
Em outubro de 2017, a caminho do Cazaquistão e da Índia – aonde eu viajava a trabalho – mudei de avião no aeroporto de Heathrow. O voo Rio-Londres havia sido desconfortável e seriam muitas horas de espera pela conexão a Astana. Felizmente, encontrei uma filial da livraria WHSmith. Lá comprei três livros, dos quais este:

Em histórias escritas nos anos 50, Flannery O´Connor nos mostra personagens que vivem – em geral, mas nem sempre – em um ambiente rural no sul dos Estados Unidos, oprimidos por preconceitos, pouca liberdade emocional, princípios religiosos mal compreendidos e um futuro financeiro sempre incerto. No voo noturno da Air Astana em direção ao Cazaquistão, li dois ou três dos contos, inclusive o que dá seu título à coleção, um dos mais violentos. Terei lido algum adicional, poucos dias depois, no longo trajeto de Astana a Nova Delhi – longo por incluir baldeação, de madrugada, em Almaty – e no voo que me trouxe, da Índia, de regresso ao Brasil.
O livro viajou bastante depois disso, pois esteve em Curitiba com a minha mulher e, no momento, está em Bruxelas com minha filha. Em fevereiro de 2018, em casa, em Brasília, li os contos restantes.
Poucos dias após ter terminado o livro de Flannery O´Connor, fui ao cinema assistir a Três Anúncios para um Crime, filme escrito e dirigido por Martin McDonagh. Saí com a sensação de ter estado, durante duas horas, em um conto de A Good Man is Hard to Find. A associação com o livro foi notada por alguns críticos. Li que, em uma das primeiras cenas do filme, quando a personagem principal, Mildred Hayes – em uma interpretação fabulosa de Frances McDormand, que lhe valeu o Oscar de melhor atriz – entra em um escritório, outro personagem, Red Welby (interpretado por Caleb Landry Jones), está lendo justamente A Good Man is Hard to Find. Confesso que não notei isso ao ver o filme mas, em minha defesa, o livro é mostrado de forma tão rápida na cena, que se pestanejarmos perdemos a referência ou homenagem do roteirista-diretor à escritora.
Buscando, na Internet, alguma foto que comprovasse a presença física do volume de Flannery O´Connor no filme, encontrei isto no blog First Impressions, Notes on Films and Culture:

Trata-se, portanto, desta edição, de 1977:

Pela primeira vez em muitos anos, consegui assistir nos últimos meses a quase todos os candidatos ao Oscar de melhor filme. E esta era uma safra particularmente boa. Nenhum candidato ao prêmio, porém, me causou impacto tão grande quanto Três Anúncios para um Crime, com a possível exceção, por razões diferentes, de Trama Fantasma, o filme sobre as neuroses de um relacionamento a dois dirigido por Paul Thomas Anderson.
Quando Três Anúncios para um Crime começa, Mildred Hayes está de luto. Sua filha, Angela, foi estuprada, assassinada e queimada sete meses antes, sem que a polícia tenha conseguido encontrar o culpado, ou talvez sequer se esforçado para isso. Mildred tem a ideia de pagar anúncios em três painéis inutilizados no meio do campo, à beira de uma estrada por onde ela circula todos os dias, a caminho de casa. O cartazes financiados por Mildred, em sua visita ao escritório de Red Welby, responsável pela publicidade nos painéis da estrada, são altamente acusatórios contra o xerife da cidadezinha de Ebbing, Bill Willoughby, interpretado por Woody Harrelson, que foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por esse papel. Os cartazes dizem, sucessivamente, em letras garrafais: “Estuprada enquanto morria”, “E ainda nenhuma prisão”, “Como é possível, xerife Willoughby?”.

A partir desse momento, o filme ganha sua lógica própria e não quero estragar o prazer de quem porventura não o viu ainda. Basta dizer que os cartazes financiados por Mildred trarão à tona a verdade presente dentro da alma dos habitantes de Ebbing, Missouri. Mostrarão seu pior lado o padre, o dentista, o médico e vários policiais, entre eles o racista principal do lugarejo, Jason Dixon, em uma magnífica interpretação de Sam Rockwell, ganhador por esse papel do Oscar de melhor ator coadjuvante. A própria Mildred nos revelará aspectos terríveis de sua personalidade, e comete vários atos condenáveis, e ao menos um crime – que não é um assassinato, mas quase provoca uma morte.
Poucas semanas antes da cerimônia de entrega dos Oscars, houve críticas de que o filme trataria de maneira apenas casual o racismo de alguns personagens, sobretudo o exercitado pelo policial interpretado por Sam Rockwell. Isso representa um erro grave de análise, ou talvez uma tentativa de diminuir as chances de o longa-metragem de Martin McDonagh ganhar o prêmio de melhor filme, que ele de fato não ganhou. Este não é um filme sobre o racismo, o machismo ou os maus tratos a minorias, embora esses sejam temas abordados. Não é um filme que deseja com que nos sintamos bem ao final e, por isso, não é a história de uma mulher enlutada, de nobres sentimentos, cuja persistência traz a justiça sobre a Terra. Como os contos de Flannery O´Connor, este é um filme sobre a mediocridade do ser humano e o desejo de uma comunidade de seguir adiante sem grandes preocupações morais ou intelectuais. O assassinato de Angela marca a coletividade, mas a reação de sua mãe, que não aceita mais ser tratada de forma condescendente, é um choque inaceitável para os demais. O padre revela-se pouco cristão (ele diz a Mildred: ” se você não tivesse parado de ir à igreja, talvez tivesse mais compreensão para com os sentimentos dos outros” – e tiraria os cartazes); o dentista, descumpridor da ética no exercício da profissão; e o policial, uma autoridade que usa violência física para abusar de seu pequeno poder.
Na segunda metade do filme, acompanhamos mudanças no caráter do policial de Sam Rockwell e alguns críticos falaram em “redenção”, o que é outro equívoco, ou ao menos uma simplificação. Vemos, isto sim, seu personagem tomar consciência da própria mediocridade – exacerbada até para os padrões locais – e do quanto isto o prejudica, nos planos pessoal e profissional.
Haveria muito a dizer sobre esta obra-prima, onde todos os elementos – trilha sonora, cenário, figurino, roteiro, interpretações – criam um conjunto harmônico e de grande impacto emocional sobre o espectador. Apesar de seus defeitos, Mildred Hayes nos cativa, por seu espírito destemido, sua luta contra o espírito acomodado que reina em Ebbing, sua tentativa de seguir vivendo apesar da dor. Três Anúncios para um Crime marcará sobretudo quem já sofreu perdas violentas, incompreensíveis. O que Mildred faz, tentar garantir que o responsável pelo seu luto seja punido, todos em sua situação já pensamos em fazer.
Se Três Anúncios para um Crime me fizesse pensar em um conto específico de A Good Man is Hard to Find, seria o intitulado The Displaced Person, de longe o mais longo, em que uma proprietária rural no sul dos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, acolhe uma família – pai, mãe, filho e filha adolescentes – de imigrantes poloneses. O chefe de família vem para trabalhar como empregado na fazenda. A ironia do conto é que o polonês, embora deslocado de seu país de origem, é perfeitamente focado, funcional e competente. Sua patroa e outro casal branco que trabalha na propriedade são “deslocados” emocional e intelectualmente. Há um par de empregados negros, que aparecem para ilustrar o racismo dos demais personagens, e um padre católico que, ao contrário do padre do filme de Martin McDonagh, é boníssimo.
O filme me fez pensar também em outra obra literária, o diário de Etty Hillesum, a holandesa judia morta em Auschwitz em 1943, aos 29 anos. Em 2011, no “off” do Festival de teatro de Avignon, vi um monólogo notável, escrito e interpretado por Sandrine Chauveau. O espetáculo era todo montado com frases extraídas das cartas e dos diários de Etty Hillesum. A cena mais forte era quando esta dizia, referindo-se a Deus: “Não é você que tem de nos ajudar; cabe a nós ajudar você”.
A ideia de Deus, de fato, aparece na cena mais bela do filme de Martin McDonagh. Mildred, desanimada, sentada frente a um de seus três cartazes, no meio do campo, vê aproximar-se um cervo, tão solitário quanto ela, com o qual estabelece uma forma de diálogo – os cínicos dirão tratar-se de um monólogo. Mildred lamenta o fato de ninguém ter ainda sido preso pelo assassinato de sua filha e indaga como isso é possível: ” ‘Cause there ain’t no God and the whole world’s empty, and it doesn’t matter what we do to each other? I hope not. ” O conceito – sobre o qual Mildred especula mas que prefere descartar – de que ao renunciar a Deus o ser humano não possui mais freios em seus atos – é puro Dostoiévski.

Mildred chega a especular se o cervo seria a reencarnação de Angela, mas tem de aceitar a realidade: “you’re pretty but you ain’t her… She got killed. Now she’s dead forever”.
Um personagem do filme reflete visão mais positiva da humanidade. Trata-se do filho de Mildred, Robbie, interpretado por Lucas Hedges, ator que pode também ser visto em Lady Bird. Robbie tenta sobreviver à morte da irmã, à separação dos pais, aos conflitos entre eles e à animosidade que os cartazes colocados pela mãe despertam na cidade, inclusive entre seus colegas de escola. É um observador maduro, equilibrado, quieto, das falhas das pessoas ao seu redor.
Saí do cinema feliz de ser carioca e de não ter nascido em Ebbing, Missouri, com seu racismo, machismo, violência, ignorância e mediocridade. A cidade, de resto, não existe e Três Anúncios para um Crime foi filmado na Carolina do Norte, em uma cidade de 3.000 habitantes chamada Sylva. Duas semanas depois, a execução de Marielle Franco em uma rua do Estácio derrotou minha complacência e tive de aceitar esta realidade: Ebbing, Missouri é todo agrupamento humano, e seus habitantes somos nós e nossos vizinhos. Essa é a força do filme.





















Ali, o autor descreve como transcorreram as dezoito sessões em que posou para Alberto Giacometti, em 1964, quando este pediu para pintar o seu retrato. Modelo e artista, durante as sessões, discorriam sobre arte, sobre formas de ver e de representar e sobre a crônica insatisfação de Giacometti com o seu próprio trabalho, e esses diálogos são reproduzidos no livro. Lord tirava fotos da tela todo dia, registrando sua evolução. O quadro foi vendido em um leilão da 























Tirei a foto acima em Paris, em janeiro, ao visitar na 







Duncan se orgulha, com alguma razão, de ter conseguido capturar o arco-íris coroando o castelo e o artista: “the most remarkable combination of natural phenomenon with newsbreak timing”. Segundo ele, “No single landmark is more renowned in modern art than Sainte-Victoire”, por causa de Cézanne.








Les Nourritures terrestres, de Gide, está incluído no primeiro de dois volumes de Romans et Écrits
Le Rouge et le Noir aparece no primeiro de três volumes de Oeuvres Romanesques Complètes, na mais recente edição de obras de Stendhal na Pléiade (a edição que tenho em casa é a anterior)








































































