O Embrulho Vermelho

O Embrulho Vermelho

Em 27 de maio, minha mãe fez 80 anos. Como a data caía no domingo, pude comemorar com ela no Rio de Janeiro, e estar também com minha irmã, que viera de Lisboa, onde mora.

Alguns amigos passaram em casa no final da tarde para cumprimentar a aniversariante. Como a greve dos caminhoneiros, a falta de gasolina nos postos e o desabastecimento nos mercados da cidade estavam no auge, a chegada de um determinado presente de aniversário causou grande impacto:

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Na foto, aparecem minha mãe, minha sobrinha e os dois amigos que trouxeram o presente. Vindo diretamente de Petrópolis para dar os parabéns, Chicô Gouvea e Paulo Reis consideraram que nada seria tão marcante quanto aquilo que não se encontrava no mercado: verduras frescas.

Nesta outra foto, registrei Cora Ronai capturando a mesma cena:

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Em seu perfil no Instagram (@cronai), Cora Ronai publicou uma das fotos que tirou, acompanhada do texto: “Minha amiga Thereza Quintella fez 80 anos. Ganhou muitos presentes lindos e carinhosos, mas nenhum fez tanto sucesso quanto a cesta de hortaliças que Chicô e Paulo trouxeram direto da roça”. Isso provocou comentários divertidos, como: “Que saudade de uma alface!”, “No momento, tá melhor que ganhar joias”, “Saudade de uma boa saladinha!”.

Acontece, porém, que minha mãe não foi a única a ganhar presente naquele dia. No café da manhã, olhando o mar e filosofando sobre o Infinito enquanto devorava um croissant, recebi da minha irmã um embrulho vermelho, que ela trouxera de Lisboa:

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Titina é a melhor irmã do mundo. Naturalmente, eu nada levara para ela e nem, aliás, para minha mãe. Decidi compensar demonstrando meus talentos mediúnicos. Alisando o embrulho vermelho, declarei: “É um livro”. Isso era pouco para comover Titina. Que mais poderia ser? Prossegui: “O papel não traz a marca de nenhuma livraria, então sei que não é da Bertrand“. Diante de sua resposta de que ela mesma embrulhara o livro, continuei: “Você comprou na livraria da Rua do Século”. Isso sim a impressionou.

De meu conhecimento, a “livraria na Rua do Século” não usa nome algum. É um sebo, forte nas áreas de história, inclusive do Brasil, e de arte. A primeira vez em que Titina lá me levou, julguei haver uma intenção metafísica no nome da rua, até descobrir que tratava-se, na verdade, de homenagem a um jornal republicano, fundado ainda sob a monarquia. Mais corretamente, o nome é “Rua de O Século”.

A entrada do sebo é simples e sem indicação alguma:

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Dentro, o espaço é congestionado:

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O proprietário é educado e afável e deixa os fregueses à vontade. Consegui retirar um tesouro de uma dessas pilhas, quando lá estive pela última vez, em julho de 2017:

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Nem o ano, nem a encadernação nem a edição em si, aos olhos dos meus quatro leitores, justificariam o uso que fiz acima do termo “tesouro”. Tudo o que diga respeito a Carlos V, porém, me interessa desde a infância. Nascido em Gand, o Imperador preserva memória viva na Bélgica, onde morei pela primeira vez criança. Suas disputas com Francisco I de França são objeto de fascínio para mim. Um dos grandes prazeres, quando comecei a ler À la recherche du temps perdu, aos 11 anos, foi descobrir que o Narrador também divaga sobre a rivalidade entre os dois monarcas. Na primeiríssima página do romance de Proust, o Narrador menciona que, às vezes, acordava pouco depois de ter adormecido, não só pensando no livro que lera antes de dormir mas também sentindo-se ser o próprio tema do livro: “une église, un quatuor, la rivalité de Francois Ier et de Charles Quint“. Em geral, presume-se que a fonte para a observação casual de Proust sobre essa rivalidade tenha sido o livro do historiador François-Auguste Mignet (1796-1884), Rivalité de François 1er et Charles-Quint, publicado em 1875, que comprei e li na adolescência:

20171228_094605~2.jpgAlguns se perguntarão por que não coloco aqui foto dos dois volumes onde as patinhas do meu gato não apareçam. Pois direi que, pelo visto, há muito tempo eu vinha querendo falar de Carlos V e de Francisco I, ou da presença de Mignet na vida intelectual de Proust, porque esse nosso gato, James, cujas patas são inconfundíveis, morreu em janeiro de 2018, aos 19 anos. Nasceu em Quito, em 1998, em nossa casa, pois sua mãe também nos pertencia — ou nós a ela. Maior do que vários cachorros, de uma beleza altaneira e  personalidade forte (um de seus apelidos era Arquiduque, outro era Señor Presidente), James não era um amigo fácil. Tinha espírito arredio, era propenso a rosnar e marcava preferência pela minha mulher. Por todas essas qualidades, eu o amava (outro apelido que dávamos a ele era Jaimito de mi corazón). Foi uma boa surpresa para mim, ao procurar a foto no celular para inseri-la neste texto, ver que James nela aparece.

Admito que esta outra foto, tirada pela minha mulher, é de qualidade superior:

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Uma característica importante, para mim, de Mignet é que ele nasceu em Aix-en-Provence; um dos principais colégios da cidade, no coração do bairro de Aix com arquitetura do século XVII, chama-se Collège Mignet:

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Vejamos o que dizem as placas de cada lado da porta:

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Esse liceu, assim, resume um pouco da História da França. Insere-se no Quartier Mazarin, construído no século XVII pelo Arcebispo de Aix, o Cardeal Michel Mazarin, irmão de outro Cardeal bem mais célebre, Jules — ou Giulio, pois nascera na Itália — Primeiro-Ministro da minoridade e da juventude de Luís XIV. No colégio estudaram, juntos, Paul Cézanne e Émile Zola e, mais tarde, Darius Mihaud. Marcel Pagnol lá deu aulas. E o liceu hoje carrega o nome de um historiador famoso em seu tempo, a cuja obra alude Proust. Nunca passo na rue Cardinale sem meditar sobre todas essas associações.

Voltemos porém ao presente que me deu Titina no dia 27 de maio. Abro o embrulho vermelho e vejo este livro:

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Um livro sobre o Barão do Rio-Branco, editado pela José Olympio, só poderia me deixar feliz. A palmeira, característica da Coleção Documentos Brasileiros da editora, também me trouxe boas lembranças, pois na biblioteca de meu pai e de minha mãe existem numerosos volumes dessa coleção, com a inesquecível lombada:

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A palmeira da Coleção Documentos Brasileiros, cujos volumes eram tão presentes lá em casa e são parte da minha infância e juventude, traz recordações felizes de leituras e, portanto, da vida.

Em 2008, a editora Sextante — fundada por Geraldo Jordão Pereira e seus filhos Marcos e Tomás, respectivamente filho e netos do editor José Olympio Pereira — publicou um livro exemplar sobre a editora José Olympio, escrito e organizado pelo também editor José Mario Pereira (o sobrenome é coincidência), dono da Topbooks:

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Geraldo Jordão Pereira morreu em 2008, mesmo ano em que o livro foi editado. Devemos ver José Olympio: O Editor e sua Casa como demonstração de amor filial, dirigida à memória do pai e do avô de Marcos e Tomás da Veiga Pereira. “Este livro”, diz Marcos da Veiga Pereira, “projetado como justa homenagem a meu avô e à editora que criou, agora é também para louvar a memória do grande profissional e companheiro de trabalho que foi Geraldo Jordão Pereira, meu pai”.

O volume é de uma impressionante riqueza factual e iconográfica e ganhou, em 2009, o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras. As páginas eletrônicas da Topbooks e da ABL replicam artigos onde é saudada a publicação do livro. Ao elogiar a “magistral pesquisa de José Mario Pereira”, Wilson Martins, em matéria no Jornal do Brasil, classifica o livro como “obra-prima de arte tipográfica, documentação historiográfica e preciosa iconografia”.

Quem diria o contrário, ao ver, por exemplo, estas duas páginas:

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O título do elogio de José Nêumanne, publicado em O Estado de São Paulo, já diz tudo: A vida do homem que pôs o Brasil para ler, remetendo ao título do primeiro capítulo do livro, “José Olympio, o civilizador do Brasil”. Dois artigos de membros da Academia Brasileira de Letras chamaram minha atenção. O texto de Ivan Junqueira, no Jornal do Commercio, menciona o “beneditino trabalho de pesquisa literária e editorial” de José Mario Pereira. O texto de Marcos Vilaça, publicado no Diário de Pernambuco, diz: “Na obra publicada pela Sextante a gente encontra do Brasil a política, a história literária, a indústria editorial, a evolução gráfica, a memória fotográfica, um pedaço da trajetória do país no século XX”.

De forma poética, proustiana, Marcos Vilaça diz como foi a experiência de folhear o livro: “Nesse passar e repassar de páginas, minha vida foi se reativando”. A mesma impressão tive eu. Abro José Olympio: O Editor e sua Casa, e ecos da infância e da juventude passam diante de meus olhos. Dinah Silveira de Queiroz, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Herberto Sales e muitos outros, todos amigos de meu pai ou de minha mãe, e que conheci pessoalmente, criança ou adolescente, em graus variados, circulam pelas páginas. Vejo um bilhete de José Guilherme Merquior, temível polemista na visão de alguns mas, no trato comigo, na minha juventude, homem educado, carismático, gentil e atencioso:

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Outros autores que surgem em José Olympio: O Editor e sua Casa, da geração anterior, foram amigos de meu avô materno — o baiano, pois como expliquei em De carro pela Provença, tive dois avós maternos, um baiano e outro mineiro. Muitas das edições ilustradas no livro são as que li, pois eu as encontrava nas bibliotecas de meu pai e de minha mãe. Onde terá ido parar, por exemplo, nosso exemplar de Oito Décadas, o livro de memórias de Carolina Nabuco, que li e reli quando criança, na mesma edição mostrada abaixo? Recentemente, minha filha pediu para lê-lo e não o encontrei nem aqui em casa, nem nas estantes da minha mãe. Estará com Titina em Lisboa? Ou no depósito, no Rio, onde são guardadas caixas de alguns dos  livros que pertenceram ao  meu pai?

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As capas dos livros de Carolina Nabuco e de Rachel Jardim são ambas de autoria de Eugenio Hirsch, nascido na Áustria em 1923, emigrado primeiro para a Argentina, fugindo do nazismo, e depois para o Brasil. Hirsch morreu no Rio de Janeiro em 2001.

Dois dos livros de meu pai — Retrospectiva e Combati o Bom Combate — foram editados pela José Olympio e Eugenio Hirsch foi o responsável pelas capas de ambos:

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A capa de Combati o Bom Combate parece-me particularmente exitosa. O romance — e eu não me lembrava disto, pois tinha 10 anos de idade e morava na Bélgica — é dedicado a mim, sem sentimentalismos, de forma característica do meu pai: “Para Ary Norton de Murat Quintella”. Esta é a sua foto, beirando os 40 anos, usada na edição:

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Ivan Cavalcanti Proença faz uma introdução ao romance onde a questão da passagem do tempo é evocada: “uma libertação e uma transcendência ao que se chama o amargor da irreversibilidade do tempo”. Outra frase sua remete claramente a Proust: “recuperação do tempo perdido”. Isso faz sentido, pois Combati o Bom Combate é uma ficção semi-autobiográfica; reflete a infância, a adolescência e a juventude de meu pai, e vários personagens aparecem com o prenome ou o apelido das pessoas reais que os inspiraram. A ideia do tempo é retomada por Nélida Piñon, na contracapa: “um panorama profundamente nostálgico de uma geração que já não se ilude com ‘o bom combate’ “.

Quanto a Retrospectiva, sua edição seguinte deu-se em outra editora, mas a capa continuou sendo de Eugenio Hirsch. Se, na edição da José Olympio, vemos Ary Quintella bebendo um copo de uísque, na segunda ele fuma — eram quatro maços por dia e ele morreria de câncer aos 66 anos:

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Meu pai trabalhou, por creio um curto tempo, com José Olympio na editora. Penso não ter jamais visto o mítico editor. Conheci porém, criança, na Bélgica, durante viagem que por lá fizeram, Geraldo Jordão Pereira e sua mulher, Regina. A primeira edição de Retrospectiva, na José Olympio, traz duas dedicatórias, a mais longa delas com ecos de Baudelaire e Lautréamont:

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Vejo que o exemplar que tenho em casa pertenceu a meu irmão, pois nele meu pai colou o seguinte bilhete:

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Alfredo morreu aos 16 anos, então não saberei nunca se chegou a ler o livro, que recebeu aos 8 anos.

Como mencionei em  Edla van Steen, estória sobre a amizade, a correspondência recebida por meu pai, inclusive a enviada por mim, foi em grande parte doada por ele, ainda em vida, à Fundação Casa de Rui Barbosa. No entanto, mexendo recentemente em velhos papéis, minha mãe encontrou o seguinte bilhete de Geraldo Jordão Pereira para meu pai, de pêsames pela morte do meu irmão:

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O texto foi escrito três dias depois da morte de Alfredo, em uma hora em que muitos terão preferido se omitir. Não creio ser indiscreto ao publicá-lo aqui, e sim estar homenageando o sentido de humanidade de Geraldo Jordão Pereira.

O leitor que chegou até aqui talvez tenha notado, acima, no topo da página em que está a dedicatória a Regina Pereira, menção a “Eugen Alois Hirsch: que já trabalhava com meu pai, mui grato”. Essa frase de meu pai me surpreendeu. Olhei alguns exemplares que tenho em casa de livros do pai dele, meu avô, o matemático, também Ary Quintella, que eram publicados pela Companhia Editora Nacional. Algumas capas aparecem como sendo de “Hugo Ribeiro (arquiteto)”, por exemplo estas, minhas prediletas:

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Em algum momento, porém, as capas dos livros de meu avô começaram, de fato, a ser desenhadas por Eugenio Hirsch. Os exemplares que tenho em casa estão já desbotados, perderam as cores e, possivelmente, não fazem justiça à aparência original:

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Eugenio Hirsch parece ter sido um designer revolucionário. Encontrei na Internet, sem grande esforço, além de vários textos que tratam especificamente de seu trabalho, três ou quatro teses e dissertações, relativas a diversos temas — a matemática, a prática editorial em livros didáticos, a história do design no Brasil etc… —  onde são estudadas suas capas para os livros de meu avô.

Situado, em termos geracionais, entre meu avô e meu pai, e tendo sobrevivido a ambos, Eugenio Hirsch associou seu talento a dois Ary Quintella, que publicaram com o mesmo nome, em décadas diferentes, em editoras diferentes, obras de finalidades diferentes — uma, de matemática, outra, de literatura.

E foi assim que um gesto simples, o de abrir o embrulho vermelho, me fez simultaneamente abolir e recuperar o tempo. O presente de minha irmã trouxe de volta, com a encantadora palmeira da José Olympio, os melhores momentos da minha juventude. Proust teria aprovado.

 

 

Papai Noel e a amizade: Camus, Machado de Assis, Proust, Stendhal, Julien Sorel, Germânico…

Dos 6 aos 11 anos de idade, morei em Rhode-St.-Genèse. Nosso bairro era exclusivamente residencial, só com casas, sem edifícios; a rua era curta e uma das pontas desembocava em uma fazenda onde, no verão, vacas pastavam. Os invernos eram passados debaixo de neve, em um silêncio absoluto, quebrado pela madeira queimando na lareira e pela alegria com que meus irmãos e eu descíamos uma ladeira de trenó. Éramos livres e felizes. Nessas condições, como não acreditar em Papai Noel? E assim foi, até os meus 7 anos. Isso faz de mim um retardatário, segundo artigo publicado ontem em O Estado de São Paulo por Sérgio Augusto, onde ele supõe que a maioria das crianças perde essa ilusão até os 6 anos de idade.

Foi uma amiga residente em Paris, um ano mais velha, que, ao nos visitar na Bélgica, me fez a revelação. Fiquei incrédulo. Perguntei: “Mas, e os presentes? Como aparecem na árvore?” E veio a resposta, implacável: “São teus pais que colocam lá”. No Natal seguinte, meus irmãos e eu fizemos o teste: esperamos acordados e escondidos na sala e pegamos nossos pais em flagrante. Terá sido um choque? Em todo caso, sobrevivi para contar a estória.

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Acima, meus irmãos e eu saindo do Museu de Cera no campo de batalha de Waterloo. Tenho 7 anos, meu irmão 6, minha irmã fará 4 em dois meses. Atrás de mim, a amiga que logo me revelará a verdade sobre Papai Noel. Nós nos damos até hoje, as duas famílias são próximas. Possuo inúmeros amigos ainda dessa época.

O diálogo voltou à minha memória há poucos dias quando, por coincidência, abri pela primeira vez um livro de Paul Veyne pelo qual sempre tivera curiosidade, Les Grecs ont-ils cru à leurs mythes? (traduzido no Brasil pela Editora UNESP com o título Os gregos acreditavam em seus mitos?). A primeiríssima frase é a seguinte indagação (a tradução é minha): “Como podemos acreditar pela metade ou acreditar em coisas contraditórias? As crianças acreditam ao mesmo tempo que Papai Noel traz os presentes pela chaminé e que esses mesmos presentes são colocados pelos seus pais; e então, será que acreditam realmente em Papai Noel? Sim”. 

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Papai Noel, a meu ver, é uma parábola da amizade perfeita. Na visão infantil, uma vez por ano, no momento mais mágico, que é o Natal e a celebração do fim de um ciclo de doze meses, aparece um velhinho boníssimo, que vem apenas para trazer presentes e nada nos pede, a não ser que nos comportemos bem. Como resquício da fantasia da infância, dezembro é o mês da amizade. É quando mais jantamos, almoçamos e confraternizamos com amigos e colegas. É quando mais estamos em paz com o mundo e procuramos eliminar rusgas surgidas durante o ano. É quando a vida parece mais cheia de promessa e quando se sente alegria no ar. Como nasci em janeiro, para mim o sentimento natalino se prolonga por várias semanas além do Ano Novo.

Em 1982, François Mitterrand discorreu sobre o tema da amizade em uma entrevista à revista Autrement intitulada “Les paroles et le silence”. Declara o Presidente que seus principais amigos são os antigos companheiros prisioneiros de guerra, o que faz sentido; perguntado sobre se a vida política não seria “un lieu maudit” para toda forma de amizade, Mitterrand declara – o que tomo com ceticismo – nunca ter sido traído ou abandonado por colegas ou companheiros, que nunca alguém próximo se afastou dele. Em francês: “Il n’y a personne dont je puisse dire :’Comment a-t-il pu me faire cela et se séparer de moi ?'”.

Ao mesmo tempo, Mitterrand afirma ser impossível formar, criar amizades verdadeiras na vida pública, onde haveria apenas alguns bons colegas: “Dans la vie politique, on ne se fait pas, on ne crée pas de véritables amitiés. On a quelques bons compagnons”. Nisso, a “esfinge” do Palais de l’Elysée lembra Cícero, que em seu Diálogo sobre a Amizade, declara: “Muito dificilmente encontraremos amigos verdadeiros entre os homens que se ocupam dos negócios públicos ou que procuram honras. Onde está o homem que prefere, à sua, a elevação de um amigo?”. Ainda que muito pertinente, a pergunta revela uma das contradições do texto de Cícero, no qual a argumentação é feita por Lélio, que usa como exemplo de amizade perfeita sua ligação com Cipião; ambos, porém, haviam sido homens públicos.

Esse não é o trecho que me interessa mais na entrevista de Mitterrand, que li anos após sua publicação, quando eu era muito jovem. Então como agora, parto do princípio, que considero salutar, de que todo mundo é meu amigo, até prova em contrário – algum cínico dirá que essa é uma maneira de seguir acreditando em Papai Noel.

A parte para mim mais estimulante das declarações de Mitterrand aparece no final, quando os entrevistadores perguntam ao Presidente se a amizade com figuras de ficção é possível. Descobre-se aí que ele – como eu – se identificava com personagens de Stendhal e com os de Guerra e Paz.

Stendhal foi um grande amigo da minha juventude. Ficava eu até de madrugada lendo seus livros, na mesma época, em Londres, em que idolatrava Beethoven. Quando ia a Paris, visitava seu túmulo no cemitério de Montmartre e nunca deixava de me impressionar com o epitáfio, escolhido por ele próprio: “Arrigo Beyle Milanese Scrisse Amò Visse”, Henri Beyle tendo sido o verdadeiro nome do escritor. O “Milanese” é uma declaração de amor à Itália, já que Stendhal nasceu em Grenoble. Quanto à frase: “escreveu, amou, viveu”, que mais belo resumo poderia haver de uma vida humana?

Quando viajei à Itália pela primeira vez, aos 20 anos, para passar dois meses em Florença estudando italiano, levei comigo para me preparar, além do Guide Michelin, três livros: o Dictionary of Subjects & Symbols in Art, de James Hall, a que já me referi ao escrever sobre o Museu de Arte Islâmica de Doha; o Viagem Italiana de Goethe, em uma tradução para o inglês; e o livro de contos e novelas de Stendhal extraídos ou inspirados de velhos manuscritos italianos, Chroniques italiennes, de que gosto mais hoje do que da primeira vez em que o li, em viagens de trem, nos fins de semana, por todo canto da Itália. Embora, na época, esse não fosse um livro de predileção para mim, parecia-me natural que Stendhal, o mais fervoroso admirador da Itália que já existiu, me servisse de guia sobre como entender os italianos. Até hoje, quando vou a Roma, gosto de andar pelo bairro onde moraram os Cenci, porque o drama vivido por essa família, e particularmente pela bela Beatrice, é o tema de uma das novelas na coletânea de Stendhal.

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Acima, os mesmíssimos três amigos que me acompanharam em minha primeira viagem à Itália, há tantos anos. A capa do livro de James Hall representa um quadro de Rubens, O Rapto das Filhas de Leucipo, que pode ser visto na Antiga Pinacoteca em Munique. O famoso quadro retratando Goethe na Campanha romana é de Johann Tischbein e fica pendurado no Städel Museum em Frankfurt. Existe uma cópia no Museu Goethe, na casa do escritor na mesma cidade, um dos lugares mais comoventes que conheço. A capa do livro de Stendhal, sensual mas não muito bonita artisticamente, é uma ilustração referente a uma das novelas, L’Abbesse de Castro. Poderia servir para representar uma das aventuras mais célebres nas Memórias de Casanova, seu romance com a freira M.M., personagem até hoje não identificada de forma definitiva. Na verdade, o erotismo ou a capacidade de amar de religiosas já fora tratado desde pelo menos o século XIV, com Boccaccio, e passara pelas Lettres de la religieuse portugaise, aparentemente uma ficção escrita por Guilleragues e publicada em 1669 e que Stendhal conhecia.

Na adolescência, meu romance predileto de Stendhal era La Chartreuse de Parme. Hoje, é Le Rouge et le Noir. Considero Julien Sorel um herói bem mais satisfatório para os nossos tempos do que Fabrice del Dongo. Ou talvez seja uma questão de idade. Um adolescente pode se sentir próximo de Fabrice, marquês nascido em berço de ouro mas que se permite ser idealista na juventude, gradualmente vai se tornando ambicioso e vive seu grande amor na prisão, supra-sumo do espírito romântico. Em minha mais recente releitura de La Chartreuse, Fabrice me pareceu insuportável de vacuidade e arrogância. Já Julien, de origem humilde e desde sempre movido pela ambição, vive dois grandes amores, é razoavelmente inescrupuloso mas, ao mesmo tempo, mostra-se romanesco, sedutor, capaz de afeição e curioso pela vida e põe tudo a perder quando parece prestes a chegar ao ápice do sucesso. A prisão o redime, tal qual um Raskolnikov avant la lettre, e terminamos a leitura do romance, quando adultos, admirando o personagem. Os contemporâneos de Stendhal foram severos com Julien, considerando-o o cúmulo da hipocrisia. Com a distância, vemos que seu arrivismo, intolerável para a sociedade burguesa do século XIX, explica a rejeição de que foi vítima naquela época, pelos críticos e pelo próprio universo do romance.

O julgamento e a execução de Julien Sorel antecipam os de Meursault em L’Étranger. O personagem de Albert Camus é tão vítima do preconceito despertado pela sua personalidade quanto o de Stendhal. Os dois aceitam o fim calmamente.

O célebre ator francês Gérard Philipe, morto em novembro de 1959 aos 37 anos, interpretou no cinema Fabrice em 1947 e Julien em 1954. Em 1945, ele se destacara criando o papel principal na peça Caligula, de Camus. Em 1954, tinha 32 anos e podia ser visto como um pouco velho para o papel de Julien, mas sua interpretação o consagrou, e na minha lembrança – tenho os dois filmes em casa – está mais convincente como o herói de Le Rouge et le Noir do que como Fabrice sete anos antes. Suponho que, para muitos franceses, até hoje, a percepção sobre os dois personagens de Stendhal seja transmitida pela atuação e pelo rosto de Gérard Philipe:

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Acima, o ator intermediando nossa apreensão sobre Julien Sorel, na companhia de Danielle Darrieux como madame de Rênal. Julien está aprendendo que, se dormir com a mulher de seu empregador pode ser uma boa forma de subir na vida, a atividade não é sem riscos. Eles se amam e ela será, por isso, no final do romance, depois de muitas e muitas aventuras, o meio para sua perda mas, também, para sua redenção. A caminho da guilhotina, Julien se comporta bem, nos informa Stendhal por meio de uma das mais belas frases da literatura, em qualquer idioma: “Tout se passa simplement, convenablement, et de sa part sans aucune affectation” (“Tudo transcorreu de forma simples e decorosa e, de sua parte, sem afetação alguma”). Nunca leio essa frase sem parar para meditar a respeito.

Se Stendhal foi um grande amigo na minha adolescência e juventude, outros escritores me acompanham em diferentes momentos. Tolstói tem sido um amigo na idade adulta e penso nele frequentemente. Henry James, em torno aos meus vinte e poucos anos, esteve sempre a meu lado. Hoje, raramente recorro a ele. Casanova é uma leitura frequente, desde que eu era adolescente; por seu intermédio, aprendi muito sobre o século XVIII. Racine, na primeira edição da Pléiade de suas peças, ficou anos sobre a minha mesa de cabeceira e eu nunca o abandonaria. O mesmo posso dizer de Saint-Simon – o memorialista, não o filósofo; ou melhor, o filósofo de Versalhes, e não o socialista. Shakespeare e outros dramaturgos elisabetanos e jacobitas estão sempre presentes.

Machado de Assis é um amigo caprichoso: some e reaparece. Anda sumido do meu cotidiano, mas começo a sentir saudades e é possível que uma nova fase de adoração machadiana esteja prestes a ter início. Machado e seu cunhado foram amigos de meu trisavô, Francisco José Corrêa Quintella, um homem aparentemente de bem com a vida, a quem o escritor dedicou um pequeno, leve e elegante poema:

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Por outro lado, o sobrinho predileto desse meu trisavô, o poeta e acadêmico Luís Murat, antagonizava o escritor e nessa qualidade aparece no livro de Josué Montello, Os Inimigos de Machado de Assis, nos capítulos “A agressão dentro da própria Academia” e “Luís Murat contra Machado de Assis”. Josué Montello – grande amigo de meu pai, que conheci pessoalmente e com quem eu teria gostado de discutir hoje estes assuntos – é severo com Luís Murat, atribuindo a um virulento artigo seu o suicídio de Raul Pompeia. Montello fala pouco sobre a oposição de Murat a Floriano Peixoto e seu papel, corajoso, na Revolta da Armada.

Tempos distantes, em que textos de um adversário podiam levar ao suicídio, refletindo o elevado poder da escrita. Conheço outro exemplo em que um autor se vangloriou de ter promovido uma morte, no caso a de Gabriel García Moreno, Presidente conservador e ultramontano do Equador, assassinado em 1875 ao sair de missa na Catedral. O escritor e polemista liberal Juan Montalvo, que vituperava contra García Moreno, proclamou, com orgulho: “Mi pluma lo mató”. Em termos estéticos, a frase é sublime. García Moreno dá nome a uma rua em São Conrado, em frente da qual passo cotidianamente, quando estou no Rio, e me surpreendo sempre de que um dos Presidentes mais controvertidos do Equador tenha recebido essa homenagem dos cariocas. Inversamente, textos de Cícero, que se julgava especialista em amizade, causaram sua própria morte, a mando de Marco Antônio, que se sentira por eles ofendido, e com a conivência daquele que logo se faria chamar de Augusto.

Para os leitores sedentos por bastidores de brigas entre escritores, recomendo este livro, que focaliza o meio literário francês, do século XIX ao início do século XX:

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A originalidade dos livros de Josué Montello e de Anne Boquel e Étienne Kern está no fato de que, em geral, é mais fácil encontrarmos publicações reveladoras de amizade – e não inimizade – entre escritores. Apesar das rivalidades entre artistas, é bem mais prazeroso ler sobre o bom entendimento entre eles. São inúmeras as coletâneas de cartas entre literatos. Acaba de chegar às minhas mãos, por exemplo, a correspondência entre Albert Camus e o poeta René Char, publicada em 2007:

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A primeira frase do prefácio, assinado por Franck Planeille, indaga se artistas podem ser amigos fraternais: “La fraternité est-elle possible entre les créateurs?” Lendo as cartas de Camus e Char, vemos que a resposta é afirmativa. A amizade entre os dois terminou com a morte de Camus aos 46 anos, em 4 de janeiro de 1960, dois anos depois de receber o Prêmio Nobel de Literatura. Eles haviam se visto poucos dias antes, pois a casa de campo de Camus na Provence, de onde ele voltava de carro ao morrer, era relativamente perto da de Char. O livro não é espesso, porque os dois se viam constantemente e, inclusive, moraram no mesmo prédio em Paris. Não havia necessidade de uma troca epistolar constante. As primeiras cartas mútuas, em março de 1946, começam com o formal “Cher monsieur”. Em 1947, elas são iniciadas com “Cher Albert Camus” e “Cher René Char”. Em 1948, chegamos ao “Mon cher ami” mútuo. Em 1949, temos “Mon cher Albert” e “Mon cher René”, fórmula mantida até o final. Muito rapidamente, as cartas passam a terminar com “fraternellement”, “affectueusement” e mesmo “À vous, de tout coeur” (carta de Camus de 1954). A última de Char, em dezembro de 1959, portanto poucos dias antes da morte de seu interlocutor, termina com “De tout coeur à vous toujours”, o que é um pouco triste, à luz do que aconteceria poucos dias depois.

Esse “vous” é justamente o lado mais intrigante da correspondência entre os dois. Apesar da intimidade, nunca passaram, ao menos por escrito, ao mais familiar “tu”. Cada um apoiava a atividade intelectual do outro e prestava apoio emocional. Em janeiro de 1954, Camus estava retraído, cuidando da mulher, vítima de depressão. Escreve a Char (as traduções são minhas): “Que sorte tê-lo conhecido há já tantos anos e que a amizade tenha entre nós tomado esta força que transpõe a ausência”. Char responde: “Você deve saber que sou seu amigo, seu parceiro, que você pode recorrer a mim a qualquer momento, que deve fazê-lo. Estar ligados no invisível não é suficiente” (“être liés dans l’invisible n’est pas suffisant”).

René Char parece ter tido o dom da amizade. Li cartas suas a outros correspondentes onde o tom era igualmente afetuoso. Com eles, utilizava o “tu”. A opção pela manutenção do pronome formal terá sido de Camus? A correspondência entre os dois lembra a de Flaubert e Turgueniev, onde a afeição e a admiração profissional também são fortes, ao contrário da relação conturbada entre Turgueniev e Dostoiévski.

Meu amigo literário mais constante é Proust. Como já tive ocasião de mencionar neste blog, comecei a lê-lo aos 11 anos de idade e nunca mais parei. Proust, nesse sentido, é o meu amigo, no campo das letras, mais antigo e a quem mais sou fiel. Ler a seu respeito é outro prazer constante. A bibliografia sobre Proust é tão extensa que virou uma indústria por si. Possuo uma prateleira inteira de livros sobre sua vida e sua obra, inclusive um intitulado Proust et ses amis, editado por Jean-Yves Tadié, seu biógrafo:

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Qual dos volumes de À la recherche du temps perdu e que personagens eu prefiro? Depende do momento ou das circunstâncias. Para os leitores mais jovens, Un amour de Swann e os volumes onde os Guermantes têm presença marcante são irresistíveis. Para os leitores mais maduros, os últimos tomos surpreendem ao trazer novas percepções sobre a psicologia dos personagens, que já pensávamos conhecer bem. A amizade – e as alegrias ou decepções que pode causar – é aliás um dos temas do romance.  Basta citar como exemplo a interação do Narrador com Saint-Loup, às vezes descrita pelo primeiro como verdadeira amizade (uma noite em que jantam juntos é classificada pelo Narrador como “le soir de l’amitié”), às vezes mencionada por ele como uma relação superficial (“…embora eu não acreditasse na amizade e nem que tivesse jamais sentido amizade verdadeira por Robert…”). Ao leitor de Proust, não resta dúvida sobre a afeição entre os dois personagens. A oscilação do Narrador sobre como julgar a amizade parece ter sido característica do próprio Proust, que podia ser um excelente amigo mas para quem, de maneira geral, a interação social era um impedimento para que o artista trabalhasse, criasse. Segundo Tadié, “seu livro é seu único amigo, do qual, de nosso lado, nós nos tornamos, no mundo inteiro, os amigos”.

Proust parece ainda mais nosso íntimo, pelo fato de que até a reconstituição de seu quarto podemos visitar, no Musée Carnavalet em Paris, assim como podemos visitar a casa de Tolstói em Moscou:

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Ou pelo menos, podíamos até recentemente, pois o Museu Carnavalet está fechado para obras e voltará a abrir somente no final de 2019. Tirei a foto acima em 2014.

Resumamos os vários círculos possíveis de amizades literárias descartando, neste comentário, a proximidade sempre possível, nos planos real ou virtual, com autores vivos.

Primeiro, escritores mortos, pelo grau de identificação que sentimos com sua vida ou sua obra ou sua personalidade, podem ser nossos amigos. Alguns serão amigos passageiros, outro durarão para sempre. Podemos ler seus textos e formar bibliotecas de análises sobre sua obra. Podemos conhecê-los melhor, talvez, do que nossos amigos do dia-a-dia.

Segundo, formamos amizade com livros específicos. Há aqui dois graus possíveis: de um lado a obra em si, o texto inserido dentro da capa e da contracapa; de outro, o exemplar específico que possuímos e que passa a fazer parte de nossa vida. Hoje, gosto da obra de Stendhal intitulada Chroniques italiennes, mas gosto também do volume que circulou comigo pela Itália. É reconfortante, pensar que ele me acompanhou em minhas viagens de trem e conheceu meus quartos de hotel em Roma, Veneza, Florença, Perugia, Milão e tantos outros lugares, voltou para Londres e, depois, me seguiu a outros países e continua aqui, na minha estante; posso segurá-lo e meditar sobre o tempo, sobre o passado, sobre o presente. As páginas ficaram amareladas mas o volume está em bom estado. Estamos envelhecendo juntos e não há dúvida de que ele durará mais do que eu.

Em terceiro lugar, há a amizade com personagens de ficção. Fui muito amigo de Fabrice del Dongo até os 30 anos. Hoje, descartei essa amizade. Cresci e Fabrice tem agora pouco a me dizer. Já sua tia e admiradora, a duquesa Sanseverina, é hoje uma cúmplice, um caso amoroso em potencial, e justifica minhas releituras de La Chartreuse de Parme. Andrei Bolkonsky e Pierre Bezukov – os quais, como expliquei em meus comentários sobre a versão da BBC para Guerra e Paz, podem ser vistos como duas facetas do mesmo homem – são indubitavelmente meus amigos e continuarão a sê-lo. Os personagens de Dostoiévski às vezes nos parecem estranhamente familiares, mas posso pensar em apenas um de quem eu gostaria de ser amigo. Quando li O Idiota estive certo de que o Príncipe Míchkin – outro papel de Gérard Philipe no cinema, em versão que nunca vi – precisava de alguém como eu como confidente.

Em La Orgia Perpetua, seu estudo sobre Flaubert e Madame Bovary, Mario Vargas Llosa  escreve: “Un puñado de personajes literarios han marcado mi vida de manera más durable  que buena parte de los seres de carne y hueso que he conocido”. Cita como exemplos de amigos literários seus, entre outros, David Copperfield – e Dickens possui o talento, de fato, de compor caracterizações inesquecíveis; David Copperfield é, de muitas formas, o amigo ideal e tenho a sorte de conhecer alguém como ele na vida real – D’Artagnan, outro amigo da minha juventude e… Fabrice del Dongo.

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Em quarto lugar, figuras históricas, com o tempo, se tornam acessíveis a nós de forma subjetiva, como se fossem personagens de ficção. Já tive ocasião de mencionar neste blog meu interesse constante, desde a infância, por Napoleão, despertado pelo fato de que Rhode-St.-Genèse é uma localidade perto de Waterloo e de que visitei inúmeras vezes, ao longo da vida, o campo de batalha, seu panorama, o museu de cera e a livraria cobrindo todo tipo de tema ligado à era napoleônica e subi os 226 degraus do morro do famoso Leão. Seria demais dizer que me considero amigo de Napoleão, inclusive porque não há dúvida sobre seu caráter autoritário e egoísta. Quem quereria ser seu amigo? O fato, porém, é que de tanto ler sobre ele chego a conhecê-lo melhor, em suas várias facetas, do que a muitas pessoas do meu entorno. Uma das minhas aquisições na Livraria Berinjela, este ano, como visto anteriormente, é um exemplar da biografia de Napoleão pelo historiador Jacques Bainville. Esse livro, em geral, é considerado crítico do biografado; pessoalmente, achei-o elogioso. De toda forma, o que li não é uma narrativa imparcial sobre Napoleão, mas sua história e sua personalidade como vistas por Bainville. Fabrice del Dongo, Julien Sorel e o próprio Stendhal eram todos admiradores do Imperador e estão, também, entre os intermediários possíveis para nossa percepção desse homem.

Um exemplo gritante do quanto só podemos ter uma visão “gerenciada”, quase ficcional de personagens históricos são os membros da dinastia julio-claudiana. O que sabemos deles nos chegou, sobretudo, por intermédio de Tácito e Suetônio. Um de meus heróis é Germânico, em quem penso com frequência. Será o pai de Calígula e Agripina e avô de Nero, contudo, o príncipe perfeito, digno de adoração descrito por Tácito? Não seria intenção do historiador romano que seus leitores se afeiçoassem a Germânico, transformado, assim, em personagem de ficção? Há debates entre os estudiosos sobre as motivações de Tácito, mas eu não tenho dúvida de que seu texto foi construído de forma a manipular o leitor favoravelmente. Germânico certamente ganha, na forma como o historiador o apresenta, na comparação com os demais membros da dinastia. Ao morrer antes de reinar, foi-se sem que sua real capacidade tenha sido colocada à prova. Em 2014, fotografei no Louvre – e os museus, a propósito, também podem fazer parte da nossa vida, como ilustra Alexander Sokurov em  Francofonia – o busto do príncipe-herói, para sempre destinado a ter amigos, mesmo 2.000 anos após sua morte, pois assim pretendeu Tácito, que o transformou em um personagem da literatura de mais relevância do que ele tem, hoje, como figura histórica:

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Em quinto lugar, livros e amigos literários podem contribuir a desenvolver relações com pessoas no mundo “real”. Em minha crítica a O Plano de Maggie, mencionei que esse era um filme para “o público que acredita serem os livros objetos – seres? – lúdicos e que avalia terem eles o poder de criar vínculo entre as pessoas”. Os nomes que atribuo a alguns personagens deste blog, como: o amigo leitor de Prousto amigo leitor de Morgenthau, o casal que me deu de presente a edição fac-similar do Alguma Poesia do Drummond mostram que livros e referências bibliográficas são uma boa forma – embora longe de ser a única – de estabelecer diálogo comigo. Postagens surgem porque amigos me deram livros de presente, como foi o caso do Gitanjali de Tagore. Gosto quando alguém me pede livros emprestados, pois essa é uma forma de compartilhar uma visão de mundo.

É possível que a amizade com obras literárias, personagens, escritores já mortos seja uma forma avançada da crença em Papai Noel. Assim como o bom velhinho vinha, eu estava certo, depositar presentes debaixo da árvore, salvarei com meus conselhos Julien Sorel da guilhotina, aprenderei com Gina Sanseverina a sobreviver a intrigas políticas, impedirei Swann de se casar com Odette de Crécy, assimilarei o carisma de Germânico, explicarei ao príncipe Andrei que ele deve perdoar Natasha – algo que nem Pierre Bezukov conseguiu – e direi a Camus que ele não deve entrar no carro de Michel Gallimard e encontrar a morte na estrada; bem melhor voltar a Paris de trem, como planejado, com René Char.

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O título em português dá um sentido levemente diferente do título em inglês (Mountains may depart). O título em francês (Au-delà des montagnes) já dá um terceiro sentido, mais fraco do que os outros dois. Qual dos três sentidos será mais perto do chinês? O enredo justifica os três títulos, dependendo do aspecto que se queira enfatizar.

Jia Zhangke aborda o tema filosófico, a meu ver, mais fascinante de todos: como o ser humano lida com a solidão inerente  a toda vida. Nascemos, vivemos e morremos apenas na companhia de nós mesmos, e se eu fosse o narrador de um filme do Woody Allen, recomendaria agora: “Ame a você mesmo…é muito chato ter de passar a vida inteira com alguém de quem você não gosta”.

Pode-se postular que amamos, fazemos amigos, jantamos fora em grupo e queremos sucesso profissional, em parte, para tentar escapar da solidão. Porém, nem os amores mais profundos, nem as amizades mais verdadeiras, nem a vida social mais intensa, nem a existência mais prestigiada, mais exitosa eliminam totalmente a solidão.

Um amigo, este ano, chamou minha atenção para um artigo de Hans Morgenthau de 1962, bastante surpreendente, intitulado Love and Power, em que o autor equipara a busca por amor e a busca por poder, argumentando serem ambas causadas pela tentativa de fugir da solidão.

Os amores, porém, muitas vezes terminam e os amigos se desentendem (e o poder, em algum momento, termina). Fazemos um esforço de aproximação com outros seres humanos para escapar da solidão, mas frequentemente afastamos de nós essas mesmas pessoas. Fugimos da solidão e a trazemos de volta.

O belo filme de Jia Zhangke é, entre outras coisas — muitos preferem ver no filme uma análise das consequências que o desenvolvimento chinês provoca nas pessoas, mas essa visão não é incompatível com a minha, é apenas uma questão de ênfase  -— uma descrição sobre a solidão a que as pessoas às vezes se condenam. Elas fazem escolhas, ao longo da vida, sem ter como prever as consequências; essas escolhas podem ser equivocadas e aumentar —  em vez de diminuir  — seu grau de solidão.

A frase mais marcante do filme talvez seja: “todo relacionamento humano termina; as pessoas sempre se afastam umas das outras”. A frase não é sempre verdadeira. Amores, amizades e relações profissionais e sociais podem durar a vida inteira, como sei pela minha própria experiência. Toda relação, porém, mesmo a mais indiferente, precisa de esforço constante para ser preservada. Um olhar mau-humorado pode bastar para azedar a relação mais antiga. E Proust nos ensina que todo relacionamento humano varia ao longo dos anos, às vezes mais próximo, às vezes mais distante.

A heroína do filme, em uma comovente interpretação de Zhao Tao, é bela, ética, meiga (sei que o adjetivo soa antiquado, mas é correto, neste contexto) e generosa. Um erro — e é, em qualquer vida, o que pode bastar — a condena, e a vários outros personagens, à solidão. A decisão em questão é perfeitamente natural e parece correta, naquele momento. Suas consequências, porém, afetam negativamente a vida de vários dos personagens principais do filme, e por muitos anos.

A cena final provocou em mim enorme tristeza. Alguns amigos, talvez mais sábios, tiveram percepção diferente: julgaram que a heroína termina feliz, conformada com a sua condição solitária, já que humana.

 

Ficha técnica do filme: imdb

 

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