O julgamento de Julien Sorel

Dos 6 aos 11 anos de idade, morei em Rhode-St.-Genèse. Nosso bairro era exclusivamente residencial, só com casas, sem edifícios; a rua era curta e uma das pontas desembocava em uma fazenda onde, no verão, vacas pastavam. Os invernos eram passados debaixo de neve, em um silêncio absoluto, quebrado pela madeira queimando na lareira e pela alegria com que meus irmãos e eu descíamos uma ladeira de trenó. Éramos livres e felizes. Nessas condições, como não acreditar em Papai Noel? E assim foi, até os meus 7 anos. Isso faz de mim um retardatário, segundo artigo publicado por Sérgio Augusto, onde ele supõe que a maioria das crianças perde essa ilusão até os 6 anos de idade.

Uma amiga que morava em Paris, um ano mais velha, ao nos visitar na Bélgica me fez a revelação. Fiquei incrédulo. Perguntei: “Mas, e os presentes? Como aparecem na árvore?” E veio a resposta, implacável: “São teus pais que colocam lá”. No Natal seguinte, meus irmãos e eu fizemos o teste: esperamos acordados e escondidos na sala e pegamos nossos pais em flagrante. Terá sido um choque? Em todo caso, sobrevivi para contar a história.

20161225_173122.jpg

Acima, meus irmãos e eu saindo do Museu de Cera no campo de batalha de Waterloo. Tenho 7 anos, meu irmão 6, minha irmã fará 4 em dois meses. Atrás de mim, a amiga que logo me revelará a verdade sobre Papai Noel. Nós nos damos até hoje, as duas famílias são próximas. Possuo inúmeros amigos ainda dessa época.

O diálogo voltou à minha memória há poucos dias quando, por coincidência, abri pela primeira vez um livro de Paul Veyne pelo qual sempre tivera curiosidade, Les Grecs ont-ils cru à leurs mythes? (traduzido no Brasil pela Editora UNESP com o título Os gregos acreditavam em seus mitos?). A primeiríssima frase é a seguinte indagação (a tradução é minha): “Como podemos acreditar pela metade ou acreditar em coisas contraditórias? As crianças acreditam ao mesmo tempo que Papai Noel traz os presentes pela chaminé e que esses mesmos presentes são colocados pelos seus pais; e então, será que acreditam realmente em Papai Noel? Sim”. 

20161225_172714.jpg

Papai Noel, a meu ver, é uma parábola da amizade perfeita. Na visão infantil, uma vez por ano, no momento mais mágico, que é o Natal e a celebração do fim de um ciclo de doze meses, aparece um velhinho boníssimo, que vem apenas para trazer presentes e nada nos pede, a não ser que nos comportemos bem. Como resquício da fantasia da infância, dezembro é o mês da amizade. É quando mais jantamos, almoçamos e confraternizamos com amigos e colegas. É quando mais estamos em paz com o mundo e procuramos eliminar rusgas surgidas durante o ano. É quando a vida parece mais cheia de promessa e quando se sente alegria no ar. Como nasci em janeiro, para mim o sentimento natalino se prolonga por várias semanas além do Ano Novo.

Em 1982, o então presidente da França François Mitterrand dizia em uma entrevista serem seus principais amigos os antigos companheiros, como ele prisioneiros de guerra. Perguntado sobre se a vida política não seria un lieu maudit para toda forma de amizade, declarou — o que tomo com ceticismo — nunca ter sido traído ou abandonado por correligionários: “Il n’y a personne dont je puisse dire :’Comment a-t-il pu me faire cela et se séparer de moi?‘”.

Ao mesmo tempo, Mitterrand afirmava ser impossível formar amizades verdadeiras na vida pública: “Dans la vie politique, on ne se fait pas, on ne crée pas de véritables amitiés. On a quelques bons compagnons“. Nisso, a “esfinge” do Palais de l’Elysée lembra Cícero, que em seu Diálogo sobre a Amizade, declara: “Muito dificilmente encontraremos amigos verdadeiros entre os homens que se ocupam dos negócios públicos ou que procuram honras. Onde está o homem que prefere, à sua, a elevação de um amigo?”. Ainda que pertinente, a pergunta revela uma das contradições do texto de Cícero, que usa como exemplo de amizade perfeita a ligação entre Lélio e Cipião; ambos, porém, haviam sido homens públicos.

Esse não é o trecho que me interessa mais na entrevista de Mitterrand, que li anos após sua publicação, quando eu era muito jovem. Então como agora, parto do princípio, que considero salutar, de que todo mundo é meu amigo, até prova em contrário — algum cínico dirá que essa é uma maneira de seguir acreditando em Papai Noel.

A parte para mim mais estimulante das declarações de Mitterrand aparece no final, quando é perguntado se a amizade com figuras de ficção é possível. Descobre-se aí que ele — como eu — se identificava com personagens de Stendhal e com os de Guerra e Paz.

Stendhal foi um grande amigo da minha juventude. Ficava eu até de madrugada lendo seus livros, na mesma época, em Londres, em que idolatrava Beethoven. Quando ia a Paris, visitava seu túmulo no cemitério de Montmartre e nunca deixava de me impressionar com o epitáfio, escolhido por ele próprio: “Arrigo Beyle Milanese Scrisse Amò Visse”, Henri Beyle tendo sido o verdadeiro nome do escritor. O “Milanese” é uma declaração de amor à Itália, já que Stendhal nasceu em Grenoble. Quanto à frase: “escreveu, amou, viveu”, que mais belo resumo poderia haver de uma vida humana?

Quando viajei à Itália pela primeira vez, aos 20 anos, para passar dois meses em Florença estudando italiano, levei comigo para me preparar, além do Guide Michelin, três livros: o Dictionary of Subjects & Symbols in Art, de James Hall, a que já me referi ao escrever sobre o Museu de Arte Islâmica de Doha; o Viagem Italiana de Goethe, em uma tradução para o inglês; e o livro de contos e novelas de Stendhal extraídos ou inspirados de velhos manuscritos italianos, Chroniques italiennes, de que gosto mais hoje do que da primeira vez em que o li, em viagens de trem, nos fins de semana, por todo canto da Itália. Embora, na época, esse não fosse um livro de predileção para mim, parecia-me natural que Stendhal, o mais fervoroso admirador da Itália que já existiu, me servisse de guia sobre como entender os italianos. Até hoje, quando vou a Roma, gosto de andar pelo bairro onde moraram os Cenci, porque o drama vivido por essa família, e particularmente pela bela Beatrice, é o tema de uma das novelas na coletânea de Stendhal.

wp-1482097102501.jpg

Acima, os mesmíssimos três amigos que me acompanharam em minha primeira viagem à Itália, há tantos anos. A capa do livro de James Hall representa um quadro de Rubens, O Rapto das Filhas de Leucipo, que pode ser visto na Antiga Pinacoteca em Munique. O famoso quadro retratando Goethe na Campanha romana é de Johann Tischbein e fica pendurado no Städel Museum em Frankfurt. Existe uma cópia no Museu Goethe, na casa do escritor na mesma cidade, um dos lugares mais comoventes que conheço. A capa do livro de Stendhal, sensual mas não muito bonita artisticamente, é uma ilustração referente a uma das novelas, L’Abbesse de Castro. Poderia servir para representar uma das aventuras mais célebres nas Memórias de Casanova, seu romance com a freira M.M., personagem até hoje não identificada de forma definitiva. Na verdade, o erotismo ou a capacidade de amar de religiosas já fora tratado desde pelo menos o século XIV, com Boccaccio, e passara pelas Lettres de la religieuse portugaise, aparentemente uma ficção escrita por Guilleragues e publicada em 1669 e que Stendhal conhecia.

Na adolescência, meu romance predileto de Stendhal era La Chartreuse de Parme. Hoje, é Le Rouge et le Noir. Considero Julien Sorel um herói bem mais satisfatório para os nossos tempos do que Fabrice del Dongo. Ou talvez seja uma questão de idade. Um adolescente pode se sentir próximo de Fabrice, marquês nascido em berço de ouro mas que se permite ser idealista na juventude, gradualmente vai se tornando ambicioso e vive seu grande amor na prisão, supra-sumo do espírito romântico. Em minha releitura mais recente da Chartreuse, Fabrice me pareceu insuportável de vacuidade e arrogância. Já Julien, desde sempre movido pela ambição, vive dois grandes amores, é razoavelmente inescrupuloso mas, ao mesmo tempo, mostra-se romanesco, sedutor, capaz de afeição e curioso pela vida e põe tudo a perder quando parece prestes a chegar ao ápice do sucesso. A prisão o redime, tal qual um Raskolnikov avant la lettre, e terminamos a leitura do romance, quando adultos, admirando o personagem. Os contemporâneos de Stendhal foram severos com Julien, considerando-o o cúmulo da hipocrisia. Com a distância, vemos que seu arrivismo, intolerável para a sociedade burguesa do século XIX, explica a rejeição de que foi vítima naquela época, pelos críticos e pelo próprio universo do romance.

O julgamento e a execução de Julien Sorel antecipam os de Meursault em L’Étranger. O personagem de Albert Camus é tão vítima do preconceito despertado pela sua personalidade quanto o de Stendhal. Os dois aceitam o fim calmamente.

O célebre ator francês Gérard Philipe, morto em novembro de 1959 aos 37 anos, interpretou no cinema Fabrice em 1947 e Julien em 1954. Em 1945, ele se destacara criando o papel principal na peça Caligula, de Camus. Em 1954, tinha 32 anos e podia ser visto como um pouco velho para o papel de Julien, mas sua interpretação o consagrou, e na minha lembrança — tenho os dois filmes em casa — está mais convincente como o herói de Le Rouge et le Noir do que como Fabrice sete anos antes. Suponho que, para muitos franceses, até hoje, a percepção sobre os dois personagens de Stendhal seja transmitida pela atuação e pelo rosto de Gérard Philipe:

le-rouge-et-le-noir

Acima, o ator intermediando nossa apreensão sobre Julien Sorel, na companhia de Danielle Darrieux como madame de Rênal. Julien está aprendendo que, se dormir com a mulher de seu empregador pode ser uma boa forma de subir na vida, a atividade não é sem riscos. Eles se amam e ela será, por isso, no final do romance, depois de muitas e muitas aventuras, o meio para sua perda mas, também, para sua redenção. A caminho da guilhotina, Julien se comporta bem, nos informa Stendhal por meio de uma das mais belas frases da literatura, em qualquer idioma: “Tout se passa simplement, convenablement, et de sa part sans aucune affectation” (“Tudo transcorreu de forma simples e decorosa e, de sua parte, sem afetação alguma”). Nunca leio essa frase sem parar para meditar a respeito.

Se Stendhal foi um grande amigo na minha adolescência e juventude, outros escritores me acompanham em diferentes momentos. Tolstói tem sido um amigo na idade adulta e penso nele frequentemente. Henry James, em torno aos meus vinte e poucos anos, esteve sempre a meu lado. Hoje, raramente recorro a ele. Casanova é uma leitura frequente, desde que eu era adolescente; por seu intermédio, aprendi muito sobre o século XVIII. Racine, na primeira edição da Pléiade de suas peças, ficou anos sobre a minha mesa de cabeceira e eu nunca o abandonaria. O mesmo posso dizer de Saint-Simon — o memorialista, não o filósofo; ou melhor, o filósofo de Versalhes, e não o socialista. Shakespeare e outros dramaturgos elisabetanos e jacobitas estão sempre presentes.

Machado de Assis é um amigo caprichoso: some e reaparece. Anda sumido do meu cotidiano, mas começo a sentir saudades e é possível que uma nova fase de adoração machadiana esteja prestes a ter início. Machado e seu cunhado foram amigos de meu trisavô, Francisco José Corrêa Quintella, um homem aparentemente de bem com a vida, a quem o escritor dedicou um pequeno, leve e elegante poema:

20161225_000821.jpg

Por outro lado, o sobrinho predileto desse meu trisavô, o poeta e acadêmico Luís Murat, antagonizava o escritor e nessa qualidade aparece no livro de Josué Montello, Os Inimigos de Machado de Assis, nos capítulos “A agressão dentro da própria Academia” e “Luís Murat contra Machado de Assis”. Josué Montello — grande amigo de meu pai, que conheci pessoalmente e com quem eu teria gostado de discutir hoje estes assuntos — é severo com Luís Murat, atribuindo a um virulento artigo seu o suicídio de Raul Pompeia. Montello fala pouco sobre a oposição de Murat a Floriano Peixoto e seu papel, corajoso, na Revolta da Armada.

Tempos distantes, em que textos de um adversário podiam levar ao suicídio, refletindo o elevado poder da escrita. Conheço outro exemplo em que um autor se vangloriou de ter promovido uma morte, no caso a de Gabriel García Moreno, Presidente conservador e ultramontano do Equador, assassinado em 1875 ao sair de missa na Catedral. O escritor e polemista liberal Juan Montalvo, que vituperava contra García Moreno, proclamou, com orgulho: “Mi pluma lo mató”. Em termos estéticos, a frase é sublime. García Moreno dá nome a uma rua em São Conrado, em frente da qual passo cotidianamente, quando estou no Rio, e me surpreendo sempre de que um dos Presidentes mais controvertidos do Equador tenha recebido essa homenagem dos cariocas. Inversamente, textos de Cícero, que se julgava especialista em amizade, causaram sua própria morte, a mando de Marco Antônio, que se sentira por eles ofendido, e com a conivência daquele que logo se faria chamar de Augusto.

Para os leitores sedentos por bastidores de brigas entre escritores, recomendo este livro, que focaliza o meio literário francês, do século XIX ao início do século XX:

20161221_200817.jpg

A originalidade dos livros de Josué Montello e de Anne Boquel e Étienne Kern está no fato de que, em geral, é mais fácil encontrarmos publicações reveladoras de amizade – e não inimizade – entre escritores. Apesar das rivalidades entre artistas, é bem mais prazeroso ler sobre o bom entendimento entre eles. São inúmeras as coletâneas de cartas entre literatos. Acaba de chegar às minhas mãos, por exemplo, a correspondência entre Albert Camus e o poeta René Char, publicada em 2007:

wp-1482504786165.jpg

A primeira frase do prefácio, assinado por Franck Planeille, indaga se artistas podem ser amigos fraternais: “La fraternité est-elle possible entre les créateurs?” Lendo as cartas de Camus e Char, vemos que a resposta é afirmativa. A amizade entre os dois terminou com a morte de Camus aos 46 anos, em 4 de janeiro de 1960, dois anos depois de receber o Prêmio Nobel de Literatura. Eles haviam se visto poucos dias antes, pois a casa de campo de Camus na Provence, de onde ele voltava de carro ao morrer, era relativamente perto da de Char. O livro não é espesso, porque os dois se viam constantemente e, inclusive, moraram no mesmo prédio em Paris. Não havia necessidade de uma troca epistolar constante. As primeiras cartas mútuas, em março de 1946, começam com o formal “Cher monsieur”. Em 1947, elas são iniciadas com “Cher Albert Camus” e “Cher René Char”. Em 1948, chegamos ao “Mon cher ami” mútuo. Em 1949, temos “Mon cher Albert” e “Mon cher René”, fórmula mantida até o final. Muito rapidamente, as cartas passam a terminar com “fraternellement”, “affectueusement” e mesmo “À vous, de tout coeur” (carta de Camus de 1954). A última de Char, em dezembro de 1959, portanto poucos dias antes da morte de seu interlocutor, termina com “De tout coeur à vous toujours”, o que é um pouco triste, à luz do que aconteceria poucos dias depois.

Esse “vous” é justamente o lado mais intrigante da correspondência entre os dois. Apesar da intimidade, nunca passaram, ao menos por escrito, ao mais familiar “tu”. Cada um apoiava a atividade intelectual do outro e prestava apoio emocional. Em janeiro de 1954, Camus estava retraído, cuidando da mulher, vítima de depressão. Escreve a Char (as traduções são minhas): “Que sorte tê-lo conhecido há já tantos anos e que a amizade tenha entre nós tomado esta força que transpõe a ausência”. Char responde: “Você deve saber que sou seu amigo, seu parceiro, que você pode recorrer a mim a qualquer momento, que deve fazê-lo. Estar ligados no invisível não é suficiente” (“être liés dans l’invisible n’est pas suffisant”).

René Char parece ter tido o dom da amizade. Li cartas suas a outros correspondentes onde o tom era igualmente afetuoso. Com eles, utilizava o “tu”. A opção pela manutenção do pronome formal terá sido de Camus? A correspondência entre os dois lembra a de Flaubert e Turgueniev, onde a afeição e a admiração profissional também são fortes, ao contrário da relação conturbada entre Turgueniev e Dostoiévski.

Meu amigo literário mais constante é Proust. Como já tive ocasião de mencionar neste blog, comecei a lê-lo aos 11 anos de idade e nunca mais parei. Proust, nesse sentido, é o meu amigo, no campo das letras, mais antigo e a quem mais sou fiel. Ler a seu respeito é outro prazer constante. A bibliografia sobre Proust é tão extensa que virou uma indústria por si. Possuo uma prateleira inteira de livros sobre sua vida e sua obra, inclusive um intitulado Proust et ses amis, editado por Jean-Yves Tadié, seu biógrafo:

20161224_235659.jpg

Qual dos volumes de À la recherche du temps perdu e que personagens eu prefiro? Depende do momento ou das circunstâncias. Para os leitores mais jovens, Un amour de Swann e os volumes onde os Guermantes têm presença marcante são irresistíveis. Para os leitores mais maduros, os últimos tomos surpreendem ao trazer novas percepções sobre a psicologia dos personagens, que já pensávamos conhecer bem. A amizade – e as alegrias ou decepções que pode causar – é aliás um dos temas do romance.  Basta citar como exemplo a interação do Narrador com Saint-Loup, às vezes descrita pelo primeiro como verdadeira amizade (uma noite em que jantam juntos é classificada pelo Narrador como “le soir de l’amitié”), às vezes mencionada por ele como uma relação superficial (“…embora eu não acreditasse na amizade e nem que tivesse jamais sentido amizade verdadeira por Robert…”). Ao leitor de Proust, não resta dúvida sobre a afeição entre os dois personagens. A oscilação do Narrador sobre como julgar a amizade parece ter sido característica do próprio Proust, que podia ser um excelente amigo mas para quem, de maneira geral, a interação social era um impedimento para que o artista trabalhasse, criasse. Segundo Tadié, “seu livro é seu único amigo, do qual, de nosso lado, nós nos tornamos, no mundo inteiro, os amigos”.

Proust parece ainda mais nosso íntimo, pelo fato de que até a reconstituição de seu quarto podemos visitar, no Musée Carnavalet em Paris, assim como podemos visitar a casa de Tolstói em Moscou:

wp-1481542095856.jpg

Ou pelo menos, podíamos até recentemente, pois o Museu Carnavalet está fechado para obras e voltará a abrir somente no final de 2019. Tirei a foto acima em 2014.

Resumamos os vários círculos possíveis de amizades literárias descartando, neste comentário, a proximidade sempre possível, nos planos real ou virtual, com autores vivos.

Primeiro, escritores mortos, pelo grau de identificação que sentimos com sua vida ou sua obra ou sua personalidade, podem ser nossos amigos. Alguns serão amigos passageiros, outro durarão para sempre. Podemos ler seus textos e formar bibliotecas de análises sobre sua obra. Podemos conhecê-los melhor, talvez, do que nossos amigos do dia-a-dia.

Segundo, formamos amizade com livros específicos. Há aqui dois graus possíveis: de um lado a obra em si, o texto inserido dentro da capa e da contracapa; de outro, o exemplar específico que possuímos e que passa a fazer parte de nossa vida. Hoje, gosto da obra de Stendhal intitulada Chroniques italiennes, mas gosto também do volume que circulou comigo pela Itália. É reconfortante, pensar que ele me acompanhou em minhas viagens de trem e conheceu meus quartos de hotel em Roma, Veneza, Florença, Perugia, Milão e tantos outros lugares, voltou para Londres e, depois, me seguiu a outros países e continua aqui, na minha estante; posso segurá-lo e meditar sobre o tempo, sobre o passado, sobre o presente. As páginas ficaram amareladas mas o volume está em bom estado. Estamos envelhecendo juntos e não há dúvida de que ele durará mais do que eu.

Em terceiro lugar, há a amizade com personagens de ficção. Fui muito amigo de Fabrice del Dongo até os 30 anos. Hoje, descartei essa amizade. Cresci e Fabrice tem agora pouco a me dizer. Já sua tia e admiradora, a duquesa Sanseverina, é hoje uma cúmplice, um caso amoroso em potencial, e justifica minhas releituras de La Chartreuse de Parme. Andrei Bolkonsky e Pierre Bezukov – os quais, como expliquei em meus comentários sobre a versão da BBC para Guerra e Paz, podem ser vistos como duas facetas do mesmo homem – são indubitavelmente meus amigos e continuarão a sê-lo. Os personagens de Dostoiévski às vezes nos parecem estranhamente familiares, mas posso pensar em apenas um de quem eu gostaria de ser amigo. Quando li O Idiota estive certo de que o Príncipe Míchkin – outro papel de Gérard Philipe no cinema, em versão que nunca vi – precisava de alguém como eu como confidente.

Em La Orgia Perpetua, seu estudo sobre Flaubert e Madame Bovary, Mario Vargas Llosa  escreve: “Un puñado de personajes literarios han marcado mi vida de manera más durable  que buena parte de los seres de carne y hueso que he conocido”. Cita como exemplos de amigos literários seus, entre outros, David Copperfield – e Dickens possui o talento, de fato, de compor caracterizações inesquecíveis; David Copperfield é, de muitas formas, o amigo ideal e tenho a sorte de conhecer alguém como ele na vida real – D’Artagnan, outro amigo da minha juventude e… Fabrice del Dongo.

20161225_182423.jpg

Em quarto lugar, figuras históricas, com o tempo, se tornam acessíveis a nós de forma subjetiva, como se fossem personagens de ficção. Já tive ocasião de mencionar neste blog meu interesse constante, desde a infância, por Napoleão, despertado pelo fato de que Rhode-St.-Genèse é uma localidade perto de Waterloo e de que visitei inúmeras vezes, ao longo da vida, o campo de batalha, seu panorama, o museu de cera e a livraria cobrindo todo tipo de tema ligado à era napoleônica e subi os 226 degraus do morro do famoso Leão. Seria demais dizer que me considero amigo de Napoleão, inclusive porque não há dúvida sobre seu caráter autoritário e egoísta. Quem quereria ser seu amigo? O fato, porém, é que de tanto ler sobre ele chego a conhecê-lo melhor, em suas várias facetas, do que a muitas pessoas do meu entorno. Uma das minhas aquisições na Livraria Berinjela, este ano, como visto anteriormente, é um exemplar da biografia de Napoleão pelo historiador Jacques Bainville. Esse livro, em geral, é considerado crítico do biografado; pessoalmente, achei-o elogioso. De toda forma, o que li não é uma narrativa imparcial sobre Napoleão, mas sua história e sua personalidade como vistas por Bainville. Fabrice del Dongo, Julien Sorel e o próprio Stendhal eram todos admiradores do Imperador e estão, também, entre os intermediários possíveis para nossa percepção desse homem.

Um exemplo gritante do quanto só podemos ter uma visão “gerenciada”, quase ficcional de personagens históricos são os membros da dinastia julio-claudiana. O que sabemos deles nos chegou, sobretudo, por intermédio de Tácito e Suetônio. Um de meus heróis é Germânico, em quem penso com frequência. Será o pai de Calígula e Agripina e avô de Nero, contudo, o príncipe perfeito, digno de adoração descrito por Tácito? Não seria intenção do historiador romano que seus leitores se afeiçoassem a Germânico, transformado, assim, em personagem de ficção? Há debates entre os estudiosos sobre as motivações de Tácito, mas eu não tenho dúvida de que seu texto foi construído de forma a manipular o leitor favoravelmente. Germânico certamente ganha, na forma como o historiador o apresenta, na comparação com os demais membros da dinastia. Ao morrer antes de reinar, foi-se sem que sua real capacidade tenha sido colocada à prova. Em 2014, fotografei no Louvre – e os museus, a propósito, também podem fazer parte da nossa vida, como ilustra Alexander Sokurov em  Francofonia – o busto do príncipe-herói, para sempre destinado a ter amigos, mesmo 2.000 anos após sua morte, pois assim pretendeu Tácito, que o transformou em um personagem da literatura de mais relevância do que ele tem, hoje, como figura histórica:

wp-1482686522843.jpg

Em quinto lugar, livros e amigos literários podem contribuir a desenvolver relações com pessoas no mundo “real”. Em minha crítica a O Plano de Maggie, mencionei que esse era um filme para “o público que acredita serem os livros objetos – seres? – lúdicos e que avalia terem eles o poder de criar vínculo entre as pessoas”. Os nomes que atribuo a alguns personagens deste blog, como: o amigo leitor de Prousto amigo leitor de Morgenthau, o casal que me deu de presente a edição fac-similar do Alguma Poesia do Drummond mostram que livros e referências bibliográficas são uma boa forma – embora longe de ser a única – de estabelecer diálogo comigo. Postagens surgem porque amigos me deram livros de presente, como foi o caso do Gitanjali de Tagore. Gosto quando alguém me pede livros emprestados, pois essa é uma forma de compartilhar uma visão de mundo.

É possível que a amizade com obras literárias, personagens, escritores já mortos seja uma forma avançada da crença em Papai Noel. Assim como o bom velhinho vinha, eu estava certo, depositar presentes debaixo da árvore, salvarei com meus conselhos Julien Sorel da guilhotina, aprenderei com Gina Sanseverina a sobreviver a intrigas políticas, impedirei Swann de se casar com Odette de Crécy, assimilarei o carisma de Germânico, explicarei ao príncipe Andrei que ele deve perdoar Natasha – algo que nem Pierre Bezukov conseguiu – e direi a Camus que ele não deve entrar no carro de Michel Gallimard e encontrar a morte na estrada; bem melhor voltar a Paris de trem, como planejado, com René Char.

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Elle – Paul Verhoeven

A violência contra a mulher é onipresente nas telas de cinema e de televisão. Não apenas a violência física, em graus variados, mas também a violência psicológica e a subordinação ao gênero masculino. Sugiro ao leitor fazer um teste: pegue o controle da televisão, vá mudando de canal arbitrariamente e analise as cenas que forem passando. O resultado é impressionante. Muda o canal, mas a tônica é quase sempre a mesma: representantes do gênero feminino sofrendo, chorando, suplicando, apanhando, sentadas olhando com admiração para um homem em pé, deitadas languidamente enquanto um homem se agita, anda pelo quarto, dá ordens. É preciso um olhar consciente para registrar essas cenas, pois elas já nos parecem naturais. Temos ainda a capacidade de notar cenas abertamente violentas, mas outras mais sutis nos escapam, se não formos atentos.

Escrevo estas linhas enquanto leio matérias de hoje sobre a revelação por Bernardo Bertolucci, feita em 2013 mas que só agora está causando choque, de que a cena de estupro anal em O Último Tango em Paris não constava do roteiro e foi decidida por ele e Marlon Brando sem que Maria Schneider soubesse de antemão. Não houve ensaio, a atriz foi simplesmente surpreendida na hora da gravação. O principal crítico de cinema de The Guardian, Peter Bradshaw, comenta o assunto em seu blog, em artigo publicado cinco horas atrás e cujo título já diz tudo: “Last Tango scandal shows toxic extent of male power in the film industry“. Outras fontes lembram que, em 2007, Maria Schneider, que morreria em 2011, havia denunciado o fato, mas que sua voz não fora ouvida. Na ocasião, Maria Schneider indicou que, tendo 19 anos de idade durante a filmagem, se sentira obrigada a obedecer e tomara a gravação da cena como um estupro de verdade, embora o sexo fosse simulado.

Elle é um filme que se desenvolve em torno ao estupro de uma mulher forte, interpretada por Isabelle Huppert. Sua personagem, Michèle, vive rodeada de seres inexpressivos, de inteligência limitada, fracos. Seu ex-marido, de quem permanece amiga (a separação foi causada por um ato de violência física que ele cometeu contra Michèle), seu filho e seu amante não são exceção. Apenas sua mãe e sua nora, de maneiras e por motivações diferentes, têm condições de enfrentá-la.

Assim que o agressor foge, Michèle limpa o ambiente onde o estupro aconteceu, joga fora a roupa de baixo, toma banho e encomenda sushi. Impossível ter mais força de caráter e menos auto-comiseração.

elle-main-new

Acompanho, desde minha adolescência, a trajetória de Isabelle Huppert e é fascinante vê-la cada vez mais bela e mais competente como atriz. Este filme marca talvez o ápice de sua carreira. Poucas atrizes conseguem dizer tanto com um olhar, e ela torna o filme – onde há cenas que alguns considerarão de realidade psicológica discutível – perfeitamente crível.

O filme de Paul Verhoeven pode provocar perplexidade. Alguns críticos, embora elogiosos, manifestaram hesitação sobre se o diretor dá prova de espírito feminista ou de misoginia. Não sei como pode haver dúvidas a respeito. Uma crítica muito positiva, escrita por uma mulher, Sheila O’Malley (alerto o leitor para o fato de que sua resenha revela mais sobre o enredo do que faço aqui), aponta que a personagem de Huppert lembra as “dominant dames” de filmes americanos das décadas de 30 e 40, tipicamente interpretadas por Bette Davis, Joan Crawford, Barbara Stanwyck. Quem, como eu, conhece o trabalho dessas atrizes, se lembrará de filmes como All about Eve (A Malvada), estrelado por Bette Davis e a que já fiz referência em minha postagem Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de JaneiroMildred Pierce  (Alma em Suplício), com Joan Crawford, e Double Indemnity (Pacto de Sangue), um dos melhores exemplos de film noir, estrelado por Barbara Stanwyck. Esses são filmes onde as mulheres ou superam com coragem enormes vicissitudes ou dominam os homens e o ambiente ao seu redor.

Nessa linha de raciocínio, Verhoeven deu a Isabelle Huppert a chance de ser herdeira de uma tradição cinematográfica. Vítima de violência (do ex-marido, do estuprador, do pai), Michèle a tudo resiste, sozinha ou quase.

Acontece porém que a personagem contribui ela própria para gerar e perpetuar a violência contra a mulher. Rica, habituada a dominar não só por meio de sua personalidade mas também graças ao dinheiro, ela é dona de uma empresa de videogames. O jogo que está sendo desenvolvido por seus funcionários no momento em que transcorre a ação do filme é altamente violento contra as mulheres. Vemos Michèle e sua equipe assistindo a uma cena do videogame onde uma rainha ou princesa medieval é atacada, violentada pelos tentáculos de um monstro. Michèle fica insatisfeita. Autoritária, reclama com seus funcionários que não há sangue,  violência e orgasmos suficientes na cena.

Logo entenderemos que a personagem cresceu rodeada por um nível assustador de violência. Basicamente, essa é uma mulher da qual todos (inclusive o estuprador) exigem que seja compreensiva e tolerante, mas à qual não dão o direito de ser tolerada e compreendida. Dos outros, Michèle aprendeu a esperar o pior: fraqueza, comportamentos absurdos, agressividade física ou verbal. Isso explica sua reação corajosa e fria após ser estuprada. Ao mesmo tempo, fica indignada com seu gato – que assistiu ao estupro – quando este captura um passarinho no jardim.

Quando a identidade do estuprador é revelada,  Michèle, ao invés de denunciá-lo à polícia, desenvolve com ele uma espécie de amizade amorosa, algo que poderá chocar o espectador  – foi o caso com minha mãe – mas que Verhoeven e a espetacular atuação de Isabelle Huppert tornam, a meu ver, coerente com a psicologia dos dois personagens, a vítima e o agressor.

A interação da protagonista com as demais personagens femininas é digna de nota. Duas delas, a mãe e a namorada do filho, são personalidades fortes mas claramente menos inteligentes e seguras do que a heroína. Com a primeira, Michèle mantém relação de incompreensão mútua, e com a segunda de franca animosidade. A terceira personagem feminina, a melhor (única?) amiga de Michèle e sua sócia, é amorosa, cálida, simpática e de inteligência mediana.

Este é um filme que disseca várias coisas: os costumes da burguesia francesa, a psicologia da heroína, suas relações com  os demais personagens. Minha irmã gostou, considerando-o feminista; minha mãe achou a estória absurda (“não faz o menor sentido ela reagir assim”); minha mulher e minha filha não o viram ainda. Uma amiga gostou, apreciando a força de caráter de Michèle. Não ouvi ainda a opinião de nenhum amigo. Pessoalmente, acho que é um filme de mensagem feminista – a celebração da força de uma mulher, que se recusa a ser vítima – mas cuja heroína despreza tanto as outras mulheres quanto os homens.

Além da atuação de Huppert, são exemplares as dos atores masculinos e a de Judith Magre como a mãe.

Meus dois leitores sabem que gosto de analisar filmes onde livros são motivadores ou personagens da trama – exemplos recentes desse apreço são minhas resenhas de O Plano de Maggie, de Rebecca Miller, e No Fim do Túnel, de Rodrigo Grande – ou que fazem referência a textos literários, como apontei nas críticas de Café Society, de Woody Allen, Julieta, de Almodóvar, e Amor e Amizade, de Whit Stillman. Às vezes, o filme me faz lembrar de algum texto, como aconteceu com As Montanhas se Separam, de Jia Zhangke.  

No caso de Elle, livros não aparecem e nem influenciam a trama. Sua presença no filme é mais sutil. Fora o fato de que esta é a adaptação cinematográfica do romance Oh…, de Philippe Djian, há um personagem escritor, o ex-marido, claramente exibido como um fracassado, nos planos pessoal e profissional. Há uma referência a Simone de Beauvoir, mas que não é positiva. Antes de abrir a companhia de videogames, Michèle era editora, mas o fato é apenas mencionado. A referência cultural mais forte no filme não é literária, é o Natal: uma das cenas mais importantes se passa durante a Ceia de 24 de dezembro. Verhoeven, porém, não deixa dúvida, graças ao olhar de Isabelle Huppert enquanto outros personagens assistem na televisão à Missa do Galo oficiada pelo Papa na Basílica de São Pedro, que o espírito religioso não salvará essas almas. De resto, o trauma infantil da protagonista também se deu no Natal.

O filme me prendeu à poltrona, fiquei impressionado que pudesse haver na tela algo tão fora da norma usual e me perguntando se o impacto seria o mesmo sem a atuação de Isabelle Huppert.

Termino porém recomendando a leitura de dois textos menos entusiastas, o de Richard Brody, em The New Yorker, em artigo intitulado The Phony Sexual Transgressions of Paul Verhoeven’s “Elle”, em que faz críticas ao diretor e à atuação da atriz; e o da blogueira espanhola, feminista e crítica de cinema Pilar Aguilar, que considerou o filme “asquerosamente biempensante“. Dão visões interessantes sobre o filme, embora eu não concorde com tudo o que dizem. Pilar Aguilar imagina um diálogo – que diverte o leitor –   entre Verhoeven e seu roteirista, David Birke, sobre o que inserir no filme para deixá-lo mais opacamente chocante. Em sua argumentação, Aguilar afirma que o roteiro coloca em Elle elementos sem sentido, apenas para impressionar, mas termina reforçando a misoginia e o machismo.

Menciono ao leitor que o artigo de Richard Brody e o de Pilar Aguilar revelam mais sobre  a trama do que fiz nesta postagem.

1af37ad8-5b4f-46cf-92894a4f82706508

Elle – Ficha Técnica IMDb

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Tolstói e a BBC

Recentemente, a perspectiva de ficar 14 horas dentro de um avião me pareceu mais suportável quando notei que o entretenimento disponível na pequena tela frente à minha poltrona incluía a nova produção de Guerra e Paz da BBC, apresentada no Reino Unido entre janeiro e fevereiro deste ano. A série, eu sabia, fora muito bem recebida pela crítica britânica.

Na foto abaixo, extraída da página da BBC, vemos Paul Dano, à esquerda, como Pierre, Lily James como Natasha e James Norton como Andrei.

guerra-e-paz

Tolstói é uma referência intelectual e filosófica forte para mim. Como mencionei neste blog, sua casa é um dos lugares de que mais gosto em Moscou. Aos 20 anos, fazendo minha graduação em Londres, ao mesmo tempo em que idolatrava Beethoven, comecei a estudar russo porque queria ler Tolstói e Tchekhov no original, e esse esforço durou alguns anos, mas acabou sendo abandonado, o que hoje lamento. Na era pré-Internet, troquei várias cartas com Tatiana Belinky, renomada tradutora (nascera na Rússia) e grande amiga de meu pai, em busca de precisão sobre a pronúncia de alguma letra ou palavra e regras gramaticais. Nunca cheguei a conhecê-la, e talvez ela tenha sido meu primeiro amigo virtual, quando o conceito não existia ainda; na época falava-se em amigo epistolar. Ela me respondia com impressionante paciência.

Nesse período, eu não perdia uma peça de Tchekhov nos palcos londrinos, em produções normalmente bem sombrias; eu não entendia como o autor pudera declarar que suas peças eram comédias. Ia à English National Opera para assistir Guerra e Paz de Prokofiev. Assistia também, na televisão, a uma reprise da série de 1972 da BBC, em vinte episódios, em estilo “teatro filmado”. A música de abertura era uma lenta e solene interpretação do hino russo tsarista, o que já dá uma ideia do espírito dessa produção, marcante pela atuação de Anthony Hopkins como Pierre Bezukov. A série de 1972 não é Tolstói e não é russa e sim um bom exemplo da excelência do teatro inglês. 

Anos mais tarde, quando minha mãe morava em Moscou, pedi que me comprasse livros do Tolstói, para que eu pudesse ver – embora não pudesse ler – os que os russos vêm ao abri-los. Ela me ofereceu uma edição de 1951, em quatorze volumes, dos quais Guerra e Paz ocupa quatro:

20161108_233520.jpg

A primeira vez em que abri o romance, na belíssima tradução para o francês de Henri Mongault, publicada em 1941 na edição da Bibliothèque de la Pléiade, coleção sobre a qual já escrevi neste blog, senti nas primeiras linhas que meu universo iria mudar. Tolstói nos mergulha imediatamente nas intrigas da alta sociedade de São Petersburgo, por meio de uma recepção oferecida por uma dama da Corte de Alexandre I, Ana Pavlovna Scherer. Muitos dos principais personagens do romance participam dessa festa. Entramos junto com eles no salão da anfitriã. Somos apresentados a eles, vemos como são percebidos por seus pares, ouvimos suas palavras, vemos seus gestos e queremos que a recepção dure para sempre.

Além dos quatro volumes em russo, e da edição da Pléiade, temos em casa uma edição pela Oxford World’s Classics da tradução de Louise e Aylmer Maude, que viajou muito com minha filha e ficou nas condições abaixo:

20161127_204026.jpg

A tradução do casal Maude – ambos conheceram Tolstói pessoalmente – é ainda mais antiga do que a de Henri Mongault. Geralmente, prefiro ler os russos em francês, porque é assim que os conheci. Meu amigo leitor de Proust entendeu perfeitamente a situação ao me dizer uma vez, de maneira irônica: “Se você lê os russos em outra língua que não o francês, parece uma tradução, certo?”. Li porém uma novela de Tolstói em português, Padre Sérgio, na bela tradução de Beatriz Morabito publicada em 2001 pela Cosac & Naify. Quem poderá jamais lamentar suficientemente o fim dessa editora, que nos brindou, da obra de Tolstói, com traduções de Guerra e Paz, Anna Kariênina, Khadji Murat e uma edição de Contos Completos?

20161127_174538.jpg

Editora 34 vem publicando traduções de autores russos. Por enquanto, Tolstói comparece em seu catálogo apenas com quatro livros de contos e novelas, uma delas A Sonata a Kreutzer, certamente a sua pior obra de ficção e, portanto, uma escolha estranha para receber tal prioridade.

Guerra e Paz se inicia com uma frase de Ana Pavlovna Scherer em francês, língua da elite social russa da época, sobre o poder de Napoleão e o fato de que a Itália passara a ser um apanágio da família Bonaparte. O interlocutor de Ana Pavlovna é o príncipe Vassily Kuragin. Na versão da BBC, tão fiel ao livro colossal quanto poderia ter sido uma série em seis episódios, essa frase de Ana Pavlovna é suprimida, o que é uma pena. A vida e a personalidade dos personagens, inclusive a dos presentes nessa festa, será afetada pelas guerras napoleônicas e pela invasão da Rússia. Não é à toa que Tolstói, já na primeira frase de Guerra e Paz, nos fala de Napoleão.

A nova versão da BBC, como o livro, consegue nos prender desde o início. Gillian Anderson, no papel de Ana Pavlovna, é uma anfitriã eficaz. Ela nos recebe, dá à sua personagem, secundária, uma força que o original não possui no livro, nos convida a permanecer na estória durante os seis episódios, e aceitamos de bom grado ficar. Na televisão, alguns personagens são eliminados, mas o que me surpreendeu foi como a série conseguiu desenvolver bem a linha narrativa de todos os protagonistas e ser bastante fiel ao original.

Abaixo, vemos Gillian Anderson, reencarnando Ana Pavlovna Scherer, recebendo em seu salão o príncipe Vassily Kuragin, interpretado por Stephen Rea:

ana-pavlovna-scherer-e-stephen-rea

As interpretações são quase todas excelentes, com destaque para Paul Dano, Stephen Rea e Tuppence Middleton como a filha de Vassily Kuragin e mulher de Pierre, Hélène. Os três membros da família Bolkonsky são igualmente bem representados – o velho príncipe, por Jim Broadbent; seu filho, o príncipe Andrei, por James Norton; e sua filha, a princesa Maria, por Jessie Buckley. Sendo esta uma série inglesa, podemos ter a certeza de que mesmo os papéis secundários são interpretados por grandes atores. A Natasha de Lily James me convenceu menos, mas talvez esse seja um dos papéis mais ingratos para qualquer atriz: como representar a heroína russa por excelência? Como se destacar em um papel que já foi de Audrey Hepburn? Lily James está porém convincente na famosa cena de dança camponesa, que deu aliás a Orlando Figes o título de seu livro sobre a estória cultural da Rússia, Natasha’s Dance. O irmão de Natasha, Nikolai Rostov, está bem feito por Jack Bowden, em um papel particularmente difícil, porque Nikolai, ao longo do romance, pode ser sucessivamente inocente e ambicioso, pouco inteligente e antipático e logo depois sedutor e comovente.

Abaixo, a cena do casamento entre Pierre e Hélène. Um casamento feito pelo pai da noiva, em um faz-de-conta de que os dois se amam. Ele gostaria de poder amá-la; ela gosta do seu dinheiro, de que pretende gozar sem ser importunada. O olhar dos atores captura bem esses sentimentos:

pierre-e-helene

Uma palavra sobre a família Kuragin. No romance, o príncipe Vassily e seus três filhos – um, o diplomata infantilizado Hyppolite, foi excluído da série da BBC – simbolizam toda a corrupção e a falsidade da alta sociedade. Tuppence Middleton dá a sua Hélène (morena, e não loura como no livro) uma inteligência que o personagem original não possui. No texto de Tolstói, é uma mulher bela, fria, imoral, egoísta e obtusa. Uma das evoluções pessoais mais surpreendentes no romance é a transformação de Hélène em dona do salão aristocrático mais celebrado de São Petersburgo. Pierre não entende como os homens mais prestigiados podem considerá-la inteligente e instruída e tratar de temas filosóficos em seus jantares. A BBC decidiu mostrar o que é apenas sugerido no romance: vemos Hélène na cama com Boris Drubetskói, bem interpretado por Aneurin Barnard; e vemos Hélène praticar incesto com o irmão, Anatole, interpretado por Callum Turner, que em algumas cenas, estranhamente, está parecido com fotos de Tolstói quando jovem. A imprensa britânica não deixou de registrar essa sexualização da personagem e regozijou-se com uma alegada reação negativa dos russos, mas a mim parece-me próprio que a televisão ostente aquilo que é apenas alusão no romance. De resto, em seu livro de memórias, lançado pela primeira vez apenas em 2010, Sofia Tólstoi se orgulha de ter conseguido convencer o marido a retirar do texto “os trechos cínicos onde Liev Nikolayevich narra episódios da vida devassa da bela Hélène Bezukov” (traduzo da edição em francês do livro da Condessa Tolstói), sob o argumento de que “por causa desse detalhe insignificante e sujo” as jovens seriam impedidas de ler seu romance.

Abaixo, a cena do baile, em que Andrei e Natasha se apaixonam:

natasha-e-andrei

Infelizmente para Natasha, seu noivo cede à pressão do pai, posterga o casamento por um ano e parte para a guerra. Para o romancista, essa era uma decisão inevitável na evolução da trama, pois a ausência de Andrei fará de Natasha uma presa dos irmãos Hélène Bezukov e Anatole Kuragin, que quererão corrompê-la por puro prazer, dando novo impulso ao ritmo narrativo. Abaixo, Natasha deslumbrada com a beleza e a segurança de Hélène, sem saber o que esconde a máscara amável da Condessa; a cena se passa na Ópera:

natasha-e-helene

Teatro e Ópera são, para Tolstói, locais onde demonstrações artísticas pouco naturais, artificiais ocorrem e servem, assim, para revelar a corrupção da sociedade.

Natasha será logo assediada por Anatole, com resultados nefastos. A imagem abaixo mostra o espírito perverso de Anatole e a realização de Natasha de que, noiva de Andrei, está se deixando seduzir por outro homem:

anatole-e-natasha

De toda a discussão filosófica de Tolstói sobre a História, que inspirou Isaiah Berlin a escrever The Hedgehog and the Fox, nada foi transportado para a série, mas talvez seja melhor assim, pois uma adaptação passa a ser uma obra por si própria, que pretende no máximo oferecer uma versão do pensamento do autor original.

O que fica bem demonstrado na série é o quanto Pierre e Andrei, como amigos, fazem na verdade um ser humano só, em toda a sua complexidade. Parecidos de personalidade, ambos insatisfeitos com a vacuidade do meio social em que vivem, buscam caminhos distintos para dar sentido à vida, Andrei atrás de glória no exército e na administração, Pierre filosofando na franco-maçonaria, no casamento, no dia-a-dia. É um comentário comum que os homens desejam ser Andrei mas temem ser Pierre. Enquanto o primeiro esconde sua tristeza e insatisfação sob um ar altaneiro, receita segura de sucesso entre seus pares, Pierre ostenta perplexidade diante da vida e é objeto de desprezo, mesmo depois de se tornar milionário. Na série, as numerosas cenas entre os dois amigos capturam bem a sensação de que estão interagindo não propriamente duas pessoas diferentes, mas duas versões do mesmo indivíduo.

pierre-e-andrei

Semanas depois de vista em um vôo, a série permanece na memória pelas atuações,  pela produção cuidadosa e luxuosa e pela tentativa bem-sucedida de recriar o ambiente russo do romance. Vemos na tela os personagens sofrendo, rindo, mudando, morrendo ou sobrevivendo e percebemos que assim é a vida, que um nobre ou um militar russo das guerras napoleônicas tentava, como nós, fazer sentido das suas circunstâncias. Alguns conseguem, outros não, mas o esforço nunca é fácil, nos ensina Tolstói, e reitera a BBC.

Guerra e Paz – Ficha técnica IMDb

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

O Plano de Maggie – Rebecca Miller

Haverá atriz mais encantadora, no momento, do que Greta Gerwig? Seria difícil imaginar outra capaz, como ela, de dominar um filme inteiro apenas com seu meio sorriso, suas roupas soltas demais, seu ar inocente e sonhador. Ela faz falta, nas poucas cenas em que seu personagem não aparece em O Plano de Maggie.

Este é um filme fascinante, povoado de livros e de professores universitários em graus variados de neurose, atravessando dilemas divertidos. O personagem de Greta Gerwig, Maggie, é bonita, jovem, inteligente (seu currículo acadêmico é impressionante), eficiente e tem um trabalho de que gosta em uma universidade em Nova York, ajudando alunos do Departamento de Arte a comercializar suas ideias. Trata-se de uma mulher bem-sucedida e que tem a vida toda pela frente. Acredita, porém, que nunca se casará, pois seus namoros não duram mais do que seis meses. Os melhores amigos de Maggie são um casal, Tony (Bill Hader) e Felicia (Maya Rudolph). Logo na primeira cena, ela compartilha com Tony a convicção de que morrerá solteira. Este refuta essa previsão, lembrando que foi seu namorado, na universidade, por dois anos (portanto, bem mais do que seis meses). Maggie concorda, mas comenta que os dois, enquanto namoravam, “made each other miserable“.

Maggie também comunica a Tony o plano de engravidar por meio de inseminação artificial. Ele se oferece para ser doador, mas ela já selecionou outro, um antigo colega de ambos na universidade. A esta altura, temos a impressão de estar em terreno conhecido; só não sabemos se Woody Allen é, para Rebecca Miller, fonte de inspiração ou objeto de carinhosa paródia. O filme, contudo, possui identidade própria e apresenta visão particular da vida.

Talvez minha cena predileta seja uma em que Maggie, em casa, coloca música e dança, enquanto o doador, que veio visitá-la, faz no banheiro o que precisa ser feito para a coleta do… material. Ele é rápido, logo sai do banheiro com o recipiente na mão, e a dança, portanto, dura pouco, certamente menos do que gostaríamos, pois a expressão corporal de Maggie, enquanto se mexe com a música, é particularmente sedutora.

Nossa heroína, ao mesmo tempo em que recebe o doador em casa, está se apaixonando por outro professor, mais velho, da mesma universidade, John, antropólogo ficto-crítico — Rebecca Miller explica em entrevista o que o termo significa — interpretado por Ethan Hawke. John é casado com Georgette, também antropóloga, professora de origem dinamarquesa mais bem-sucedida do que ele. “She has a tenure in Columbia“, ele diz a Maggie, em tom que não parece ser de admiração e carinho. Julianne Moore demonstra no papel de Georgette um talento para a comédia inesperado para mim. Muitas vezes, deixei de ver filmes com ela, apesar de sua irrefutável competência como atriz, por causa do peso dramático de suas personagens, frequentemente intenso demais. Aqui, vemos uma professora universitária ambiciosa, egoísta e frustrada no casamento, mas tudo é colocado com bom-humor e de forma divertida, e Georgette gradualmente vai nos conquistando. A direção de arte do filme parece ter tido particular atenção com relação a Julianne Moore, e seu personagem, em todas as cenas em que aparece, se coaduna perfeitamente com o cenário.

A produção bem-cuidada é, aliás, um dos trunfos do filme, além dos diálogos (o roteiro é de Rebecca Miller, com base em uma estória de Karen Rinaldi) e das interpretações.

Na segunda vez em que Maggie e John se vêem, tão por acaso como da primeira, os dois já trocam confidências e ele conta a ela o quanto é infeliz no casamento. Para não estragar o prazer do telespectador, direi apenas que o filme dá um pulo de três anos e reencontraremos Maggie e John casados e pais de uma filha. Terá início aí um segundo plano de Maggie.

Mais ainda do que no caso de minha resenha sobre No Final do Túnel, tenho de salientar o papel que os livros ocupam em O Plano de Maggie. A casa da heroína é invadida por eles (ela subloca o apartamento de um poeta) e Shakespeare é citado várias vezes, uma delas na rua por um ator vestido com roupa elizabetana e que sofrerá, poucos minutos depois, um revés amoroso. A fugaz aparição desse ator shakespeariano, que não interage com nenhum dos personagens principais, e nem tem nome, ajuda a criar no espectador o sentimento de que vê na tela um pedaço de vida nova-iorquina, e sua cena de alguns segundos, na rua, de dissabor amoroso, reforça o tema principal do filme, apresentado aliás de forma sempre leve: as relações humanas são frágeis e em geral não duram. A mesma mensagem foi apresentada em As Montanhas se Separam mas, como registrei, no filme de Jia Zhangke essa era uma mensagem profunda, filosófica, enquanto que na “comédia de costumes” de Rebecca Miller o tom é divertido e essa realidade -— se realidade for — se torna plenamente aceitável. 

Voltemos ao espírito literário do filme dirigido pela filha de Arthur Miller (e como esquecer que o dramaturgo foi casado, antes do nascimento de Rebecca Miller, com outra atriz loura, Marilyn Monroe, diferente de Greta Gerwig mas igualmente sedutora e talentosa?): um livro específico é quase um ator na trama. Trata-se do romance sendo escrito por John. Em parte, é graças a esse romance — onde um dos personagens é “the crazy Brazilian woman” — que Maggie se apaixona. Em parte, é por causa dele que Maggie se vê obrigada a desenvolver seu segundo plano e que Georgette (que em um momento lança um livro intitulado Bring Back the Geisha) participa da estória até o final.

Há uma cena, na casa de Tony e Felicia, em que a câmera focaliza um exemplar de Man and his Symbols, editado por Carl Jung. O exemplar do livro aqui em casa pertenceu aos meus pais:

20161117_161319.jpg

Não estou certo da mensagem idealizada pela diretora ao focalizar a obra de Jung. Há o fato de que Man and his Symbols — que trata do inconsciente e dos sonhos — usa exemplos extraídos da antropologia e que Georgette e John são antropólogos. Ou estará Rebecca Miller querendo explicitar que seu filme — como um livro de antropologia -—disseca as motivações e o comportamento de um tipo determinado de nova-iorquino, o acadêmico? Naturalmente, pode não haver mensagem alguma.

Na cama, John e Maggie lêem antes de dormir. No caso de John, é The Paris Review  que ele segura nas mãos.

O Plano de Maggie é filme para um determinado nicho de mercado: o público que acredita serem os livros objetos — seres? — lúdicos e que avalia terem eles o poder de criar vínculos entre as pessoas. Saí do cinema plenamente satisfeito.

O Plano de Maggie – Ficha técnica IMDb

maggies_plan_ver2

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro

Oscar Wilde e o melhor Bellini do Rio de Janeiro

Noite chuvosa e fria de sábado no Rio de Janeiro. Tenho entradas para assistir A Importância de Ser Perfeito no Teatro do Leblon. Já assisti, creio que há dois anos, essa mesma produção da peça atemporal de Oscar Wilde, The Importance of Being Earnest. Dirigida por Daniel Herz e traduzida e adaptada por Leandro Soares, é uma versão brilhante e muito divertida. Conta com a presença inesquecível em cena de George Sauma, no papel de Gwendolen, que vira Patrícia nesta montagem. Sim, porque uma característica da produção é que mesmo os papéis femininos são representados por homens. O resultado é que o tom de escracho da peça aumenta; as roupas e a maquiagem de “grand guignol” usados pelos atores causam o mesmo efeito.

Abaixo, o cartaz da produção da peça no Rio de Janeiro. Não sei em que momento esteve no Teatro de Arena da Caixa Cultural. Foi já no Teatro do Leblon que a vi anteriormente, na Sala Marília Pêra. Atualmente, está na Sala Fernanda Montenegro. Esta é uma montagem que se presta particularmente bem a uma arena pequena.

a-importncia-de-ser-perfeito

A peça de Oscar Wilde é verdadeiramente anárquica. Por intermédio de comédia e falas espirituosas questiona todos os princípios valorizados pela sociedade vitoriana: o casamento, o amor, a amizade, a relação entre pais e filhos, a igreja anglicana, o exército (Algernon é filho de um General), a posição social e a estabilidade política (quando a figura imperiosa e esnobe de Lady Bracknell, mãe de Gwendolen, condena a Revolução Francesa, o espectador automaticamente passa a ter a opinião contrária). A peça é um fenômeno porque usa a comédia para criticar o que não pode ser criticado. Em sua estréia, em 1895, estavam presentes representantes da elite social, política e econômica de uma Inglaterra no auge de seu prestígio e influência no mundo. Foram ao teatro para ver os seus valores serem gentilmente ridicularizados.

Nesse sentido, The Importance of Being Earnest se parece com a peça de Beaumarchais Le Mariage de Figaro, sobre a qual a Baronesa d’Oberkirch diria em suas Memórias que a nobreza se precipitava em ir assisti-la, na estreia em 1784, e que depois se arrependeria (“Ils ont ri à leur dépens… ils s’ent repentiront plus tard“). Ela mesma não se eximiu de ir e escreveu que Le Mariage de Figaro era algo tão espirituoso, que chegava a ser “étincelant, un vrai feu d’artifice“, o que seria uma boa maneira de também resumir The Importance of Being Earnest.

No caso da peça de Wilde, foi o autor quem sofreu as consequências da sua tendência a debochar das convenções sociais. A estreia foi o canto do cisne de Wilde. Em seguida, viriam a denúncia, o processo, o escândalo, a infâmia e a prisão. Para o espectador minimamente bem-informado, portanto, o tom espirituoso da obra traz – ou deveria trazer – um elemento de tristeza.

Assisti a The Importance of Being Earnest pela primeira vez em Londres, no National Theatre (hoje, Royal National Theatre, mas o nome original ainda é o mais usado, inclusive pelo próprio teatro), em uma famosa produção dirigida por Peter Hall e na qual Judi Dench era uma soberba Lady Bracknell e Nigel Havers (vindo diretamente da sua então recente celebridade como um dos atores do filme Chariots of Fire) e Zoe Wanamaker estavam marcantes como Algernon e Gwendolen.

Em 2004, assisti a uma produção em Washington:

wp-1488971995760.jpg

O programa da produção em Washington cita frase de Borges, segundo quem The Importance of Being Ernest “é mais do que uma comédia, é uma forma verdadeira de felicidade”.

Assisti a outra produção em Londres, em 2008, no Vaudeville Theatre, muito satisfatória, com Penelope Keith como Lady Bracknell. O mesmo teatro apresentou nova montagem em 2015, que não vi, com um ator, David Suchet, no papel de Lady Bracknell. O programa da montagem de 2008 reflete o luxo daquela produção:

wp-1488971834516.jpg

Reparem, na foto abaixo, no cenário em que John, de joelhos, se declara a Gwendolen:

wp-1488971918538.jpg

Das versões cinematográficas, a de 1952, dirigida por Anthony Asquith, me agrada mais do que a de 2002, dirigida por Oliver Parker, luxuosa e com elenco estelar (Colin Firth, Rupert Everett e Judi Dench novamente como Lady Bracknell), mas talvez excessivamente solene, apesar da inclusão de uma cena picante: logo no início do filme, Algernon e Jack se encontram em um espetáculo de cancan.

Lendo o programa, que guardei, da produção no National Theatre, vejo que registrei sobretudo a beleza da atriz que fazia Cecily, Elizabeth Garvie. Eu era adolescente. O desenho revela um detalhe importante da trama:

20161114_153500.jpg

Na fria e chuvosa noite de ontem, sábado, fui então ao teatro com um pequeno grupo. Chegamos cedo. É sempre bom, na galeria onde estão as salas do Teatro do Leblon, sentar-se em um bar e entrar na livraria Sabor Literário.

E aí começaram as surpresas.

A livraria fechou. Porta trancada, tudo apagado. Grudei no vidro, olhei dentro. Havia apenas umas poltronas e umas mesas baixas. Nem estantes, nem livros. Vi umas poucas caixas de papelão, presumivelmente guardando o que sobrara dos livros. Quando uma livraria fecha, sempre me pergunto aonde foi parar o estoque. E questiono por que não foi parar em minha casa.

Tirei a foto abaixo:

20161113_123113.jpg

Posso ser visto segurando o celular, atrás do “L”. Noto agora que outro homem, de camisa cor-de-rosa, atrás do “T”, também olha para a cena desoladora. Fui pegar as entradas e perguntei sobre a livraria. “Fechou no mês passado”, me disseram.

Esta é a segunda livraria que encontro fechada, extinta e vazia em quatro dias. A primeira foi em Brasília, na terça-feira, dia 8 de novembro, quando me deparei com a desaparição da livraria do CCBB.

Leio em O Globo, na coluna do Ancelmo Gois de hoje, que “entre 12 de setembro e 9 de outubro, houve queda de 14,1% na venda de livros, na comparação com o mesmo período do ano passado”. Temo que em breve esbarrarei em outras livrarias fechadas.

Os pastéis e a lingüiça, no bar, estavam perfeitos. O suco de abacaxi com hortelã também. Entradas de teatro, mesmo as mais simples, são a promessa de um mundo intenso, em que livrarias só fecham de mentirinha:

20161113_144038.jpg

São quase 21:00 h, o espetáculo vai começar. Entrar em uma sala de teatro é sempre uma experiência sedutora para mim. O fato de eu conhecer o texto praticamente de cor e de já ter visto essa produção não muda nada, talvez até aumente a expectativa. Entro e vejo a sala gradativamente lotando e tiro uma foto enquanto vamos aos nossos lugares:

20161113_124534.jpg

Naturalmente, não há programa, mas isso no Brasil é tão comum que já não espero que haja. A tensão aumenta, a peça vai começar, aliás já está um pouco atrasada.

Tenho tempo de tirar algumas fotos do cenário, fico me perguntando qual delas é melhor… Acho que esta:

20161113_125050.jpg

Presumivelmente, o carrinho da direita servirá para que Algernon e seu mordomo sirvam o chá a Lady Bracknell e Gwendolen.

Nisso, aparecem quatro ou cinco dos atores em cena e se dirigem à beira do palco. Estão maquiados e vestidos para seus papéis e acompanhados de uma moça de preto que tem, somos informados, um aviso a nos comunicar. O choque é direto e abrupto: “gente, um dos atores tem um problema de saúde e não apareceu hoje… estamos tentando falar com ele o dia todo e nada… infelizmente o espetáculo hoje terá de ser cancelado”. Sorrio, encantado com o artifício da produção: causar uma má surpresa, para em seguida rir de contentamento por ter feito troça dos espectadores e começar o espetáculo. Infelizmente, estou equivocado. É tudo bem sério, os atores declaram estar tristes de não poderem, naquela noite, fazer o que mais amam, que é atuar. A gerente, a moça de preto, informa que podemos pedir o dinheiro de volta na bilheteria.

A plateia aceita tudo calmamente, um espectador sentado na segunda fileira, bem na minha frente, diz em tom gentil: “Bem, ficamos só tristes de saber que um dos atores está doente, não é culpa de ninguém”. Dentro de mim, concordo, mas fico me perguntando se só eu sinto falta de uma figura fundamental em toda produção teatral. Penso: “mas como, não há um substituto? Não existe o understudy?”. Lembro de All about Eve (A Malvada), talvez o melhor filme jamais feito sobre a vida teatral, em que o personagem de Ann Baxter, Eve, amiga, confidente e assistente da atriz de teatro interpretada por Bette Davis, consegue fazê-la perder uma representação, para poder substituí-la no palco. Como tramou tudo, convidou críticos teatrais para assistirem justamente a essa representação. E como estudou bem o papel, sua atuação é excepcional e sua carreira deslancha. “Nada disso vai acontecer aqui hoje?”, penso na terceira fila. Por respeito aos atores, decido não fotografá-los, inclusive porque, por eliminação, posso deduzir qual deles está faltando hoje e não quero colocá-lo na berlinda.

Saio com meu grupo. Todos vão se sentar novamente no bar da galeria, enquanto faço a fila na bilheteria, triste e torcendo para que a doença do ator não seja grave. Ouço a senhora da bilheteria explicar ao casal na minha frente que, nos casos de entradas compradas por um sítio na Internet, o cliente deve pedir o reembolso pelo sítio. Dirijo-me à mesa onde estão meus amigos, meditando sobre o fato de o teatro transferir para o público o ônus de conseguir seu dinheiro de volta e sobre o trabalho que isso vai me dar e avaliando ser remota a probabilidade de que eu recupere o dinheiro.

Sento-me à mesa. Uma amiga no grupo, psicanalista, olha para mim calmamente e declara: “Hora de ir ao Brigite’s tomar um Bellini, para que tudo melhore”, pondo em palavras meu pensamento preciso naquele instante. Sei o que os dois leitores deste blog estarão a pensar: “Dar-se com psicanalistas é assim… eles olham para nós e adivinham o que sentimos, pensamos e queremos… um perigo, isso”. Não, caros leitores. A percepção de minha amiga psicanalista não foi nem mágica nem profissional. Apenas, ela foi ao Brigite’s pela primeira vez, há poucos meses, levada por mim, e lá expliquei-lhe que o Bellini daquele restaurante e bar é o melhor da cidade. Sabe, por isso, do meu apreço pelo local e pelo drinque. Como boa amiga, desejava levantar meu moral e curar minha decepção.

Vamos ao Brigite’s… lotado, gente na porta esperando. Acontece que havia duas senhoras no nosso grupo, uma delas minha mãe; havia também uma de minhas sobrinhas, bela, simpática e charmosa. Usando o argumento das duas senhoras, a jovem magicamente conseguiu uma mesa para nós. O Brigite’s é o lugar no Rio mais parecido com Búzios, e se o vento da praia da Ferradura já estragou um livro meu, não há de ser isso que vai mudar meu amor pelo balneário e por tudo que me faça pensar nele.

Chega o Bellini… menos bom do que o habitual, embora decente. A amiga psicanalista novamente me olha e comenta: “Com a idade, vai-se perdendo o paladar, acho”. Fico atônito e declaro: “Estava justamente pensando nisso”. Como meus dois leitores, começo a pensar que a psicanálise dá a seus praticantes poderes mágicos de adivinhação… O drinque pode ter estado menos bom do que o original, mas estava bom o suficiente para ser apreciado. Dos copos que aparecem na foto abaixo, o mais vazio é o meu:

20161113_135729.jpg

Chamo o garçom e digo: “o Bellini hoje está um pouquinho sem sabor. Foi feito pelo barman habitual?” O garçom, extremamente amável, diz que o barman de sempre, Leo, está no bar, mas que vai verificar se os drinques foram preparados por ele ou um dos ajudantes. Minha bela, simpática e charmosa sobrinha me diz: “Isso não foi gentil”. Fico surpreso: “Como, eu não fui gentil com ele?” Ela: “Ao contrário, você foi super-educado, mas reclamar, mesmo educadamente, nunca é um ato gentil”. Medito sobre essa filosofia, e nisso chegam os pratos. Divido com a amiga psicanalista (ela adivinhara o que eu ia pedir), um bacalhau à romana, excelente.

De repente, aparece Leo junto à nossa mesa. Pergunta, muito atenciosamente, com um sorriso, o que acontecera com os drinques e comenta que não os fizera ele próprio. A amiga psicanalista quer outro (eu também!), minha sobrinha está dizendo a Leo que o Bellini estava ótimo, que nunca tomara um tão bom (ela nunca tomara um na vida, mas nada digo a respeito), então fico na dúvida sobre como responder ao barman. Leo tudo resolve, informando: “Vou eu mesmo fazer novos Bellinis para vocês todos, e esses serão por conta da casa”.

Enquanto esperamos, pedimos sobremesas. A minha, um suflê de chocolate com avelã, estava excepcional.

Chega a segunda rodada de Bellinis. Excelentes. Tudo parece estar voltando ao ponto certo. Todos estamos felizes. Na mesa ao nosso lado, um casal de namorados apaixonados faz pensar no futuro.

Levantamo-nos para partir. Ao sair, paro no bar e agradeço a Leo. Ele nunca saberá, a não ser que eu comente com ele em uma próxima visita ao restaurante, mas seu profissionalismo e sua simpatia transformaram uma ida ao teatro decepcionante em uma noite agradável. Prestes a enfrentar a chuva e a disputa por taxis na rua, noto duas imagens novas na parede do Brigite’s, mostrando o Rio em seu esplendor. A foto da esquerda é da Pedra do Arpoador; a Praia do Arpoador é a que eu frequentava na adolescência e no começo da vida adulta, pois meu pai morava no bairro. Paro um segundo frente à foto, penso no meu pai com carinho e saudade.

Saímos todos. Chove forte, mas há vários taxis na porta do restaurante. A vida pode ser inacreditavelmente perfeita.

wp-1479057065466.jpg

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Museu de Arte Islâmica, Doha

Em outubro de 2016, em minha viagem a Goa, fiz escala em Doha, onde meditei sobre o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan, a forma como ele canta Full Moon and Empty Arms  e se Alfred de Musset tinha ou não razão em achar que a lua cheia, vista sobre uma torre, se parece a um pingo no “i”. Houve também tempo suficiente para eu conhecer o extraordinário Museu de Arte Islâmica.

Como salientou Alexander Sokurov em seu Francofonia, os grandes museus – e o Louvre, objeto do seu ensaio filmado, é provavelmente o mais famoso e maior dos museus – passam a simbolizar a cidade onde se situam e se tornam os depositários da arte, da história, da civilização, da própria vida humana.

Esse é o caso do Museu de Arte Islâmica de Doha, conhecido como MIA (acrônimo de seu nome em inglês), obra do arquiteto I.M. Pei – o mesmo, cabe recordar, da pirâmide do Louvre – e inaugurado em 2008.

O edifício, inspirado na arquitetura islâmica tradicional e que, por parecer emergir do mar, faz-me pensar também em um palazzo veneziano, é, em si, uma obra-prima:

mia

Vejam agora o interior, mais especificamente o café (no último andar, há também um restaurante do Alain Ducasse):

museum-of-islamic-art

A coleção, compacta, é extremamente variada, as peças são, muitas delas, excepcionais, e o museu tem o claro propósito de preservar uma civilização. Um painel, que me arrependo de não ter fotografado, avisa que o MIA pretende oferecer um panorama sobre “as diferentes culturas que formaram a civilização islâmica”.

Fiz a visita usando a câmera do celular profusamente… Não há restrição à fotografia. Depois de um certo tempo, dei-me conta de que estava favorecendo peças onde a escrita tem um lugar importante. Hábito de apreço por textos ou fascínio pela arte da caligrafia?

Vejam o exemplo abaixo, um Alcorão chinês do século XVII:

quran

O museu possui numerosos manuscritos, muitos antiquíssimos, onde a junção da imagem e do texto forma obras de arte de uma beleza impenetrável.

Às vezes, a simples escrita produz um impacto forte, como no belíssimo manuscrito abaixo do Alcorão, da Península Arábica, do século VII ou do começo do século VIII, portanto talvez contemporâneo de Maomé, na escrita hijazi. Podemos imaginar a fé do escriba, as condições em que produziu o texto, talvez seu orgulho com a beleza da sua caligrafia.

wp-1478103738759.jpg

Quando eu era estudante em Londres, frequentava assiduamente a National Gallery e passei muitas tardes nas salas dos primitivos italianos, pelos quais sentia na época forte atração. Vendo os quadros de temática religiosa de Cimabue, Duccio e seus contemporâneos, eu me perguntava até que ponto eles eram acessíveis aos turistas orientais. Eu mesmo – embora criado em um ambiente cultural católico e ocidental – ia ao museu, frequentemente, com meu exemplar do Dictionary of Subjects and Symbols in Art, de James Hall, debaixo do braço, para ler sobre conceitos misteriosos como a Transfiguração, bem menos claros para mim do que para pintores italianos do século XIII.

Hoje, quando visito exposições ou coleções de arte oriental ou arte islâmica, tenho consciência de só estar captando parte da mensagem ou mesmo da beleza de cada obra. De museu em museu, porém, o grau de conhecimento – ou ao menos de curiosidade – vai aumentando. Com toda manifestação artística é assim: quanto mais se vê, mais se aprende e mais se quer saber.

As duas jarras abaixo, por exemplo, não criam questionamentos. São belíssimas em sua simplicidade, oriundas do Iraque e feitas no século VIII ou no século IX. Podem ser admiradas sem indagações filosóficas.

20161101_232055.jpg

Outros objetos, embora mais elaborados, podem, como os jarros, ser admirados apenas pela sua beleza, como o galo de bronze abaixo, folheado a ouro, espanhol, dos séculos X ou XI,  que provém de uma fonte:

20161101_231627.jpg

O falcão abaixo, indiano do século XVII, é uma das peças famosas do museu, por causa de seu luxo absurdo: é feito de ouro, esmalte, rubis, esmeraldas, diamantes, safiras e ônix. Trata-se de uma jóia, que provocará cobiça em alguns, mas certamente não dúvidas existenciais. Vê-lo em Doha faz algum sentido, por causa da obsessão no Catar com os falcões, transformados em animais domésticos e símbolos de status. Há toda uma ala do souq, em Doha, voltada à venda de falcões, que possuem lá mesmo o seu próprio hospital.

wp-1478096163024.jpg

Há mais poesia nesta cabeça de uma estátua iraniana do século XII:

20161102_122632.jpg

O  azulejo abaixo coloca algum grau de questionamento. É turco ou sírio, do século XVI. Fiquei intrigado com o tom de azul, que a foto não reproduz corretamente. Também surpreendentes são os desenhos. Quão usual é esse modelo? Simboliza algo ou é apenas  tirado da imaginação individual do artista?

20161102_114720.jpg

Com os manuscritos, a impenetrabilidade aumenta. Abaixo, vejam uma página do livro As Maravilhas da Criação e Curiosidades da Existência, escrito no século XIII, conhecido como a Cosmografia de Qazwini, do nome de seu autor. O MIA se orgulha de possuir o que é, provavelmente, o exemplar mais antigo ainda disponível (quatro páginas estavam expostas). A Biblioteca Digital Mundial informa ser esse “um dos livros mais conhecidos do mundo islâmico”. Coloquei um  filtro na foto, para tornar mais nítidos os detalhes da aquarela:

A pintura abaixo, ostensivamente, não apresenta mistérios. Seu título é O Mestre em Luta Livre Desafiado pelo seu Discípulo, o artista é Mahmud Muzahhib, de Bukhara, no Uzbequistão, e a obra é datada de 1560-1561. A plaquinha do museu nada mais diz a não ser que os materiais utilizados são tinta, aquarela e ouro em papel.

wp-1477948543195.jpg

Tentei vários filtros, nenhum torna os rostos mais nítidos, mas está claro que o vencedor foi o Mestre. O homem sendo levantado ao ar é mais jovem do que o outro. O Mestre foi desafiado por um discípulo e venceu.

Uma parábola sobre a arrogância da juventude e a sabedoria dos mais velhos? Certamente. Uma pesquisa na Internet, porém, revelou mais detalhes. A pintura foi leiloada em 4 de outubro de 2012 (quando, suponho, o MIA a comprou) pela Christie´s de Londres e o catálogo com informações sobre a obra ainda está na sua página eletrônica. A estimativa de preço era entre 100.000 e 150.000 libras esterlinas; a pintura foi vendida por 181.250 libras. Informa a Christie´s: “This miniature illustrates one of the best known stories from the Gulistan of Sa’di, (bab 1 hikayat 27)”. O Golestan (“Jardim de Rosas“), escrito por Sadi no século XIII, é talvez o livro em prosa mais importante da literatura persa. Em abril, em Teerã, eu visitei o Palácio de Golestan e fiquei me perguntando se o nome do Palácio é uma referência não só aos seus jardins, mas também ao livro.

Continuemos com a transcrição que o catálogo da Christie´s faz do conto sobre o mestre em luta livre no Golestan (resumo a estória): um grande mestre em luta livre conhecia 360 truques, dos quais ensinou 359 ao seu discípulo predileto, por quem tinha “uma particular afeição”. Graças ao aprendizado com seu mestre, o aluno tornou-se altamente hábil em luta livre, a ponto de declarar-se tão capaz quanto ele. O rei, chocado com a pretensão do discípulo, ordenou que eles disputassem uma luta, que o mestre venceu graças ao único truque que não ensinara. O aluno declarou-se injustiçado, por não ter recebido esse ensinamento do mestre, ao que este retrucou que fizera bem em não compartilhar todo o seu conhecimento, citando a seguir um poema: “Ou a fidelidade não existe neste mundo ou ninguém a pratica mais, pois todos aqueles a quem ensinei tiro com arco e flecha, em algum momento me tomaram como alvo”.

Sobre a pintura abaixo, indiana de 1595 e intitulada Um Poeta Sendo Descartado por um Príncipe (‘spurned’, na versão em inglês da placa no museu; o verbo pode ser traduzido também como ‘desprezado’ ou ‘rejeitado’), nada encontrei na Internet, e a mensagem subjacente à cena é obscura: a frieza dos poderosos frente às artes, a inocência sendo derrotada pelas artimanhas do poder ou uma estória de amor mal-sucedida? Devemos supor que um destino não muito bom espera a eloquente figura humana sendo retirada do cenário no canto inferior direito, mas o quê: a morte, a miséria, o exílio, penas de amor? A escrita na pintura deve elucidar tudo isso, e esta é a ilustração de algum conto ou poema conhecido no mundo islâmico, contido na coletânea (diwan) de poesia de Amir Shahi, mas para mim permanece o mistério.

wp-1478099881754.jpg

Prefiro terminar este passeio pelas coleções do MIA com uma pintura indiana do século XVI que apresenta uma visão mais serena da vida, sem conflitos ou rivalidades:

wp-1478048894815.jpg

A cena representa dois músicos sentados sob uma árvore florida. Esperemos que pertencessem a uma corte ilustrada, onde houvesse espaço para que vários músicos  fossem valorizados e pudessem mostrar seu talento, sem intrigas ou competições.

Ao sair do museu, ao anoitecer, vi a seguinte imagem, tão serena quanto a dos músicos, embora povoada de vida; e com ela encerro:

20161102_133345.jpg

Em 2021, eu escreveria também sobre o Museu de Artes Islâmicas de Kuala Lumpur, em Os bois de Mirza Babur

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

No Fim do Túnel – Rodrigo Grande

Após ver este estupendo filme, procurei nos jornais argentinos, pela Internet, a reação do público. Encontrei, entre outros comentários, este: “buena película, mantiene el interés hasta el final, recomendable, entretenida, muy bella la chica”. Ri muito com o resumo feito por esse espectador argentino. Pensei também que seria uma pena se a beleza da atriz espanhola Clara Lago desviasse a atenção de sua interpretação como Berta, alma perdida em busca, sem sequer saber disto, de redenção.

O diretor Rodrigo Grande conseguiu, de todos os atores, e não só de Clara Lago, interpretações magníficas, do Joaquín de Leonardo Sbaraglia, ao Galereto – líder de um grupo de bandidos – de Pablo Echarri, passando pelo policial altamente perturbador de Federico Luppi. Até os intérpretes de papéis secundários deixam uma lembrança forte. E o que dizer do personagem canino, Casimiro? Sua existência é determinante para algumas guinadas da trama.

Tudo é bem trabalhado em Al Final del Túnel: além das interpretações, há o roteiro, também de Rodrigo Grande, a fotografia e a direção de arte. Em todas as cenas, há um detalhe que as torna belas ou visualmente impactantes. Em algumas, há um vaso de flores, no canto, que poderia quase passar desapercebido, de tão discreto, só que está lá justamente para completar a imagem, torná-la mais rica. Na cena final, a junção de vários tons de vermelho é belíssima.

Este é um filme cujas referências artísticas são conhecidas e declaradas, inclusive em entrevistas de seu diretor: Poe, Hitchcock, Tarantino… A cadeira de rodas de Joaquín e sua espionagem dos vizinhos são clara homenagem ao Hitchcock de Janela Indiscreta. As cenas de violência – e há uma muito chocante, para a qual o diretor vai nos preparando, sadicamente, durante alguns minutos – remetem a Tarantino.

As influências cinematográficas sobre Rodrigo Grande são muito comentadas pela imprensa; por isso, eu me interessei mais pelo papel importante que ele concede à literatura. A casa de Joaquín é povoada de livros, jogados por toda parte. Apenas dois são focalizados pela câmera: os Contos de Poe e A Ilha do Tesouro (afinal, o tema que conduz a narrativa é o roubo de um banco). Um dos prazeres do filme é ver como Berta, pouco a pouco, vai arrumando as centenas de livros nas estantes; a cada cena, os cômodos estão menos bagunçados e os livros mais bem organizados. Esse detalhe é importante, pois o filme é passado quase todo no interior da casa. Os livros vão sendo arrumados, e o cenário vai ficando mais bonito e, ao mesmo tempo, mais arejado e iluminado. É possível que haja mais de uma parábola nisto. De um lado, os livros, que antes eram uma demonstração de confusão e desleixo, passam a enriquecer, embelezar a vida, dar-lhe serenidade. De outro, o afã de Berta em organizá-los sugere que o amor entre os dois protagonistas está surgindo e crescendo, sem que eles percebam (Berta, ostensivamente, ama outro homem, e percalços da vida tornaram Joaquín um solitário… como já comentei antes, este é um ano farto em filmes sobre a solidão).

Há uma cena muito comovente em que Berta, apesar de todas as evidências em contrário, à luz de sua profissão como bailarina de strip-tease, afirma a Joaquín que a casa de seu pai, no interior, é cheia de livros. Pode até ser verdade, mas não soa crível. O propósito da frase, para Berta, é fazer com que Joaquín a aceite. Os livros, assim, são a forma de aproximação entre os dois protagonistas. A biblioteca – e vale notar que Berta, a bailarina de casa noturna, manuseia os livros, para arrumá-los, e fala neles com respeito, ao mencionar o pai, mas que Joaquín, em sua decadência, não parece se interessar por eles – passa a ser um personagem, que intermedeia a relação dos protagonistas.

Uma homenagem não só a Stevenson e a Poe, portanto, mas aos livros e à literatura como um todo. E mais do que isso: apesar de toda a violência e da perversidade e da crueldade de alguns personagens, este é um filme que fala da beleza da vida, e de como recuperá-la em circunstâncias sombrias.

Resultado de imagem para final del tunel

No Fim do Túnel – Ficha técnica

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Os Bragança de Chandor

Iniciar por Goa uma primeira visita à Índia é, para um brasileiro, experiência marcante. De um lado, vê-se a Índia como a imaginamos: vegetação luxuriante, vacas passeando calmamente pela rua, atrapalhando o trânsito, um sem fim de motos buzinando. De outro, nomes portugueses de pessoas, nomes portugueses de lugares e capelinhas ou altares católicos pelos cantos, em profusão.

Como tanta coisa na Índia, Goa é antes de mais nada um estado de espírito. É um estado pequeno na costa Oeste – o menor da Índia – e é também um lugarejo, agora conhecido como Velha Goa, remanescente da antiga e dinâmica capital da Índia portuguesa, “a Roma do Oriente”, que chegou a ter 200 mil habitantes e hoje abriga cerca de 5 mil. Do antigo esplendor, restam as igrejas barrocas. É importante lembrar que Camões lá morou e que Afonso de Albuquerque, que lá morreu, é quem conquistou a região, em 1510, para os portugueses (“Toma a ilha ilustríssima de Goa!”, diz o verso do Canto X dos Lusíadas, referindo-se a alguma das ilhas na desembocadura do rio Mandovi) e foi recompensado com os títulos de vice-rei da Índia e de duque de Goa.

Das igrejas, pude na semana passada visitar duas, a Basílica do Bom Menino Jesus – o nome é esse mesmo; estamos na Índia, mas estamos em Goa – e a Sé. As duas são separadas por uma estrada ao longo da qual, nos dois lados, correm gramados bem cuidados, protegidos do asfalto por cercas pintadas de branco. O espírito bucólico dos jardins é o oposto do que acontece na estrada, onde há ruído, buzina, motos, carros e ônibus.

20161022_123216

E agora, vejam esta foto, tirada em uma rua transversal à estrada, ladeando o gramado mostrado acima, mas que revela universo contrastante:

20161023_110740

Todas as fotos que tirei da fachada da Basílica ficaram ruins, possivelmente porque os cartazes de cada lado da porta principal me pareceram incompatíveis com a beleza do edifício, e resolvi que qualquer foto seria estragada por eles, mas esta talvez dê uma ideia da imponência da igreja:

20161017_171903

O interior é igualmente belo:

20161022_122941

O arco à direita leva ao túmulo de São Francisco Xavier, que viveu em Goa e morreu na China mas teve seu corpo aqui enterrado, após algumas peripécias: em apenas um ano, entre dezembro de 1552, quando morreu o futuro santo, e dezembro de 1553, quando foi enterrado na Basílica em Goa, o corpo passou por túmulos na China e em Málaca.

Do outro lado da estrada, dentro da Sé de Velha Goa, o interior é ainda mais magnífico:

20161023_105600

Do que vi em Goa, nada me chamou mais a atenção do que a casa dos Menezes Bragança, na aldeia de Chandor, no interior do estado, a Leste da costa.

Quando os portugueses chegaram à Índia, no século XVI, não faltaram membros da elite local para se associar a eles. Essas famílias converteram-se ao catolicismo e no batismo adotaram nomes portugueses. Uma delas passou a se chamar Bragança, dividindo-se posteriormente em dois ramos, Menezes Bragança e Bragança Pereira. As famílias da casta dos xátrias (guerreiros) convertidas ao catolicismo, como os Bragança, são conhecidas como chardós.

Quando a família adotou o nome da família real portuguesa? Goa virou colônia em 1510; os Bragança subiram ao trono em 1640. A família hindu passou a apoiar os portugueses depois de 1640 e aí adotou o sobrenome real ou já seria aportuguesada e católica anteriormente, passando apenas a adotar novo sobrenome depois dessa data?

A casa dos Menezes Bragança, que pertence ainda à família, é considerada a mais imponente das que sobrevivem do período colonial. No dia da minha partida de Goa, decidi sair cedo do hotel, e seguir no taxi um desvio por Chandor… em resumo, fui ao Norte passando pelo Leste. A caminho de Chandor, passei por uma agitada cidade de nome Margão e por estradas vicinais praticamente desertas.

A casa fica isolada no campo, rodeada apenas de alguns monumentos indo-portugueses e de uma feíssima igreja católica. Julguei que apenas os dois monumentos mereciam ser fotografados. Um deles, me disseram, é o mausoléu da família (não sei qual dos dois):

20161023_200505

20161023_201305

Os vários cabos de eletricidade entrecruzando-se no ar me fizeram pensar no Brasil.

Em frente a esses dois monumentos, mas na diagonal, encontra-se a casa:

20161018_110121

Esta é apenas uma parte da fachada, que é belíssima em seu estilo indo-português. Passada a porta de entrada, o acesso ao andar principal não poderia ser mais despojado:

20161018_102842

Fui recebido pela Sra. Judith Borges, membro da família, que me acompanhou na visita. É proibido fotografar o interior da casa, mas minha guia abriu exceção para mim, deixando-me tirar três ou quatro fotos; para cada uma, precisei mendigar arduamente. Recebi autorização para publicá-las neste blog. Foi uma experiência única, conversar no interior da Índia com uma senhora indiana (“não temos uma gota de sangue português”, disse-me ela, em tom neutro), que fala um português de Portugal perfeito, fluente e sem acento.

A Sra. Borges contou-me a estória da família: aliados ao portugueses durante a conquista e   a consolidação da colônia, tornaram-se nacionalistas durante o processo de independência da Índia. O membro mais ilustre da família pode ter sido Luís de Menezes Bragança (1878-1938), escritor e ativista anticolonialista, nascido na casa, a qual viria a herdar de seu avô materno, Francisco Xavier de Bragança, moço fidalgo, de quem há em uma parede  – não pude fotografá-lo – um retrato sentado, ostentando numerosas ordens e condecorações. Goa foi incorporada à Índia em 1961. No ano seguinte, segundo minha guia, a reforma agrária privou a família de sua fonte de renda principal.

A casa, construída há 380 anos, contém tesouros em móveis, prata e porcelana. Dois vasos pertenceram a São Francisco Xavier. Mostro na foto abaixo a enfileirada de salas:

20161018_103120

O retrato é o de Luís de Menezes Bragança. Pensei em pedir autorização para afastar a cadeira branca de plástico, julgando que a foto, assim, produziria cena mais homogênea. E aí percebi que isso seria um erro, pois a cadeira de plástico dá o toque divergente, humano.

O jornal inglês The Independent publicou, em 2003, artigo bem informativo, mas com erros factuais, sobre a casa, dando-lhe o título exagerado – ou sarcástico  – de The Lost Versailles of the Jungle. O artigo foi fator determinante para minha decisão de visitar o palacete dos Menezes Bragança. De certa forma, entendi a razão do título ao ver o salão de baile: longo, com uma sucessão de espelhos (“vindos da Bélgica”, disse-me Judith Borges), de janelas e de candelabros venezianos, lembra mesmo uma versão reduzida da Galerie des glaces de Versalhes. Recebi autorização para fotografar não o salão todo, mas o canto de que mais gostei, por causa do piano e os porta-retratos que, uma vez mais, humanizam:

20161018_104121

Como no caso da cadeira de plástico branco, o fio de eletricidade comove pela simplicidade.

Em retrospecto, percebo que deixei de fazer perguntas à minha guia que poderiam ter me ajudado a conhecer melhor a colonização portuguesa em Goa e o processo de integração à Índia independente. Por exemplo, vejam a foto abaixo:

20161023_195646

O buraco na parede (há outro igual do outro lado da janela) servia, voluntariou minha cicerone, para inserir armas de fogo. Para proteger a casa de quem, pergunto-me agora… quem era o inimigo?

Não há restrições para fotografar o pátio interno. Das muitas fotos que dele tirei, escolho esta abaixo, porque mostra a janela coberta de madrepérola, material utilizado antes da popularização˜do vidro em Goa e que ajudava a proteger do calor e a diminuir a intensidade da luz:

20161018_103923

A visita é gratuita, mas a família pede uma contribuição voluntária, para ajudar na manutenção da casa. Na saída, no salão verde retratado acima, Judith Borges apontou para uma caixa retangular de madeira, onde eu deveria colocar o dinheiro. Pensei em uma estória que li sobre Chopin, na adolescência: aristocrático, sobrevivia em Paris dando aulas de piano a moças nobres. Ao terminar as aulas, virava as costas para suas alunas, enquanto elas depositavam o pagamento sobre a lareira. Estávamos em plena era romântica, Chopin tinha suscetibilidades que deviam ser preservadas. A estória é narrada por Harold  C. Schonberg em seu The Lives of the Great Composers, onde acabo de relê-la: “Elegant pupils would enter Chopin’s studio and put theit twenty or thirty francs on the mantelpiece while he looked out of the window. He was a gentleman and gentlemen did not soil their hands with anything as vulgar as business transactions”.

Deixei 500 rúpias na caixa de madeira. Fiquei me perguntando se era pouco. Pelo meu contentamento, nunca seria demais. Judith Borges deu-me seu cartão, mas não há endereço eletrônico nem número de celular indicados, então a opção de eu obter respostas a minhas atuais indagações históricas sobre Goa e sobre a casa por meio de mail ou de whatsapp não existe.

O cartão, na verdade, é ainda o de Aida de Menezes Bragança, nora do jornalista e escritor anticolonialista e também sua prima, pois nascera no outro ramo da família, os Bragança Pereira. Falecida em 2012 aos 95 anos, tia de Judith, Aida foi objeto, em 1998, de um documentário, A Dama de Chandor, dirigido por Catarina Mourão. Declara no filme: “Fui colocada em um internato em Paris [isso terá disso em torno de 1930] e as pessoas lá me perguntavam sobre Gandhi. Eu não sabia quem ele era e explicava: ‘Eu sou da Índia portuguesa, não da Índia inglesa’ “.

No taxi, indo ao aeroporto, comecei a pensar no que vira e nas questões que me povoavam a mente, sobre o palacete, a família, a colonização, a integração à Índia. Junto com indianos, esperei o trem passar:

20161018_110923

20161023_152916

Passei por este lago, o próprio retrato da serenidade:

20161023_193443

Cheguei ao aeroporto meditando ainda sobre a História e a grandeza desse país, desde sempre objeto das cobiças e devaneios alheios, e dizendo para mim mesmo: “De fato, Incredible India‘”.

 

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Bob Dylan encontra a lua e Alfred de Musset em Doha

O Prêmio Nobel de Literatura para Bob Dylan parece contar com unanimidade, o que não é tão surpreendente: quem ousaria, sob o risco de parecer retrógrado, condenar a Academia Sueca por ser inovadora e fazer um aceno a um compositor popular e idolatrado? Por enquanto, li apenas uma voz discordante, a de Anna North no New York Times, mas o jornal publicou também artigos elogiando a escolha.

Coloco esta foto, que tirei em Doha ontem, em homenagem a Dylan, por causa de uma canção que ele canta magistralmente, Full Moon and Empty Arms.

20161015_080937

A canção não foi composta por ele. É de 1945 e foi gravada por Sinatra e posteriormente por vários outros cantores. A melodia é de Ted Mossman e a letra é de Buddy Kaye. Bem, dizer que a melodia é de Ted Mossman é generosidade, pois é fortemente inspirada, se não copiada, do terceiro movimento do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff. Ted Mossman parece ter sido um popularizador de composições alheias e em seu tempo nem sempre foi elogiado por isso.

Vejam neste artigo do ano passado de cmuse.org como o Concerto de Rachmaninoff influenciou a cultura popular. Estranhamente, o texto não menciona Full Moon and Empty Arms, talvez porque o disco de Dylan onde a canção aparece, Shadows in the Night, que deu à música nova vida, é também de 2015.

Sempre, quando vejo a lua cheia, eu penso em Alfred de Musset, por causa de seu interminável poema Ballade à la Lune, incluído  em uma coletânea de versos franceses que meus pais me deram de presente, nos meus 7 ou 8 anos. O poema começa assim: “C’était,  dans la nuit brune, sur le clocher jauni, la lune, comme un point sur un i”. Acho muita graça na noção da lua como “um pingo no ‘i'”… isso remete a dias muito felizes da minha infância. Ao ver a lua cheia, frequentemente exclamo: “Como um pingo no ‘i'”, para perplexidade das pessoas próximas de mim, que não consideram a ideia tão marcante. A tradução para “clocher jauni” seria “o campanário amarelado”. Na foto cima, há duas torres amareladas, incluindo o minarete ao fundo; um boa ilustração do verso de Musset.

A lua ajuda a ter uma boa concepção da relatividade da vida. Como não se sentir mínimo, ao lembrar que, como Bob Dylan em 2015, agricultores nos vales do rio Eufrates, no século VI a.C. (para não falar do próprio Nabucodonosor), já deviam olhar para a lua com perplexidade e fazer dela a confidente de seus sonhos, suas esperanças, seus temores?

Se quiser ouvir o Prêmio Nobel de Literatura cantando Full Moon and Empy Arms –  e acho que você deveria querer – aqui está o link:

Full Moon and Empty Arms

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Beethoven e Paul Lewis visitam São Paulo

Aos 20 anos de idade, eu venerava Beethoven. Podia satisfazer plenamente essa adoração, graças às salas de concerto em Londres, onde fazia minha graduação. Beethoven me dava, naquela época, a impressão de ser um amigo muito próximo. Em todas as vezes em que estive em Viena, nunca deixei de ir ver, ao menos de fora, a Casa Pasqualati, no Mölker Bastei, onde ele morou. Fiz peregrinação ao seu túmulo no Cemitério Central. Jantei na taverna instalada na casa onde ele morou em Heiligenstadt, Mayer am Pfarrplatz. Pensei mesmo em comprar um de seus pequenos bustos de gesso, facilmente encontráveis em Viena.

Há no romance de Henry James The Portrait of a Lady uma cena em que a música tem um papel fundamental. A protagonista, Isabel Archer, na casa de campo senhorial dos tios, onde mora, ouve o piano, e descobre que está sendo tocado por Madame Merle, uma amiga da tia, de passagem. Na edição original do livro, de 1881, é Beethoven que Madame Merle toca. Na edição revista por James, em 1908, o compositor passa a ser Schubert. Isabel, ao conhecer Madame Merle, vê apenas sua sensibilidade musical (“That’s very beautiful, and your playing makes it more beautiful still”), dá a ela sua amizade e não desconfia que sua vida será por isso negativamente afetada. O tio está doente – logo morrerá – mas Isabel garante a Madame Merle que “to hear such lovely music as that” fará com que ele se sinta melhor. Madame Merle retruca então com uma frase marcante, que me impressionou quando a li pela primeira vez aos 22, 23 anos: “I’m afraid there are moments in life when even Beethoven has nothing to say to us”.

Na fiel adaptação de The Portrait of a Lady para o cinema realizada por Jane Campion em 1996, essa frase (a diretora preferiu a versão onde Schubert é o compositor mencionado) ganha muita força, pela forma como Barbara Hershey, no papel de Madame Merle, a diz a Nicole Kidman, em uma de suas interpretações mais convincentes como Isabel Archer. A expressão facial de Barbara Hershey revela todas as decepções na vida de sua personagem.

Acontece que há uma peça de Beethoven que sempre tem algo a me dizer, nos bons momentos como nos menos bons. É o Concerto para piano nº 4. Se Beethoven é um amigo, esse Concerto é o seu melhor presente; trata-se de um dos monumentos da inteligência humana. Que um indivíduo tenha sido capaz de compor esse Concerto redime as falhas da nossa espécie.

Acontece também que nem todos os meus amigos nasceram em 1770 e morreram em 1827. Vários são da minha geração, estão bem vivos e posso vê-los em carne e osso. Há algumas semanas, uma amiga paulista me perguntou se eu poderia passar com ela seu aniversário. Quando um amigo de adolescência, com quem nunca houve afastamento ou rusga ao longo dos anos e com quem temos relação mútua de aceitação incondicional, pede para nos ver em seu aniversário, a única reação possível é ser grato por essa amizade e responder positivamente.

E é por essa razão que minha mulher e eu embarcamos rumo a São Paulo, para o fim de semana de 8 e 9 de outubro.

Ao planejar nossos dias em São Paulo, pensei, além  da aniversariante, na Bienal de Arte e na exposição sobre Calder e sua influência sobre artistas brasileiros, no Itaú Cultural. Outros amigos, que eu não via há muito tempo, estariam na cidade. Julguei estar atingindo o grau mais elevado de felicidade; tudo parecia perfeito. Estava equivocado. Ingrediente adicional estava à minha espera: li no jornal que Paul Lewis iria tocar, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, no sábado, o Concerto nº 1 e o Concerto nº 4 de Beethoven.

Quando fui comprar os ingressos pela Internet, só havia lugares no Coro, mas pude conseguir dois na primeira fila e do “lado certo” para ver as mãos do pianista tocando.  Sentar no Coro acabou sendo uma experiência por si. Pode-se ver melhor, além do rosto e dos movimentos do regente (no caso, uma regente, Marin Alsop), como os músicos lidam com seus instrumentos. Mais tarde, amigos comentariam haver o entendimento de que o som chega de forma diferente – menos satisfatória – aos  espectadores sentados no Coro. Pode ser, mas para nós não pareceu: estar ali era já um privilégio.

Vejam esta foto: na magnífica Sala São Paulo, sentados no Coro, esperando para ouvir Beethoven.

20161008_162912

Paul Lewis estudou com Alfred Brendel, que foi o pianista que primeiro ouvi tocar o Concerto nº 4, em Londres. No ano seguinte, ouvi Maurício Pollini e aparentemente   gostei mais ainda, segundo anotações que fiz no programa, guardado até hoje. Era porém Claudio Abbado quem regia a London Symphony Orchestra e eu idolatrava Abbado, então sua presença no palco pode ter influenciado minha análise. Registrei no programa que o último movimento provocava em mim (como ainda provoca) sensação de “libertação”, após as tensões musicais do segundo movimento, que eu considerava, aos 20 anos, aptas a despertar “ansiedade” – Beethoven brinca constantemente, nesse movimento, com a expectativa do ouvinte – e que Liszt equiparava a “Orfeu domando as Fúrias”. Todas as tensões são resolvidas, ao final, e fica um sentimento de harmonia triunfante, como se o Concerto fosse uma parábola das misérias humanas sendo superadas, após lutas internas.

Voltando ao dia 8 de outubro: todos, naquela tarde de sábado, fizeram jus à sua reputação: a  Sala São Paulo, que há muito tempo eu tinha vontade de conhecer (vou pouco a São Paulo, infelizmente), Marin Alsop, Paul Lewis e a OSESP. Lewis revelou sons, nos dois Concertos, de que eu nem suspeitava ou que eu tinha esquecido. Beethoven uma vez  mais efetuou a sua magia e tirou de todos, intérpretes e ouvintes, o que de melhor tinham a   oferecer. Uma tarde que dificilmente esquecerei.

Abaixo, Lewis, de azul, e Alsop, à direita, com a mão erguida, e a OSESP, todos recebendo uma ovação bem merecida.

20161012_125745

E minha amiga aniversariante? No dia seguinte, depois de uma visita à Bienal, almoçamos com ela e sua família, de que sempre me senti parte, no restaurante Canto Madalena,  em Vila Madalena, ouvindo choro ao vivo. A feijoada, a caipirinha de caju e a música estavam excelentes, a companhia mais ainda. Passamos a tarde com eles, até a hora de ir para o aeroporto, com passagem pelo Beco do Batman, ali perto do restaurante.

20161009_153111~2

São Paulo, Jardins, Livraria da Vila, Itaú Cultural e sua Brasiliana, Calder, Beethoven na Sala São Paulo, Bienal, Canto Madalena, feijoada e choro, Beco do Batman, amigos diversos em diferentes momentos…

Haverá felicidade maior? Não creio… fazendo abstração, claro, da Minha vista no Rio de Janeiro.

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.