabalho. A reunião principal era em Goa, mas eu precisava depois ir a Nova Delhi, para um compromisso com a chancelaria indiana. Terminado o encontro, sobravam pouco mais de 24 horas antes do voo que daria início à minha longa volta para o Brasil.
Estar na Índia era fascinante. Ficar no quarto descansando, portanto, não era uma opção. Decidi que havia duas possibilidades: conhecer Nova Delhi ou ir a Agra visitar o Taj Mahal. Optei por Agra.
Escrevi sobre Goa em Os Bragança de Chandor, Goa, India. Em retrospecto, é surpreendente que eu até hoje não tenha narrado a ida ao monumento mais famoso da Índia, e certamente um dos mais celebrados do mundo. Devo supor que temi cair no lugar comum. Como dizer algo original sobre um monumento tão célebre, do qual todo mundo já viu fotos, sobre o qual todos têm uma opinião? No Brasil, é o Cristo Redentor; nos Estados Unidos, a Estátua da Liberdade; na França, a Torre Eiffel; na Itália, o Coliseu; na Inglaterra, o Big Ben; na Rússia, a Catedral de São Basílio. Na Índia, é o Taj Mahal. Poucos países têm a sorte de possuir um monumento que os represente visualmente, reconhecido em toda parte como seu símbolo.
Convidei Laura, uma prima de Juiz de Fora que na época morava em Nova Delhi, para ir a Agra comigo. Ela tudo organizou. Contratou um motorista, em meu nome, por intermédio de uma agência de turismo; ele nos apanhou de madrugada em seu carro. Veio conosco, também, um hóspede de Laura, que por acaso fora meu aluno no Instituto Rio Branco.
Eu tinha uma preocupação. Sonolento, vitimado ainda pelo jet lag da viagem que eu fizera poucos dias antes de Brasília a Goa em classe econômica, fui especulando, durante o trajeto de pouco mais de 200 quilômetros de autoestrada, se eu não ficaria decepcionado. Parecia inevitável. Tendo crescido vendo fotos do Taj Mahal, eu só poderia sentir desilusão ao conhecê-lo ao vivo.
Laura planejara um café da manhã indiano em um hotel perto do monumento. Do terraço, tem-se uma vista espetacular sobre o Taj Mahal. Depois da refeição pegamos, na porta do hotel, um trenzinho à disposição dos hóspedes que leva até o portão de acesso ao complexo do mausoléu.
A expectativa de que eu me decepcionaria foi frustrada; raras vezes senti um impacto tão grande. O Taj Mahal é muito mais impressionante ao vivo.
Cecília Meireles, que visitou o país em 1953, incluiu em Poemas Escritos na Índia, publicado no mesmo ano, o poema Taj Mahal, sem medo de narrar sua reação ao monumento. Há nos versos muitas imagens difíceis de esquecer, mas talvez minha predileta seja: “Vêm morrer castamente os bogaris sobre os túmulos”, com seu vago eco de Racine. Na galeria de fotos, cito alguns outros de seus versos.
Como o mundo inteiro sabe, o mausoléu em mármore branco, construído entre 1632 e 1653, à beira do sagrado rio Yamuna, por ordem do quinto soberano do Império Mogol, Xá Jahan, abriga a tumba de sua mulher predileta, Mumtaz Mahal. Em Vislumbres de la India, Octavio Paz apenas menciona o mausoléu. Fala muito mais de seu hotel em Mumbai, chamado Taj Mahal, sobre o qual, entre outras coisas, diz: “Es real y es quimérico, es ostentoso y es cómodo, es cursi y es sublime“. Terá o poeta, ao contrário de Cecília Meireles, sentido a mesmo inibição que eu, evitado descrever um monumento conhecido universalmente? Sobre o reinado de Xá Jahan, Octavio Paz menciona que “Fue un período de esplendor artístico. Sus últimos años fueron de pena y desolación”, em grande parte por causa da perda de Mumtaz Mahal.
A origem do monumento lhe confere uma aura romântica. Noivos se fazem fotografar frente a ele. Em fevereiro de 1992, os príncipes de Gales, ainda casados, visitaram a Índia. Somente Diana foi a Agra, enquanto Charles cumpria compromisso em outra cidade. A foto da princesa sentada sozinha frente ao que é visto como uma celebração do amor pareceu confirmar uma irremediável crise conjugal. Em dezembro do mesmo ano, o casal anunciaria sua separação.
Xá Jahan foi deposto em 1658 por um dos filhos que tivera com Mumtaz Mahal, Aurangzeb. A partir daí viveu prisioneiro no Forte de Agra, onde morreu em 1666. Foi enterrado no Taj Mahal, junto a Mumtaz Mahal. O forte, que é na verdade, por trás de suas muralhas, uma sucessão de palácios, fornece vistas belíssimas sobre o Taj Mahal.
“Mahal” significa “palácio”. Muntaz Mahal quer dizer “a glória — ou a jóia ou a primeira — do palácio”. O sentido de Taj é “coroa”.
Com exceção de Octavio Paz, todos os livros da biblioteca familiar sobre a Índia estão em Singapura. Muitos foram comprados em Agra. Após a visita ao mausoléu e ao forte, voltamos ao hotel, para um lanche antes do regresso de carro a Nova Delhi. Havia ali uma pequena e elegante livraria. Descobri assim haver na Índia editoras que reproduzem clássicos, e não apenas indianos, em fac-símile, com encadernação de couro. Foi uma festa para mim. Comprei livros de autores contemporâneos sobre a Índia e, nas edições em couro, obras de Nehru e Gandhi.
Este ano, em Kuala Lumpur, consegui encomendar da Índia um volume português de 1907, intitulado Memórias Literárias, de um autor chamado Sanches de Frias. Eu sabia que, no capítulo sobre o cunhado de Machado de Assis, o poeta Faustino Xavier de Novaes, ele falava em meu trisavô, Francisco José Corrêa Quintella, o qual, por meio de cartas enviadas do Rio, foi sua fonte principal. Há anos eu vinha procurando algum exemplar junto aos alfarrabistas lisboetas. Pelos meandros habituais à vida, a ida ao Taj Mahal, por causa da descoberta que eu fizera dessas edições na livraria do hotel, permitiu-me, quatro anos depois, entender um pouco mais a personalidade do meu trisavô.
Ao voltar a Nova Delhi, já de noite, pude apenas, antes de ir para o aeroporto, tomar banho, mudar de roupa e fazer a mala. Não sentia cansaço algum.
No primeiro dos três voos que me levariam a Brasília, fui pensando na imensidão do que acabara de me acontecer. Eu estivera no Taj Mahal. Tocara o seu mármore. Entrara no mausoléu. Andara pelos prédios secundários. Vira o Yamuna correndo entre os campos e as árvores. Passeara pelos jardins. Comprara livros.
Sonhara.
Este ensaio é um presente de aniversário para Cora Rónai, afilhada de Cecília Meireles
Chegando a AgraFachada antiga em AgraPrimeira vista sobre o Taj MahalA piscina do hotel, indiferente ao Taj MahalPortão principal, o DarwazaDo Darwaza, vista sobre o monumentoNo interior do DarwazaA beleza da geometria no DarwazaVista desimpedida sobre o monumentoTão à vontade, que fiquei na dúvida se eram noivos ou modelosO Taj Mahal visto da sombra das árvores“Fantasmas de magnólias, as cúpulas brancas”, descreve Cecília Meireles“Longo sono sob mil arcos”, diz Cecília Meireles, “da rainha adorada”Branco contra azulO domo principalDentro do mausoléu“lírios de turquesa e calcedônia pelas paredes” A “fuga das rendas de alabastro”A luz revelando detalhes da decoraçãoA fachada posterior“Movem-se apenas sedas”Simples, e eleganteSó o mausoléu é revestido de mármoreO afluente do Ganges, o Yamuna, “essa vencida espada d´água”Foi “uma flor que desabrochou?”, indagou-se Cecília MeirelesO contraste do mármore e da pedra vermelhaPegando condução para ir ao Forte de AgraPrimeiro portão do ForteSegundo portão do ForteRiqueza de detalhes no Forte de AgraO Forte de Agra é bem mais do que uma fortalezaUm dos palácios no ForteO Taj Mahal além das muralhas do ForteO Tal Mahal ao longe, visto do Forte, como Xá Jahan o via Saindo de AgraAnos depois, uma consequência da ida a Agra
Dou início hoje à publicação de álbuns de fotos que tirei, em anos anteriores, durante viagens a lugares que, por causa da pandemia, não posso por enquanto revisitar.
Começo com Aix-en-Provence.
Em Roma não está mais em Roma, ano passado, eu falava muito mais em Aix do que em Roma. A capital italiana só aparecia na citação de um verso de Corneille, que dava origem ao título da crônica.
Eu mencionava, no texto, não poder ir ao Festival de Ópera de Aix, o qual, de qualquer forma, tivera de ser cancelado por causa da COVID-19. A Malásia estava então, e está novamente agora, em confinamento total. Meu objetivo era procurar aceitar filosoficamente o isolamento criado pelo confinamento, que me impede de ver a minha família e de viajar a alguns lugares de que gosto. Aparentemente, toquei em um ponto sensível para muitos: Roma não está mais em Roma tornou-se o meu texto mais lido.
Em 2021, o Festival de Aix está acontecendo, neste exato momento. Não é certo que eu teria estado lá, se a pandemia nunca tivesse existido. Mas é certo que a pandemia transformou as viagens internacionais em um contratempo, se não, muitas vezes, em uma impossibilidade.
A primeira vez que fui ao Festival foi em 2008, com minha mulher e minha filha. Na noite da chegada à cidade, assistimos à produção de Abbas Kiarostami para Così fan Tutte. Foi inesquecível. Desde então, associo a imagem do cineasta à de Mozart e à de Aix.
Em um texto autobiográfico publicado em 1987, o historiador Georges Duby escreveu sobre a cidade: “Em que terreno mais fértil poderia eu perseguir minha caça à felicidade?”. Aix-en-Provence em julho, durante o Festival, é para mim um lugar feito para a felicidade.
As fotografias abaixo foram tiradas em dois anos diferentes, 2014 e 2017.
Digam o que acham.
Proximamente, prepararei um álbum sobre algum outro lugar.
Até breve!
Vista do Cours Mirabeau, rua principalCena de rua, pré-pandemiaFonte dos Quatro GolfinhosVendo a vida passar no Cours MirabeauO Bom Rei René, Conde de Provença, morto em 1480No colégio Mignet estudaram, juntos, Cézanne e ZolaPlace AlbertasFonte com musgo, Cours MirabeauSala dos Giacometti no Musée GranetA feira, multicoloridaE por que não outra foto da feira?Pavillon Vendôme, do século XVIISaindo da Ópera, Cours MirabeauAteliê de CézanneAcessórios de Cézanne em seu ateliê Aix não seria Aix sem a Montagne Sainte-Victoire
P.S: Em julho de 2022, minha mulher e eu voltamos a Aix, para o Festival. A magia continuava intacta.
Como Titina mora em Lisboa há muitos e muitos anos, visitá-la não é para mim tão fácil ou corriqueiro, mas o resultado é que a cidade está sempre presente na minha imaginação. Ir a Lisboa ver minha irmã nunca foi, por outro lado, um sacrifício, pois gosto muito de estar lá. A cidade se tornou, de uns anos para cá, um centro artístico e gastronômico. A cada visita percebo diferenças que fazem dela um destino sempre mais atraente. Devo supor que as motivações dos turistas e dos residentes estrangeiros são iguais às minhas: o clima ameno no inverno, o charme de seus bairros históricos, a segurança nas ruas e a sensação transmitida de que a vida pode ser fácil e ensolarada. Um passeio simples pelas ruas do Chiado, do Bairro Alto, da Alfama, da Mouraria e de tantos outros bairros já basta para nos fazer sentir a delícia de estar vivo.
Fator adicional, para mim, é a excelência das livrarias. Um dia ideal, em Lisboa, inclui visitar as minhas prediletas.
Na minha primeira viagem a Portugal, aos 19 anos, adotei a Bertrand. Como eu quase sempre me hospedo no Chiado, ela me serve como uma mistura de livraria e de espaço prático para fazer uma pausa do sol, do calor, do frio, da agitação; para entrar, isolar-me do mundo por alguns minutos em um ambiente conhecido, seguro, e voltar a sair, com renovado entusiasmo. Na sala principal, a primeira, passei já muitas horas da minha vida. Mais adiante, a cavernosa enfileirada de arcos sugere a promessa de tesouros a serem descobertos. Mesmo uma livraria fundada em 1732 e instalada em 1773 no local atual, na Rua Garrett, pode nos reservar surpresas. Em 2017, descobri que os sucessivos ambientes desembocam agora em um café, com um mural representando Fernando Pessoa.
Saindo da Bertrand, se desço a Rua Garrett e viro à direita na Rua Nova do Almada, chego à Livraria Ferin, a segunda mais antiga da capital. Esse é, por excelência, um lugar elegante, e me lembra duas de minhas livrarias preferidas, a Galignani em Paris e a Hatchards em Londres. O ambiente é acolhedor, e a oferta de livros, inclusive franceses, é sempre interessante, particularmente na área de história. Minha única queixa não é culpa da livraria: é que sonho, até hoje inutilmente, em conseguir fotografar sua fachada sem carros estacionados em frente. Já me aconteceu de ficar longos momentos na calçada oposta, celular à mão, esperando poder captar um momento em que a rua estivesse despejada. Já me aconteceu também de pensar, nessas horas, que os funcionários da Ferin, se me notaram alguma vez, pela vitrine, parado na rua, olhando insistentemente em direção ao prédio, devem ter estranhado ou mesmo ficado preocupados. A rigor, a fachada da livraria em nada se diferencia, arquitetonicamente, das demais nessa rua pombalina. É bem mais sóbria do que a da Bertrand com seus azulejos azuis. Mas algo ali me atrai, talvez o que sei do ambiente atrás da porta; ou talvez a forma arqueada como a palavra “Librairie” é gravada, na pedra do lado esquerdo da porta, sobre o resto da inscrição, “de A. Ferin”. No pilar do outro lado da porta está gravado “Atelier de reliure”, com a palavra “Atelier” também arqueada.
Sempre frustrado na minha tentativa de fotografar a fachada da Ferin sem carros estacionados diante dela, retomo meu passeio.
A concentração de livrarias nessa área de Lisboa, na verdade, é impressionante, pois logo ali, ao lado da Ferin, nos Armazéns do Chiado, está a moderna FNAC. E se eu voltar à Rua Garrett e subi-la, um ou dois quarteirões depois da Bertrand encontro a Sá da Costa, que deve ser o maior receptáculo de livros de segunda mão que conheço, depois da Strand em Nova York. Um dos charmes de Lisboa são os vários sebos que podem ser visitados confortavelmente em um passeio a pé. Caminha-se vendo apenas ruas harmoniosas, fachadas do século XVIII, e entra-se aqui ou ali em um alfarrabista. A Sá da Costa lembra vagamente um daqueles lugares de Bruxelas que aparecem nos álbuns do Tintin, misteriosos, mágicos. Feira da Ladra ou casa de algum antropólogo ancião, sentimos ao entrar que lá terá início uma aventura. Além dos livros, há por ali, espalhados pelas vitrines ou pelas salas, estátuas de madeira, porcelanas antigas, globos terrestres e mapas emoldurados nas paredes, inclusive um representando, na Antiguidade, o que hoje é o Oriente Médio.
Saindo da Sá da Costa e andando até a Praça Luís de Camões, posso tomar a Rua da Misericórdia, onde grandes felicidades me esperam.
A primeira livraria a aparecer é a Bizantina. Na última vez em que lá estive, fiquei maravilhado, porque vi em uma prateleira a primeira edição inglesa de Justine, de Lawrence Durrell, que tenho em casa. Há muitos anos, retirei da estante de meu pai, no Rio, o seu exemplar e nunca o devolvi. Nem gosto particularmente do romance, mas há algo de lúdico no volume: a grossura e o cheiro do papel, a textura da capa. Sobretudo, há a minha constante ingenuidade de achar surpreendente ver em um sebo edições que já possuo. Nunca falha, sempre fico feliz quando isso acontece.
Em 2018, considerei algo extraordinário encontrar na Livraria Antiquária do Calhariz a edição em cinco tomos dos Sermões do Padre António Vieira pela Lello & Irmão, que minha mulher tem desde sempre. Chega a ser engraçado, eu me encantar de ver em um alfarrabista lisboeta a edição clássica e famosa, mas não muito antiga — é de 1959 — de um grande autor português, publicada por uma casa editorial portuguesa.
Poucos metros depois da Bizantina, no Largo Trindade Coelho, esteve até 2020 a Olisipo, onde, ao longo dos anos, comprei vários livros. Seu interior era sedutor. O ambiente era arejado, entrava a luz do sol e eles vendiam também gravuras e mapas antigos. Algumas encadernações eram estupendas. Na última vez em que lá estive, em julho de 2017, senti falta da presença do proprietário e fundador, José Ferreira Vicente, que nunca, anteriormente, eu deixara de ver. Descobri depois que ele morrera em janeiro daquele ano. Era um homem educado. Quando estou sozinho, costumo ficar mergulhado nos meus pensamentos; por isso, creio nunca termos trocado palavras muito distintas de “boa tarde” e “obrigado”. Sinto seu desaparecimento, no entanto, como o de uma presença bem familiar, de que sentirei falta. A Olisipo mudou-se para outro endereço. Não sei quando poderei voltar a Lisboa e ver como ficou instalada a livraria, agora na Avenida Infante Santo. O antigo espaço ficará para sempre gravado em mim.
Pouco depois do Largo Trindade Coelho, chega-se ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, com a sua vista famosa sobre Lisboa, o Castelo de São Jorge e o Tejo ao fundo. Essa e outras vistas sempre me fazem pensar em um melancólico e marcante filme de 1983 de Alain Tanner, A Cidade Branca, em que Bruno Ganz faz o papel de um marinheiro suíço desembarcado em Lisboa. Na vida real, as portas e as fachadas coloridas ou azulejadas de alguns bairros, como o Chiado e o Bairro Alto, dão uma visão bem diferente, a de uma cidade cálida, vibrante e receptiva aos viajantes.
Em um dia de férias típico meu em Lisboa, a esta altura terei já comprado vários livros e irei adiante até o Jardim do Príncipe Real, para lê-los sentado em um banco sob o sol.
Em 2019, pude passar apenas vinte e quatro horas em Lisboa. Meu roteiro habitual de visitas a livreiros não pôde ser cumprido. Além da Bertrand e da Ferin, onde entrei somente para ver as novidades, respirar o ambiente, ter certeza de que essas duas velhas amigas estavam bem — preocupação inútil, pois elas seguirão existindo quando eu desaparecer — estive em um sebo apenas.
Existe, na Rua de O Século, um alfarrabista que ocupa dois espaços pequenos. Sei hoje que ele se chama Alexandria, mas só em 2019 notei haver placa discreta com o nome. Nos anos anteriores, podia-se passar pela rua, aliás bem tranquila, sem perceber haver naquele ponto uma livraria. Se minha irmã não fosse freguesa, nunca eu a teria descoberto. É um lugar especial, sobre o qual já escrevi anteriormente, em uma crônica de 2018, O Embrulho Vermelho, cujo fio condutor é justamente um livro que Titina lá comprou, naquele ano, para me dar de presente. O sebo é forte nas áreas de história, inclusive do Brasil, e de arte. O nome da rua me intrigava muito, e eu a incluía entre os muitos logradouros lisboetas cuja denominação me soa poética, como Travessa da Água-da-Flor, Travessa da Boa Hora, Travessa da Espera, Rua da Horta Seca e Rua das Flores, que faz pensar imediatamente em Eça de Queiroz. Um dia, descobri não haver nenhuma intenção metafísica no nome O Século. Trata-se, na verdade, de homenagem a um jornal republicano, fundado ainda sob a monarquia.
Na Alexandria, o livreiro é prestativo, mas discreto. Deixa-me à vontade, no espaço pequeno. Os preços são honestos. Uma vez, quis mostrar o sebo a um primo português, o escritor e biógrafo José Norton. Este me convenceu a comprar uma edição barata e surrada, em três volumes pequenos, vermelhos, de capa dura, dos Mistérios de Lisboa. Devo assim a ele meu primeiro contato com Camilo Castelo Branco. Em 2018, vi empilhados no chão 8 dos 21 volumes da correspondência de Proust editada por Philip Kolb. Fiquei tentado. Não os comprei. Nas minhas 24 horas lisboetas em setembro de 2019, voltei lá para sondar se os volumes tinham sido vendidos. De fato, tinham. Arrependi-me bastante.
Em 2020, com as fronteiras da Malásia fechadas por causa da pandemia, não visitei minha irmã. Pelo que já pude ver de 2021, neste mês de janeiro tão parecido com o ano passado, parece improvável que eu consiga consiga vê-la antes de 2022. Pergunto-me se a feira de livros ao ar livre, aos sábados, na Rua Anchieta — com as mesas do lado esquerdo, nos primeiros metros da calçada, colocadas ao longo dos azulejos da Bertrand — tem acontecido, nestes tempos atípicos para todos. Poderia perguntar à Titina. Mas há algo lúdico em permanecer na dúvida. Prefiro sonhar com os livros expostos na calçada, em pleno Chiado. Esperam a minha volta, quando passarei novamente pela Rua Anchieta, transformada todo sábado em um corredor de deleites. Esperam seduzir-me.
Versão atualizada de texto primeiro publicado na revista literária Pessoa, em 19 de outubro de 2020
Existe em Veneza uma placa de pedra, colada na parede de uma casa de cor ocre situada ao lado de uma pequena ponte. Sempre que passeio sem rumo pela cidade, em algum momento vejo a placa, em geral quando menos espero. Há momentos em que a procuro, não encontro a ponte de onde poderia vê-la, desisto e, no dia seguinte, por acaso, passo por ela. A cada vez, é a mesma surpresa. Fico sem entender que caminhos circulares me levaram até ali.
A placa comemora a estada de Mozart naquela casa por um mês, em 1771, quando ele tinha quinze anos. Leopold, seu pai, o acompanhava, mas é ignorado nos dizeres na pedra. Quando minha mulher e eu estivemos em Veneza pela última vez, em setembro de 2019, a placa estava decorada com uma guirlanda de folhas secas, e assim eu a fotografei. Parecia uma janela barroca.
O texto transmite justamente aquilo que, desde minha leitura das Memórias de Casanova, na adolescência, associo ao espírito veneziano do século XVIII. Caracteriza a cidade como sendo a de Vivaldi e Goldoni. Diz que Mozart, “il fanciullo salisburghese”, passou em Veneza, de forma festiva — “festevolmente” — o carnaval daquele ano. Só de ler essas palavras, os olhos comunicam à alma uma sensação de leveza.
Como todos nós, eu jamais poderia ter previsto naquele dia de setembro em Veneza, há mais de um ano, enquanto atravessava a ponte e fotografava a placa, que uma pandemia surgiria pouco tempo depois. Os meses imediatamente anteriores a fevereiro de 2020 parecem-me, hoje, mais inocentes do que até mesmo os anos da minha primeira infância. Revestem-se de uma aura de alegria, liberdade e despreocupação. Isso é, naturalmente, apenas uma fantasia post facto, mas demonstra o impacto causado pela Covid-19.
À medida que a pandemia se eterniza, a atitude filosófica com que eu a encaro parece-me mais e mais estoica. Fiquei quase dez meses sem ver minha mulher; são já onze sem ver minha filha ou minha mãe. No meio do caminho, em julho, minha tia, também madrinha de batismo, morreu de Covid-19. Inúmeros amigos contraíram o vírus mas sobreviveram. A vida cotidiana mudou para todos.
Em maio, mergulhado no confinamento compulsório na Malásia, afirmei em Roma não está mais em Romaque, no meio do isolamento social, não precisamos ficar tristes pela saudade de amigos, de nossa família ou de lugares, pois eles estão em nós e nos acompanham aonde vamos. Quase oito meses transcorreram desde então. As fronteiras da Malásia, de Singapura e da União Europeia continuam fechadas, o vírus segue presente entre nós; as festas de final de ano fazem ver que 2020 termina, e as reuniões familiares estão ainda prejudicadas.
Durante o confinamento na Malásia, entre março e maio, uma válvula de escape foram as transmissões gratuitas pela Internet de espetáculos gravados meses ou anos antes, por diferentes teatros, companhias ou orquestras. Avaliei em Cleópatra no Escritório que, por mais lúdico que fosse para o público acessar essas transmissões, para os intérpretes a pandemia criava uma situação insustentável a longo prazo. Por razões financeiras, e também porque o artista precisa de plateia tanto quanto de ar.
De meu conhecimento, apenas a Metropolitan Opera continua transmitindo gratuitamente, de forma regular, alguns de seus espetáculos. A mesma produção de Don Pasquale já passou ao menos três vezes desde março. Essa é uma ópera que me acompanha desde os vinte anos. Não há tédio e tensão que sobrevivam às risadas que ela provoca. Gosto infinitamente do libreto e da música. Endosso o comentário de Zito Batista Filho, em seu livro A Ópera: “Tudo termina bem, como convém a uma ópera bufa que é, aliás, uma das mais belas em seu gênero”.
Quantas vezes, porém, pode um admirador de Donizetti assistir à mesma produção de Don Pasquale, ainda que excelente, e ver Anna Netrebko no papel de Norina, no mesmo cenário, com as mesmas roupas, na mesma gravação? Netrebko esteve hospitalizada, em setembro, com Covid-19, mas li que se recuperou bem. Ela pode voltar a cantar nas casas de ópera da Europa que venham a reabrir ou novamente fechar em função dos meandros da pandemia. Já a Met Opera permanecerá ociosa até setembro de 2021, e não paga desde abril aos seus músicos — ao menos um dos quais morreu de Covid-19 logo no início da pandemia. Um dos parceiros de Anna Netrebko em Don Pasquale, o barítono polonês Mariusz Kwiecien, anunciou, também em setembro, que, embora ainda jovem, já não cantaria nos palcos, por um problema de coluna. No mundo eternizado dos vídeos da Metropolitan, porém, nada mudou. A orquestra está intacta. Donizetti nos encanta. Anna, no papel de Norina, e Mariusz, no de Dr. Malatesta, estão saudáveis, e ela se casa em todas as transmissões com Ernesto, personificado pelo tenor Matthew Polenzani.
No futuro, haverá análises acadêmicas sobre como a repetição incessante pela Met Opera, ao longo de 2020, das mesmas gravações de algumas de suas produções terá influenciado a estética teatral no mundo. Em setembro de 2019, em Covent Garden, assisti a uma estupenda produção de Agrippina, de Handel, com Joyce DiDonato no papel-título, como mencionei em O Delacroix de Chelsea. Uma das últimas apresentações pela Metropolitan, em março de 2020, antes de seu fechamento, foi justamente a de outra produção da mesmíssima Agrippina, com a mesmíssima Joyce DiDonato. A montagem do Lincoln Center já foi transmitida duas vezes nas últimas semanas e, a esta altura, virou minha referência, suplantando a de Covent Garden, embora esta talvez fosse melhor.
Nunca pensei que teria a sorte de assistir a Nixon in China, que meu amigo Hélio Ramos sempre me recomendara. John Adams, como compositor, e Alice Goodman, como libretista, conseguem a façanha de tornar interessante uma ópera contemporânea (1987) sobre um tema de política externa — que é agora também, tantos anos depois do evento descrito, um tema de história diplomática. É uma obra artística que talvez estimule o estudo das relações internacionais. Duas noites, ao longo dos meses de pandemia, pude ver e ouvir a soprano Janis Kelly cantar a ária This is prophetic, em que Pat Nixon, em Beijing, prevê um mundo mais simples e portanto, nessa visão, mais feliz:
and everywhere the simple virtues root and branch and leaf and flower.
Uma ópera que não morava no meu coração é Idomeneo. Não guardo lembrança alguma da única vez em que a vi no palco, em Bruxelas, há dez anos. Assistir no computador duas vezes, em pouco tempo, à produção da Met Opera deixou-me agora entusiasmado por essa opera seria mozartiana. Luxuosamente barroco, montado por Jean-Pierre Ponnelle em 1971, e parecido com a sua produção de La Clemenza di Tito, esse Idomeneo revela belezas na música que eu anteriormente não notara.
Matthew Polenzani, que poucas noites antes parecera ser o simplório Ernesto apaixonado pela esperta Norina, reaparece transformado em figura mitológica, majestática, o heroico Rei de Creta, ele mesmo, Idomeneo, regressando da Guerra de Troia. A ária final de Electra — em que ela enlouquece de amor não correspondido — tal como interpretada pela soprano Elza van den Heever é uma grande cena de teatro. Arrasta-se ela pelo chão, com olhar alucinado, afastando freneticamente do vestido de Corte do século XVIII, com as mãos, as Fúrias que somente ela vê, enquanto a elas suplica: “Squarciatemi il cuore, ceraste, serpenti”. Na estreia da ópera em 1781, em Munique, essa foi uma das árias cortadas por Mozart, para encurtar a produção, e isso já é motivo para pensar como é bom estar vivo em 2020, em vez de no século XVIII. Na produção de Ponnelle, Electra morre no palco, contorcendo-se, ao terminar a ária. Menos dramaticamente, o libreto nos diz que ela “parte, infuriata”.
Desde outubro, o aumento no número de casos de COVID-19 na Malásia criou novas restrições à vida social. Em novembro, impossibilitado de ver minha família, condenado de noite, ao voltar do trabalho, a ver uma vez mais no computador Anna Netrebko ou Joyce DiDonato nos mesmos papéis em que já as vi várias vezes desde março, senti um dia que precisava recuperar alguma lembrança da infância, de repente transformada, na minha fantasia, em época em que tudo era perfeito.
Foi então que pensei no disco de Mozart.
Aos 8 anos de idade, ganhei de presente dos meus pais, na Bélgica, um disco de vinil com duas sinfonias do “fanciullo salisburghese”, a Nº 40 em sol menor e a “Júpiter”. Durante muitos anos, esse disco foi um dos meus tesouros. Mesmo hoje, pego-me frequentemente cantarolando as duas sinfonias. A própria composição gráfica da capa era sedutora, com uma moldura azul celeste e, no centro, a reprodução de um quadro barroco repleto de personagens em uma cena rural.
A música de Mozart parecia revelar as complexidades, portanto as decepções, que aguardam todo ser humano, mas trazia também a cura mágica. Quando, na mesma época, entendi que um dia eu já não respiraria, não pensaria, não sentiria, saber que o compositor de dons terapêuticos também se extinguira tornou a perspectiva menos assustadora. O que consolava antecipadamente da morte era lembrar que Mozart morrera um dia. Hoje, como vivi já bem mais do que ele, que morreu tão jovem, esse pensamento produz um efeito menos benéfico. Comparo quem ele foi com quem eu sou, com tantos anos a mais na Terra, e considero-me insatisfatório. É cruel, injusto com Mozart, que eu viva mais do que ele e não produza algo como Don Giovanni ou Così fan Tutteou a Sonata para Piano K.331.
Nada ilustra mais a maldade representada pelo desaparecimento do compositor aos 35 anos, em 1791, do que um trecho das Conversações com Goethe de Johann Peter Eckermann. Quarta-feira 3 de fevereiro de 1830: “Jantei em casa de Goethe. Falamos de Mozart. Goethe disse: ‘Eu o vi, garoto de sete anos, quando ele dava um concerto em uma de suas viagens. Eu mesmo tinha então cerca de catorze anos, e me lembro ainda muito nitidamente daquele garotinho de peruca e espada na cintura’. Fiquei boquiaberto. Pareceu-me prodigioso que Goethe fosse velho o suficiente para ter visto Mozart criança”. Como Eckermann, fico eu também “boquiaberto” com isso. O romancista, poeta, dramaturgo, cientista e membro da Corte de Weimar tinha 80 anos na noite desse jantar em 1830.
Em outra conversa, Goethe afirma que só Mozart teria sabido transformar em ópera o seu Fausto, publicado em 1808, dezessete anos depois da morte do compositor. Para mim, o comentário é doloroso, porque traz à tona outro sentimento muito presente na minha adolescência, o da perda de obras magníficas que nunca escutaremos, porque Mozart morreu cedo demais para compô-las.
No apartamento em Kuala Lumpur, ansiei pelo consolo do disco da minha infância com as duas sinfonias. Guardo com carinho os meus antigos LPs. Fui até a estante onde eu os colocara, ao abrir a mudança em junho. Embora eu não tenha ainda conectado aquilo que se costumava chamar de vitrola, era possível ao menos olhar e segurar o disco de Mozart, admirar a capa, alisar o vinil. Isso não apresentava qualquer problema.
Só que sim.
Simplesmente, o disco desapareceu. Estão todos lá, os LPs que me acompanharam na infância e na adolescência, antes da chegada do CD, e que ajudaram a formar minha personalidade. Todos, não. Do disco com as duas sinfonias, não há sinal. Não consigo lembrar em que momento ele sumiu. Terá quebrado? Ou ficado tão arranhado que, em um ato de desapego pouco característico, eu o joguei fora? Vai ver, simplesmente desapareceu, como tudo na vida desaparece, assim, sem razão, como o próprio Mozart partiu um dia.
Quis verificar o nome do regente e da orquestra na gravação. Uma busca na Internet, em poucos minutos, mostrou-me a capa. Vi então que a cena rural no centro é um quadro de Rubens. Meu apreço pelo pintor é sólido, resquício da infância passada na Bélgica. Houve a decisão, em setembro de 2019, já que eu estava de férias na Europa, de ir até Antuérpia apenas para revisitar sua casa; há as costumeiras tentativas, que consigo sempre frustrar, de rever no Louvre seu ciclo sobre a vida de Maria de Médicis.
A verdadeira surpresa da capa porém era outra. O regente, Karl Ritter, e a Orchestre de la Société des Concerts de Vienne nada me diziam. E nem poderiam. Nunca existiram. No século XIX houve um compositor menor, com esse nome, que foi aluno de Schumann. Somente uma busca intensa na Internet permitiu-me colher essa informação. Esse aluno de Schumann obviamente não poderia ter gravado um disco na segunda metade do século XX. Em resumo, meu disco de Mozart, descobri em Kuala Lumpur tantas décadas depois, era um genérico, copiando uma gravação fidedigna, mas modificando os nomes do regente e da orquestra para evitar direitos autorais ou problemas legais. Era um disco pirateado.
Essa descoberta propiciou o consolo desejado, ainda que não da forma prevista. A falsidade nos nomes dos artistas, na capa do vinil desaparecido, fez-me perceber o deslocamento que eu promovera ao longo do tempo. Atribuíra poderes encantatórios a um objeto material, em vez de à música nele gravada. O importante não era o disco, aquele fetiche que sobrara, por alguns anos, da infância. A música é o que conta. Um disco de vinil quebra. Não deixa rastros. Como as sucessivas idades da infância, ele se desvanece. Mozart morre. O que ele teve tempo de criar permanece, dando sentido à vida.
A infância não foi bonita e segura porque vivida na era pré-pandemia ou por causa da forma como transcorreu. Ela teve, a bem da verdade, os seus dramas. Preservar ou perder o disco não muda nem o passado e nem o presente. Depende só de nós valorizar a música, em vez do objeto. Depende só de nós, mesmo nos momentos mais difíceis, como este longo 2020, criar felicidade onde poderia haver tristeza. O velho LP, como Mozart, desapareceu; como as duas sinfonias, o que ele representava pode para sempre perdurar.
Este ensaio foi primeiro publicado, em outra versão, em Estado da Arte, em 5 de dezembro.